Jornal do Brasil

Quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

Ciência e Tecnologia

Mortes por febre maculosa assustam população do Noroeste Fluminense

A doença já matou quatro pessoas e outros 71 casos seguem sendo analisados

Jornal do BrasilRafael Gonzaga*

Quatro mortes por febre maculosa já foram confirmadas no Noroeste Fluminense, de acordo com nota oficial da Superintendência de Vigilância Epidemiológica e Ambiental da Secretaria de Estado de Saúde. Outros 71 casos suspeitos ainda sendo investigados. Os pacientes com suspeita da doença tiveram amostras recolhidas e seguem em processo de análise, aguardando confirmação ou não. As vítimas fatais são da cidade de Varre-Sai e as notificações se estendem também aos municípios de Natividade, Itaperuna, Porciúncula e Bom Jesus de Itabapoana. Segundo o Ministério da Saúde, em 2013 apenas um óbito por febre maculosa foi registrado em todo o estado do Rio de Janeiro.

Técnicos da vigilância epidemiológica estadual e agentes municipais de saúde também estão realizando coleta do carrapato da espécie Amblyomma cajennense, popularmente conhecido como "carrapato estrela", para a realização de análise. O carrapato é o principal transmissor da doença e pode ser encontrado mais comumente em cães, cavalos e capivaras que servem de reservatório do carrapato.

De acordo com o superintendente de vigilância epidemiológica e ambiental Alexandre Otávio Chieppe é importante frisar que as ocorrências são somente em localidades muito específicas para evitar causar um alarde desnecessário e consumo de medicamento sem reais motivos. “A febre maculosa aconteceu em uma determinada localidade muito específica daquele município. Ela não está espalhada por todo o município e, nesse caso, ela acontece especialmente próxima ao rio Carangola”, aponta Chieppe.

Elba Lemos explica mais sobre febre maculosa
Elba Lemos explica mais sobre febre maculosa

Quanto ao rio, a infectologista Elba Lemos, chefe do Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), a possibilidade de o agente transmissor ser levado para outros locais que tenham contato com o rio Carangola é remota. De acordo com ela, seria mais pertinente ressaltar a importância de animais como o cachorro, o cavalo e a capivara, que além de fonte de alimentação para os carrapatos, podem auxiliar no transporte e estão próximos ao homem. “É preciso ficar atento à presença desse inseto nos animais. É essencial que toda a população e os profissionais de saúde tenham conhecimento sobre os riscos do contato com carrapatos, direta ou indiretamente, pois esses artrópodes são o segundo maior transmissor de doenças para o homem”, pontua a infectologista.

Sobre o aumento dos casos de 2013 para 2014, Chieppe diz que uma parte importante dos casos está relacionada a uma excursão a um sítio, feita por um grupo de amigos, onde ocorreu a transmissão. “Depois que a doença é caracterizada, a tendência é haver uma diminuição dos casos. Os serviços de saúde não puderam fazer uma identificação precoce dos casos, o que acabou culminando nesses óbitos, mas no momento a gente não tem mais tido novos casos importantes”, diz Chieppe.

As diversas capivaras que existem na região estariam sendo acusadas de ser outro considerável motivo para o surto. A população local estaria percebendo um aumento na quantidade dos animais nas proximidades do rio Carangola. Chieppe, contudo, diz que no momento ainda não existem dados suficientes que permitam caracterizar que a capivara como principal reservatório da doença na região. “A gente sabe da existência das capivaras na área e estamos agora em conversa com o IBAMA para que possa ser feita uma avaliação do número de capivaras. Assim, veremos se há aumento e se tem alguma medida de controle que possa ser feita”, explica.

A Secretaria de Saúde do estado já iniciou um programa de ação que orienta os médicos a administrar imediatamente a medicação referente à doença nos casos de suspeita e ensinando a população local a se prevenir. “A febre é uma doença que traz sintomas muito comuns no começo, como febre, dor no corpo, manchas no corpo e pode ser confundida com várias outras doenças. Estamos fazendo recomendações para que as pessoas utilizem, de preferência, calças compridas, botas, roupas claras facilitando a identificação do carrapato e, sempre que sair de locais de mata, que procure pelo corpo o carrapato. Uma simples exposição ao carrapato não é suficiente para causar a doença, é preciso que haja um contato mais prolongado”, explica.

Ainda sobre os procedimentos para se proteger do risco de contaminação, Elba Lemos diz que a melhor forma de prevenir a febre maculosa é evitar áreas infestadas por carrapato, principalmente durante o período de maio a outubro. “Vale ressaltar que o controle de carrapatos em animais, assim como o uso de carrapaticidas devem ser realizados somente sob orientação de profissionais de saúde pública, agricultura e meio ambiente, considerando a concentração do produto, o melhor período do ano para o seu uso, e acima de tudo, os efeitos prejudiciais e a presença de resistência”, alerta.

A febre maculosa

A febre maculosa é provocada pela bactéria Rickettsia rickettsii, transmitida por carrapato e podendo evoluir até manifestações graves. A infectologista Elba Lemos aponta que o quadro clínico da doença é marcado por um início brusco, com febre alta e dores de cabeça, podendo haver ainda dores musculares intensas e prostração. Na evolução da doença, podem ocorrer hemorragias, náuseas e vômitos. Segundo a infectologista, o surgimento de lesões na pele aumenta também o grau de suspeição.

Exemplos de lesões na pele causadas pela febre maculosa
Exemplos de lesões na pele causadas pela febre maculosa

Lemos explica ainda que as manifestações clínicas surgem após um período de incubação que leva em média uma semana, mas que podem variar de 2 a 15 dias.

A infectologista explica que, pela febre maculosa ser causada por uma bactéria, o tratamento tem como base o uso de um antimicrobiano específico e de baixo custo, ministrado por via oral quando o paciente tem condições de ingerir a medicação. No entanto, a infectologista pontua que em pacientes graves, com edema e vômitos, por exemplo, o antibiótico deve ser ministrado por via endovenosa, além de ser necessária a administração de tratamento de suporte, dependendo da gravidade do caso. “Como a bactéria destroi a parede do vaso sanguíneo, o tratamento deve ser iniciado o mais rapidamente possível. A partir do sétimo dia de doença, a lesão torna-se irreversível e o óbito, inevitável”, alerta.

*Do programa de estágio JB

Tags: bom jesus de itabapoana, carrapato-estrela, febre maculosa, itaperuna, natividade, porciúncula, secretaria de estado de saúde, varre-sai

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