Jornal do Brasil

Quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

Ciência e Tecnologia

Campanha estimula diagnóstico de hepatite C em população maior de 45 anos 

É estimado que 2,5 milhões de brasileiros tenham hepatite C, mas que grande parte não saiba

Jornal do BrasilRafael Gonzaga

A partir desta segunda-feira (28), Dia Mundial de Alerta para as Hepatites, terá início a campanha 45+ de incentivo ao diagnóstico da hepatite C. A campanha é uma iniciativa da Sociedade Brasileira de Hepatologia, a Sociedade Brasileira de Infectologia e da Associação Médica Brasileira (AMB) para alertar a população, em especial o que já tem mais de 45 anos, sobre a necessidade da realização de um teste específico que identifica a hepatite C, uma doença silenciosa que pode demorar mais de 30 anos para se manifestar.

Além de alertar a população em geral, a campanha 45+ visa também lembrar a comunidade médica, de todas as especialidades, sobre a importância da prescrição do teste específico que detecta o vírus da hepatite C – um teste de sangue simples, de baixo custo e que pode ser realizado em unidades públicas de saúde gratuitamente.

De acordo com o hepatologista Edison Parise, presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH), idealizador e um dos coordenadores da campanha, a hepatite C é uma doença de desenvolvimento lento e gradual, portanto pessoas que têm a partir de 45 anos podem estar infectadas e não saberem.  “É importante que se tratem, pois a hepatite C tem cura. Mas se não tratada, pode levar a doença hepática avançada e a um câncer de fígado de mais difícil tratamento”, alerta.

É estimado que 2,5 milhões de brasileiros tenham hepatite C. De acordo com o hepatologista, o problema do Brasil é que grande parte da população não sabe que tem a hepatite C. “Quanto mais velha essa população vai ficando, mais difícil vai se tornando o tratamento. Por isso o lançamento da campanha chama a atenção para o paciente com 45 anos ou mais: é nessa faixa de idade em que estão 70% dos pacientes”, conta.

Parise explica que a maioria das pessoas com a hepatite C foi infectada em uma época em que transfusão de sangue era feita com materiais não descartáveis, além da administração dos mais jovens de hepatoprotetores na veia. “Você começou a ter triagem nos bancos de sangue, que era uma forma de contágio relevante, representando mais de 50% dos casos. Não existe mais isso de seringas reutilizáveis também. A preocupação hoje em dia está no grupo de pessoas que fazem uso de drogas injetáveis, se expondo a mais riscos”, explica.

A Hepatite C é a causa de 25% dos casos de câncer de fígado que, por sua vez, têm 33% de probabilidade de morte no primeiro ano depois de iniciado o processo de câncer. Além disso, Parise lembra que a hepatite C causa outros problemas. “É uma doença sistêmica, não acomete somente o fígado. Ela pode desencadear lesões nos rins, no pâncreas. Entre pacientes com mais de 40 anos que tem hepatite C, a taxa de diabetes é quatro vezes maior se comparada com pessoas da mesma idade que não tem a hepatite C. Aumenta também o risco cardiovascular”, cita.

Na divulgação da campanha está programada a distribuição para médicos e para pacientes de material educativo em hospitais e centros médicos, palestras itinerantes dirigidas a profissionais de saúde e divulgação para o grande público via vídeos.

Hepatite C e Aids

Segundo um estudo publicado pelo “Journal of the American Medical Association”, um novo medicamento para a hepatite C teria apresentado também primeiros resultados positivos em pacientes infectados pela hepatite C e pelo HIV, que habitualmente são difíceis de tratar.

Os pacientes tomaram um coquetel com uma droga aprovada para o mercado americano em 2013 chamada sofosbuvir. A maioria dos pacientes, entre 67% e 94%, dependendo dos casos, observou o desaparecimento da doença, que não retornou nas 12 semanas seguintes ao fim do tratamento.

O caso do tratamento de hepatite C em pacientes soropositivos mostra como os avanços que vem ocorrendo no tratamento da doença. De acordo com Parise, a chegada de novos medicamentos no mercado possibilita que tratamentos sejam feitos de forma mais rápida. “Trinta anos atrás, a gente tratava a hepatite com interferon e tinha um índice de cura que chegava a só cerca de 10% dos casos. Você tinha um tratamento longo, cheio de efeitos colaterais. Eram muitos efeito colaterais e poucos benefícios. Nestes anos a gente veio conseguindo curar cada vez mais a hepatite”, conta.

O hepatologista conta que existe uma linha de novos medicamentos sem uso de interferon, em tratamentos que são realizados em um terço do tempo anterior, com taxas de cura significativas, administrados por via oral. “Hoje em dia a taxa chega a atingir uns 80% e, com as drogas novas que estão sendo aprovadas, a ideia é aumentar a taxa de cura. Essas drogas estão vindo em ondas, e atualmente estamos no que chamamos de segunda onda, aguardando discussão e aprovação pelo Ministério da Saúde. A gente acredita que até o fim do ano, essas drogas já vão estar disponíveis aqui. A terceira onda deve ser aprovada pelos órgãos de regulação dos Estados Unidos em meados do fim deste ano ou no começo do próximo”, conta.

XVII Hepatologia do Milênio em 2014

Do dia 23 ao dia 25 deste mês aconteceu em Salvador, Bahia, o XVII Simpósio Internacional de Terapêutica em Hepatologia Viral. De acordo com Parise, o congresso faz parte do calendário da Sociedade Brasileira de Hepatologia e é um importante evento regional do Nordeste, mas com amplitude mundial graças à presença de especialistas do mundo todo. “Todos os novos medicamentos que estão em estudo atualmente estão sendo apresentados”, revela.

Durante o simpósio, aconteceram discussões interativas de casos clínicos, jantares científicos e a divulgação de recomendações terapêuticas para a hepatite C por parte da Associação Latino-americana para o Estudo do Fígado, entre outras atividades.

Tags: aids, avanços, CIÊNCIA, CONGRESSO, diagnóstico, hepatice c, hepatites, HIV, remédios

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