Jornal do Brasil

Quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

Ciência e Tecnologia

Com morte de Mourão, astronomia nacional perde seu principal interlocutor

Agência Brasil

A morte de Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, na última sexta-feira (25), representou para a astronomia brasileira a perda de seu maior interlocutor, de acordo com a pesquisadora e historiadora do Museu de Astronomia (Mast), Christina Helena Barbosa. Segundo ela, “O Brasil perde um cientista, um astrônomo, um interlocutor da ciência com a sociedade. Não há ninguém como ele no Brasil. Ninguém que possa, com a competência e habilidade que ele tinha, fazer o que ele fazia, sempre empenhado em montar acervo e em estimular e divulgar a pesquisa histórica de sua ciência”.

Christina Helena ressaltou que Mourão foi da primeira geração de astrônomos brasileiros que se profissionalizaram com o atual grau de especialização. “Hoje não se imagina especialistas sem doutorados. Mas, na época, isso não era comum. Sequer havia pós-graduação em astronomia. Isso, de fato, mudou a cara da astronomia no Brasil”, disse a pesquisadora.

Ela lembrou que Mourão fez parte de um grupo conhecido por Quatro Cavalheiros: “Jovens cientistas contratados no final da década de 50 pelo Observatório Nacional, que deram verdadeira mexida no observatório, com seus trabalhos e pesquisas. No caso dele, especificamente os trabalhos sobre estrelas duplas - desenvolvidos posteriormente na Bélgica - e sobre órbitas dos asteroides. São trabalhos que nos ajudam a compreender a natureza e a melhor conhecer o universo, as estrelas e a energia que nele existe”, acrescentou.

Para o chefe da Divisão de Atividades Educacionais do Observatório Nacional, Carlos Veiga, a grande contribuição de Mourão para o Brasil foi a divulgação que ele fez da astronomia para as pessoas comuns. “Graças a sua divulgação e ao bom nível como ela era feita por ele, a astronomia passou a ser conhecida no Brasil. Ele popularizou essa ciência como ninguém nunca o fez em nosso país”, disse. Segundo ele, depois de ter ficado quatro anos na Bélgica (de 1962 a 1967), Mourão retornou ao Brasil para dar sequência ao programa de observação do céu. Com a experiência adquirida no exterior, foi Mourão quem estabeleceu a observação de estrelas e asteroides a partir do Rio de Janeiro.

“Além de socializar a ciência, ele deixou pontos de partida para as gerações posteriores. A astronomia é uma ciência inquietante, porque cada resposta suscita uma série de novas perguntas. Isso, certamente o incomodava, como incomoda a todos os astrônomos. É muito difícil conviver com perguntas do tipo: qual é a origem do universo? Como o ser humano chegou e evoluiu? Existem outras civilizações? Qual foi a energia que resultou na construção do universo? São questões para divã de psiquiatra, mas que geram interesse nas crianças. Em muitos casos é o primeiro estímulo a se desenvolver nos estudos, além de ser complemento às aulas de física e geometria”, argumentou Veiga.

“É importante divulgar isso para a população, e essa foi a missão dele: "Divulgar esse papo 'maluco' a toda a população e fazer com que a sociedade participe disso. É fazer as pessoas entenderem que não há paranormalidade nos fenômenos ainda inexplicados”, completou.

Mourão estava internado há uma semana no hospital Quinta D’Or, no bairro de São Cristóvão, Rio de Janeiro, em decorrência de problemas pulmonares e de um acidente vascular cerebral. O enterro foi no sábado, no Cemitério do Cajú.

 

Tags: astrônomo, legado, mortem, nacionaol, observatório

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