Jornal do Brasil

Terça-feira, 21 de Outubro de 2014

Ciência e Tecnologia

Letalidade no Brasil seria alta se ebola entrasse no país, diz infectologista

Segundo médico, o risco de transmissão do vírus para outro continente existe, mas é baixo

Jornal do BrasilRafael Gonzaga*

As mortes por ebola na África Ocidental seguem deixando órgãos de saúde no mundo todo em estado de alerta. Guiné, Serra Leoa, Nigéria e Libéria enfrentam o pior surto do vírus ebola já registrado desde que a doença foi descoberta em 1976 e a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma ser a maior epidemia de febre hemorrágica em questão de área geográfica atingida, número de pessoas contaminadas e quantidade de óbitos. De acordo com o último balanço da OMS, divulgado no dia 31 de julho, 1.323 casos da doença foram registrados este ano e 729 pessoas já teriam sido vitimais letais do vírus.

O Ministério da Saúde brasileiro afirmou em uma nota divulgada na última sexta-feira (1) que o risco de propagação do ebola para o Brasil é baixo. A assessoria do Ministério reforça que não existe atualmente um plano de contingência específico para o ebola, mas caso algum caso seja identificado, o Plano de Resposta às Emergências em Saúde Pública – responsável por determinar os procedimentos necessários em casos epidêmicos ou de desastres – deverá atuar no caso.

De acordo com o infectologista Alberto Chebabo, presidente da Sociedade de Infectologia do Estado do Rio de Janeiro (SIERJ), o fato de a doença não ter transmissão por via aérea realmente diminui muito as chances de propagação da epidemia através de aviões, por exemplo. “O que acontece nos países atingidos é que lá você tem pessoas vivendo juntas em povoados, além de questões culturais como, por exemplo, a forma de lidar com o corpo após a morte. Além disso, a letalidade é muito grande, diminuindo também o tempo que uma pessoa doente tem de ficar expondo o vírus. Geralmente o paciente vai ficar doente e já vai ser internado, ele não fica muito tempo em contato com outras pessoas. A chance de transmissão em viagens é menor, o risco existe, mas realmente é muito baixo”, explica.

Médicos especialistas de diversas organizações já trabalharam em situações de isolamento em outros surtos
Médicos especialistas de diversas organizações já trabalharam em situações de isolamento em outros surtos

Outros países também já se pronunciaram quanto a esse risco pequeno de saída da doença para além da área epidêmica atual. A Itália e os Estados Unidos já teriam aconselhado seus cidadãos que evitassem qualquer viagem que não fosse muito necessária a Serra Leoa, Guiné e Libéria. Lembrando ainda que a OMS, até o momento, não fez restrições a voos em função da epidemia, mas alertou que o ebola pode vir a provocar uma perda catastrófica de vidas e severos prejuízos econômicos, caso não seja contido.

Apesar disso, a companhia aérea Emirates suspendeu seus voos para a Guiné por conta da epidemia neste sábado (2), sendo a primeira grande companhia aérea internacional a determinar restrições devido à propagação do vírus.

OMS atua também informando sobre Ebola
OMS atua também informando sobre Ebola

Por conta da preocupação com transmissão para outros países, Guiné, Libéria e Serra Leoa anunciaram também na última sexta-feira (1) o estabelecimento de estado de quarentena na região fronteiriça comum aos países – local onde ocorreu o último surto que deixou mais de 700 mortos. O anúncio foi emitido durante uma reunião de emergência realizada em Conacri, capital da Guiné, para debater a epidemia.

A grande preocupação internacional é justamente esse risco de a doença ser transportada para outros países, iniciando novos focos epidêmicos. De acordo com Chebabo, o cenário teria impactos diferentes de acordo com o local para onde o vírus fosse enviado. “Se isso acontece nos Estados Unidos ou na Europa, onde existe uma estrutura de saúde muito boa, o risco de disseminação vai ser muito baixo, vai haver uma contenção diminuindo esse risco. Se for em um país com uma estrutura menor, como por exemplo em países da América Latina, você tem risco de ter pequenas epidemias localizadas”, explica o infectologista.

Chebabo lembra ainda que, por ser uma doença muito difícil de tratar, ninguém está totalmente preparado para lidar com possíveis surtos. “Em termos de letalidade, acredito que teríamos taxas altas caso o vírus chegasse ao Brasil, como acho que teríamos até nos Estados Unidos com toda a estrutura que eles têm. É uma situação difícil, de riscos extremos até mesmo para o profissional de saúde”, avalia.

Apoio internacional

Entidades internacionais vêm se manifestando em apoio ao controle da epidemia. A Comissão Europeia, por exemplo, já enviou 3,9 milhões de euros para a prestação de cuidados médicos nas comunidades atingidas pelo vírus. O dinheiro doado é encaminhado vão para a OMS, responsável por fornecer equipamentos e dirigir a vigilância epidemiológica, e para o Médicos sem Fronteiras (MSF), a Cruz Vermelha e o Crescente Vermelho.

MSF orienta comunidade
MSF orienta comunidade

Além disso, o MSF afirmam em nota oficial que a organização atualmente está trabalhando para tratar pacientes e conter o surto de Ebola. Só na Guiné, a entidade teria três projetos médicos para responder a emergência do vírus Ebola: um no Hospital de Donka, em Conacri; um em Telimele, na Baixa Guiné; e outro em Guéckédou, na floresta da Guiné, epicentro do surto. Até a última quinta-feira (31), 210 pacientes haviam sido tratados pelo MSF no país e 80 teriam se recuperado.

Em Serra Leoa, o MSF afirma também ter tratado 45 casos suspeitos, em um projeto na cidade de Kailahun. Desses, 12 pacientes morreram. Na Libéria, os esforços envolvem um apoio ao ministério da saúde para frear a disseminação do Ebola em Monrovia com uma equipe de quatro pessoas.

De acordo com Chebabo, os problemas relacionados aos esforços no combate à epidemia ocorrem por se tratar de um surto em um lugar de difícil acesso, em uma região onde a saúde é muito complicada. “A epidemia está se expandindo, mas provavelmente não está sendo culpa das estruturas de apoio, é um surto realmente de difícil controle. Os surtos de ebola geralmente atingem um pico e depois começam a retroceder, ou seja, é possível estarmos em um momento de pico. É difícil saber também quando ele vai retroceder, os esforços estão sendo feitos de acordo com os avanços da epidemia”, avalia o especialista.

O vírus ebola

O ebola é uma doença severa, ocasionada pela transmissão de um vírus. Os principais sintomas são febre súbita, dores musculares, dores de garganta e de cabeça, além de fraqueza. Vômitos, diarréia e erupções cutâneas também fazem parte do quadro que pode causa ainda sangramentos internos e externos, comprometendo o funcionamento dos órgãos. O período de incubação do vírus pode se estender desde dois dias até três semanas.

A doença é transmitida de pessoa para pessoa, através do contato direto com sangue contaminado e fluidos corporais, ou ainda de forma indireta, quando ocorre contato com ambientes contaminados. Outro problema que se torna uma forma de contágio são os funerais das vítimas do ebola: existe chance de transmissão caso as pessoas tenham contato direto com o corpo.

O infectologista Chebabo aponta que um dos grandes problemas no tratamento dos pacientes está em o ebola ser uma doença viral sem um antiviral específico. “O que você faz é um tratamento de suporte, hidratando o paciente, transfundindo o fator de coagulação do sangue para diminuir sangramentos, tentando fazer uma alimentação parenteral e esperando com isso que o organismo combata o vírus”, explica.

* Do programa de estágio do JB

Tags: ebola, guiné, libéria, médicos sem fronteiras, NIGÉRIA, organização mundial da saúde, serra leoa

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