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Quarta-feira, 20 de Junho de 2018 Fundado em 1891

Ciência e Tecnologia

Febre amarela: dose fracionada garante imunidade prolongada

Jornal do Brasil Paulo Schueler

Em 9 de janeiro, o Ministério da Saúde divulgou que adotaria o fracionamento da vacina de febre amarela nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia como parte do enfrentamento ao surto da doença. Durante a divulgação, em coletiva de imprensa realizada em Brasília, o órgão governamental informou que a medida se baseava em estudo clínico desenvolvido pelo Instituto de Tecnologia de Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz), que demonstrava a eficácia da medida por pelo menos oito anos. Em paralelo à adoção da medida devido ao quadro epidemiológico, começava a corrida por publicar o trabalho por parte dos responsáveis pelo estudo, com vistas à comprovar para a comunidade acadêmica e os formuladores de políticas públicas de todo o mundo que a aplicação da dose fracionada da vacina de febre amarela atenuada de Bio-Manguinhos/Fiocruz tem respaldo científico e resulta no fundamental: a imunização da pessoa vacinada.

Essa corrida chegou ao fim: na última sexta-feira (18/5), o artigo Duration of post-vaccination immunity to yellow fever in volunteers eight years after a dose-response study foi publicado em acesso aberto na revista Vaccine. O trabalho apresenta o difícil quadro em que se insere a necessidade de imunização contra a febre amarela: a produção anual da vacina, em todo o globo, cobre apenas 17% das doses necessárias para obter uma cobertura de 80% nas áreas onde há recomendação para a mesma (80 milhões de produção anual para uma demanda de 450 milhões de doses.

Maior produtor mundial desta vacina, Bio-Manguinhos/Fiocruz diversificou suas iniciativas para oferecer alternativas à essa demanda de Saúde Pública. O Instituto busca aumentar sua capacidade de fornecimento, como através da construção do novo Complexo Industrial de Biotecnologia em Saúde, no Rio de Janeiro. E também, desde 1988, pesquisa o tema da redução das doses. O estudo agora tornado público é, portanto, o passo mais recente – e preciso – de uma ideia gestada já há 30 anos, mesma idade do Sistema Único de Saúde (SUS).

Desde então o Instituto avalia se doses reduzidas de sua vacina são capazes de obter a mesma eficácia, protegendo o indivíduo vacinado com grau similar ao da dose padrão. Neste estudo, que retoma pesquisa clínica realizada em 2009, foi possível determinar que sim, voluntários vacinados com as doses de 10.447, 3.013 e 587 UI (unidades internacionais) obtiveram imunidade similar àqueles vacinados com a dose de referência para a vacina de febre amarela atenuada de Bio-Manguinhos, de 27.476 UI, na rotina usual de aplicação subcutânea usando o volume de 0,5 ml.

Consultor Científico Sênior de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Reinaldo de Menezes Martins é o principal autor do artigo, escrito à várias mãos, em sua maioria do Instituto: assinam também Maria de Lourdes S. Maia, Sheila Maria Barbosa de Lima, Tatiana Guimarães de Noronha, Janaina Reis Xaviera, Luiz Antonio Bastos Camacho (Ensp), Elizabeth Maciel de Albuquerque, Roberto Henrique Guedes Farias (Exército brasileiro), Thalita da Matta de Castro, Akira Homma. Participou também o Grupo de Colaboração para Estudos sobre a Duração de Imunidade da Vacina de Febre Amarela (Suelen Manhães Pessanha, Maria Letícia Borges dos Santos, Robson Leite de Souza Cruz, Dayana Cristina Vieira de Souza, Ricardo Cristiano Brum, Clara Lucy de Vasconcelos Ferroco, Deborah Araújo da Conceição, Leonardo Secundino, Olindo Assis Martins Filho e Ana Carolina Campi Azevedo).

Em entrevista ao site de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Reinaldo de Menezes afirma que o trabalho prosseguirá através do acompanhamento dos voluntários, o que pode confirmar a hipótese de que as doses fracionadas garantem imunidade similares à da dose padrão por mais do que os oito anos assumidos na campanha do Ministério da Saúde. Confira aqui a conversa.

Bio-Manguinhos / Fiocruz



Tags: doença, febre amarela, fracionamento, minsitério da saúde, vacina

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