Jornal do Brasil

Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017

Ciência e Tecnologia

Debate: os caminhos da alimentação brasileira em dados e mitos

Workshop promovido pela Abia reuniu especialistas e autoridades do setor

Jornal do BrasilRebeca Letieri

Na última segunda-feira (16), comemorou-se o Dia Mundial da Alimentação. No Brasil, a alimentação é um direito garantido pela Constituição Federal. Em 2014, o país saiu do Mapa da Fome, com índice de insegurança alimentar abaixo de 5%. Entretanto, o Brasil é um país que lida com dois extremos, são 7,2 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave. Por outro lado, 60% dos brasileiros estão com sobrepeso e 20%, obesos. Além disso, um terço das crianças está acima do peso. 

A obesidade, contudo, não é analisada como algo oposto à fome por especialistas da área, e sim como "fome oculta", já que existe um excesso de comida, e uma falta de nutrientes essenciais.

“Existe obesidade entre os mais pobres também”, disse Marcia Terra, da Sociedade Brasileira de Alimentação (SBAN). “Como eu faço para que uma pessoa menos favorecida cozinhe depois de trabalhar o dia inteiro? Eu acho fantástico pregar o ‘cozinhar’, mas a realidade de muita gente não é essa. Tem que ser trabalhada uma nutrição da vida real”, acrescentou.

O presidente da Abia, Edmundo Klotz, fala aos presentes
O presidente da Abia, Edmundo Klotz, fala aos presentes

Em um debate afinado, descontraído e com uma grande variedade de dados técnicos, os palestrantes do workshop "Desafio e Escolhas Alimentares da População Brasileira" realizado na última quarta-feira (18) pela Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia) reforçaram a necessidade de se trabalhar em conjunto em políticas públicas que beneficiem a população, principalmente no acesso daqueles que possuem baixa renda. De forma que se leve em conta todos os obstáculos da vida moderna, urbana, e uma mulher cada vez mais inserida no mercado de trabalho.

"Está acontecendo uma mudança de cultura alimentar. Hoje, o homem que cozinha é visto como gourmet, e para a mulher virou um demérito. Quando eu entrei na faculdade, o debate era sobre a desnutrição, e agora a gente fala em obesidade. Essa dualidade não acrescenta. A educação é a chave para mudar isso", disse Vanderli Marchiori, nutricionista da Associação Brasileira de Nutrição Esportiva. 

Da esquerda para a direita: Marcia Terra, Vanderli Marchiori, Marcelo Tas, Daniella Cunha, e Raul Amaral no workshop em São Paulo
Da esquerda para a direita: Marcia Terra, Vanderli Marchiori, Marcelo Tas, Daniella Cunha, e Raul Amaral no workshop em São Paulo

Acesso, informação e liberdade

Um relatório da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) recomenda que o Brasil incentive o cuidado com a alimentação e mantenha programas governamentais de acesso a alimentos para garantir a segurança alimentar dos brasileiros.

Marcia explica que segurança alimentar é diferente de segurança de alimento. O primeiro significa garantia de acesso ao alimento, e o segundo são condições adequadas de alimento. Para tanto, ela diz que é necessário informar, educar, e empoderar o indivíduo para que ele tenha a “liberdade de escolha” desse alimento.

“Esse empoderamento acontece, por exemplo, através da rotulagem”, disse. “Devemos desfazer o mito de que antigamente as pessoas comiam bem e de forma mais natural. A comida dos nobres era processada e o resto ficava para os pobres. Não existe alimento bom ou ruim, existem hábitos alimentares. Alimento ruim é alimento estragado”, completou Márcia.

O jornalista Marcelo Tas, que mediou a mesa com especialistas da área de indústria alimentícia e nutricionistas, ressaltou a importância de haver mais debates aprofundados sobre temas tão importantes como saúde e alimentação, para fugir da polarização de discussões rasas que o mundo enfrenta hoje. Em uma enquete no Instagram, Tas afirmou que depois de aproximadamente três mil votantes, 86% disseram que as informações nos rótulos dos alimentos não são satisfatórias.

Para mudar isso, a Abia apresentou uma proposta de um novo modelo de rotulagem nutricional, evitando avaliar um alimento isoladamente sem inseri-lo no contexto da alimentação diária e hábitos de vida saudáveis. Evitando assim a simples inserção de advertências ou ilustrações, meramente interpretativas, ao invés de informar e educar, e fortalecendo o uso de evidências científicas que levem em conta recomendações nutricionais e o papel do alimento em uma dieta equilibrada, diversificada e inclusiva.

"Nós encomendamos uma pesquisa ao Ibope, qualitativa e quantitativa, para saber o que o consumidor quer de informação no rótulo dos alimentos", explicou Daniella Cunha, da Abia. "O resultado deve sair na segunda quinzena de novembro. Mas é importante frisar que a indústria de alimentação acredita que, por melhor que seja o modelo de rotulagem, ele nunca poderá oferecer a totalidade de informações existentes e não poderá substituir uma ação ampla de educação alimentar e nutricional, que oriente a população a entender as informações dos rótulos dos alimentos e saber como compor uma alimentação saudável e equilibrada". 

Os ícones de sódio, açúcares totais e gordura saturada passam a ser coloridos, em verde, amarelo e vermelho, cores de entendimento universal
Os ícones de sódio, açúcares totais e gordura saturada passam a ser coloridos, em verde, amarelo e vermelho, cores de entendimento universal

A proposta entregue à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) pelo setor produtivo é de uma rotulagem nutricional frontal com base indicativa por porção, onde os ícones de sódio, açúcares totais e gordura saturada passam a ser coloridos, em verde, amarelo e vermelho, cores de entendimento universal.

Trata-se de uma recomendação baseada em diversos trabalhos, numa análise do cenário mundial e em revisão bibliográfica realizada pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação – NEPA, da UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas.

Vanderli acrescentou que o desafio é fazer com que as pessoas deixem de olhar só para a caloria e passem a olhar também para os nutrientes. Vale lembrar que cada indivíduo apresenta necessidades nutricionais distintas, que mudam de acordo com idade, prática de atividade física, condições gerais de saúde e situação metabólica, entre outros fatores. Logo, uma alimentação adequada varia de pessoa para pessoa.

“A dose é individual e depende de vários fatores. Não existe um padrão. Tem que ter educação nutricional e um respeito à individualidade e a cultura alimentar de cada um”, completou.

O presidente da Abia, Edmundo Klotz, também afirmou que "todo alimento é bom. A dose é que é a diferença", defendendo hábitos alimentares equilibrados, que só podem ser proporcionados através de uma educação alimentar. E terminou o workshop dizendo que a recente polêmica gerada pela nova política da prefeitura de São Paulo, popularmente chamada de "ração para pobre", é antiquada, e precisa ser esclarecida. 

“A ‘ração do Doria’ é mais falatório do que programa. Acreditamos que as preparações tradicionais do alimento são as mais recomendadas”, disse Marcia ponderando: “É claro que o governo tem que tornar o alimento mais acessível e diminuir o desperdício. Mas isso tem que ser muito bem estudado e planejado, não pode ser feito desse jeito”.

A indústria alimentícia e os mitos

Projeções demográficas da Organização das Nações Unidas (ONU) apresentadas em junho deste ano mostram que a população mundial chegará a 8,6 bilhões até 2030, um aumento de 1 bilhão de pessoas em 13 anos. Como atender a toda essa população?

Os representantes da indústria defenderam uma desmistificação dos alimentos industrializados, que vêm sendo "demonizados" pelas práticas cada vez mais fortes de incentivo ao consumo de alimentos orgânicos e frescos. O presidente da Abia disse que a indústria defende agriculturas familiares, e defendeu que elas são essenciais para a cultura brasileira.

"Precisamos entender as necessidades do mundo hoje", disse Marcia, acrescentando: "Nada é simples. Se você deixa de consumir um chocolate do mercado, e faz brigadeiro em casa, dá no mesmo".

Raul Amaral, do Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL) mostrou estatísticas que evidenciam que o aumento da obesidade, por exemplo, não está ligado ao consumo de refrigerante, que ao longo do mesmo período diminuiu. Ele ironizou, ainda, a composição química da banana. “Deus ultra processou a banana”, disse Raul completando: “Tudo tem composição química”. 

Os alimentos processados são aqueles modificados do seu estado original por meio de uma grande variedade de tipos de processamento, com finalidades distintas. “E isso inclui a produção de alimentos convenientes para as populações urbanas, além da redução de perdas e desperdícios”, completa Luis Madi, o diretor geral do ITAL.

Vanderli fez coro ao especialista e, através de uma pesquisa, mostrou que o macarrão é o alimento mais consumido pela população brasileira, “porque é acessível e vem na cesta básica”, disse.

“Ele é um vilão? Não. E para os que gostam de olhar as calorias, em 100 gramas de macarrão têm 371 calorias, já em 100 gramas do coco, que está na moda, têm 406”, completou a nutricionista lembrando que isso não significa que o coco seja ruim, porém “não pode virar a base da nossa alimentação”.

Dessa forma, os palestrantes defendem que a rotulagem dos alimentos é uma ferramenta essencial para que o consumidor obtenha informações de forma padronizada, clara, simples e segura, para tomar decisões alimentares personalizadas e equilibradas. 

“A indústria vem caminhando para atender a necessidade da população e empoderar o consumidor para que ele seja capaz de fazer suas escolhas. A informação que deve constar no produto precisa ser clara e direta, este é o caminho para a educação nutricional, em que as pessoas tenham à sua disposição dados corretos e concretos sobre o alimento que está adquirindo”, aponta Vanderlí Marchiori.

"A indústria vem caminhando para atender a necessidade da população e empoderar o consumidor para que ele seja capaz de fazer suas escolhas", diz especialista
"A indústria vem caminhando para atender a necessidade da população e empoderar o consumidor para que ele seja capaz de fazer suas escolhas", diz especialista

Tags: alimentação, brasil, combate a fome, direitos humanos, fao

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