Jornal do Brasil

Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2014

Ciência e Tecnologia

Programa une comunidade e escola para educar meninas

Educate Girls já matriculou 58 mil garotas em distritos com alta desigualdade de gênero na Índia

PorvirCarolina Lenoir

“Se você educa uma mulher, educa uma nação”. O provérbio, bastante conhecido mas sem um consenso sobre a autoria, resume o impacto do empoderamento educacional feminino não apenas nas trajetórias individuais, mas também no rumo a ser seguido pelas gerações futuras. Com o objetivo de influenciar toda a sociedade da Índia, a Foundation to Educate Girls Globally investe em acesso à educação de qualidade em distritos com índices críticos de desigualdade de gênero. O país tem mais de 3,7 milhões de meninas fora da escola e cerca de 200 milhões de analfabetas.

Um modelo inovador de reforma escolar que garante a participação ativa de governo, escola, comunidade e alunas foi adotado em 5 mil instituições públicas de Pali, Jalore e Sirohi, onde ocorreu uma reorganização da estrutura existente e foram reaproveitados os investimentos que o governo destina à educação. Como resultado, a Educate Girls tem conseguido aumentar o número de meninas matriculadas, retê-las durante todo o ano letivo e melhorar os resultados de aprendizagem, especialmente em línguas e matemática. Em seis anos, mais de 58 mil garotas de 6 a 14 anos já foram matriculadas nesses locais.

Programa une escola e comunidade para educar meninas
Programa une escola e comunidade para educar meninas

A iniciativa – que foi anunciada como uma das 15 finalistas do WISE Awards 2014, prêmio que destaca ideias inovadoras em educação em todo o mundo – tem alcançado esses resultados por meio de estratégias que incluem um currículo diferenciado. A Educate Girls entende que, para manter as meninas na escola, é preciso que os métodos de ensino e aprendizagem sejam centrados nas crianças. Por isso, a organização capacita os professores com técnicas criativas, que melhoram o desempenho escolar.

“O Creative Learning and Teaching (CLT) é uma metodologia baseada em atividades que tornam o aprendizado mais divertido para as crianças, mantendo a santidade do ensino. Nós treinamos professores e voluntários, chamados Team Balika, para aplicar o módulo, com duração de 20 a 24 semanas, que inclui um kit exclusivo com atividades e jogos”, explica a fundadora e CEO do Educate Girls, Safeena Husain, em entrevista ao Porvir. Testes antes e depois da sua implantação são feitos nas escolas para avaliar a melhoria dos níveis de aprendizagem das crianças. Em um ano, os resultados de aprendizagem em inglês, hindi e matemática melhoram, em média, 30%.

Outra ação importante é a formação de jovens líderes, que atuam nas escolas e em seus vilarejos como referências. Chamado de Bal Sabhas, um conselho formado por 13 meninas é eleito democraticamente e tem como responsabilidade o estímulo à participação escolar. Como uma atividade extracurricular, as integrantes contam com currículo voltado para o desenvolvimento de habilidades como comunicação eficaz, liderança, pensamento crítico e resolução de problemas. “Trata-se de um conjunto de 10 competências que são trabalhadas por meio de cinco jogos interativos, que também lapidam a tomada de decisões, pensamento criativo, autoconhecimento, empatia, quociente emocional e gerenciamento de estresse. Ainda que essas atividades sejam trabalhadas apenas no Bal Sabhas, nós garantimos que as líderes sejam multiplicadoras entre suas colegas”, afirma a CEO.

Programa une escola e comunidade para educar meninas
Programa une escola e comunidade para educar meninas

Por fim, para a mobilização da comunidade, todas as escolas atendidas pelo Educate Girls contam com um Comitê de Gestão Escolar (CGE). Os integrantes também são eleitos e capacitados para estabelecer os chamados Planos de Melhoria Escolar (PME). De acordo com Safeena, o comitê é formado por 15 membros, divididos entre 11 responsáveis pelas alunas (preferencialmente 7 mulheres e 4 homens), um diretor da escola, uma professora, uma aluna e um representante do governo. “Eles trabalham a fim de melhorar a infraestrutura da escola, como na instalação de banheiros separados e bebedouros com água potável, e oferecer atividades extracurriculares. Apesar de não terem nenhum envolvimento com a elaboração do currículo escolar, eles podem demandar mais ou melhores professores, por exemplo, por meio do PME.”

O impacto cumulativo das ações da Educate Girls impressiona. Cerca de 568 mil crianças, meninos inclusive, se beneficiam das melhorias implementadas nas escolas, seja em relação à capacitação dos professores ou à infraestrutura. Ao mesmo tempo, a Educate Girls é capaz de realizar o trabalho com um gasto médio por estudante de apenas US$ 2,60 durante os dois anos em que realiza a intervenção. Depois desse período, é esperado que a instituição de ensino possa continuar o trabalho. A Educate Girls pretende expandir o número de escolas atendidas de 5 mil para 18 mil até 2016.

Tags: desigualdade, educação feminina, empoderamento, foundation to educate girls globally, gênero

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