Jornal do Brasil

Quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

Ciência e Tecnologia

Período de chuvas aumenta proliferação de caramujos que transmitem meningite

Jornal do Brasil

No Rio, o caramujo gigante africano  já é muito conhecido, tanto na Região dos Lagos como dentro do próprio município, especialmente na Zona Oeste da cidade. O que muitas pessoas podem não saber é que ele carrega o verme Angiostrongylus cantonensis, que causa um tipo de meningite. Com as chuvas, eles se proliferam com mais facilidade, aumentando a chance de contaminação. Chamada de meningite eosinofílica ou angiostrongilíase cerebral, ela já foi diagnosticada em seis estados, nas regiões Nordeste, Sudeste e Sul do país. 

A meningite é uma inflação nas meninges, membranas que envolvem o cérebro. A meningite causada pelo verme apresenta os mesmos sintomas das outras mas, segundo médico Carlos Graeff-Teixeira, da PUC-RS, que participou de um levantamento sobre a doença no Brasil, podem haver pequenas diferenças. “A meningite mais comum é causadas pelo vírus e depois pela bactéria e, clinicamente, as meningites se parecem muito. Os sintomas são dor de cabeça, febre e rigidez e nuca: o doente não consegue encostar a cabeça no peito. Na meningite causada pelo verme, os sintomas podem ser mais intensos, com dor de cabeça muito forte”, comenta.

Ele explica que a meningite causada pelo verme tem baixa letalidade e poucas chances de sequelas. Cerca de 3% dos infectados pode morrer e 1% ficar cego. “Chamamos de uma meningite pura, ela não causa muito comprometimento do cérebro. Quando compromete, deixa sequelas como distúrbio de equilíbrio e deficiência motora ou outras. Tudo depende da área do cérebro mais afetada". 

Caramujo gigante africano é comum em diversas áreas do sudeste
Caramujo gigante africano é comum em diversas áreas do sudeste

Quando o paciente tem suspeita de meningite, é colhido o líquor, líquido que fica entre as meninges e é extraído através da punção lombar. Através dele que é feita a análise do tipo de meningite que o paciente tem. A constatação é importante para o tratamento “Para cada tipo de agente infecciosos, há uma diferença de tratamento. Para bactéria é antibiótico, para vírus não tem medicação, e no caso da eosinofílica a ideia geral é usar um remédio que atue sobre os vermes. Não existe nenhum medicamente que seja comprovadamente eficaz. Então a recomendação bem clara é do uso de corticoides, ou seja, anti-inflamatórios”, completa o médico. 

O levantamento faz parte de um estudo feito em parceria pelo Instituto Oswaldo Cruz(IOC/Fiocruz), Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Universidade de Khon Kaen, da Tailândia.

A bióloga Silvana Thiengo, uma das autoras do artigo e chefe do Laboratório de Malacologia do IOC, explica que a forma mais recorrente de contaminação é através de hortaliças mal lavadas, infectadas com o muco liberado pelos caramujos ou a ingestão acidental dos moluscos crus. “Nos não temos habito de comer caramujo cru, como acontece na Tailândia ou no Havaí. Aqui é mais incomum e a ingestão ser feita por acidente, por crianças, por exemplo. A contaminação é sempre pela ingestão, tanto do muco quanto do molusco. Não acontece contaminação se entrar em contato com a pele, nem de uma pessoa para a outra”, explica a especialista.

Ela sugere sempre limpar as hortaliças com uma solução de água sanitária, numa proporção de uma colher de sopa para cada litro de água e deixar de molho por meia hora. Para matar os caramujos, a mistura deve ser uma parte de água sanitária para três partes de água. Ela diz que a famosa receita de jogar sal também funciona: “Deve-se fazer uma solução com bastante sal e deixar os caramujos de molho de um dia para o outro”, completa.

Ele já infestou alguns locais do país e podem ser catados e descartados no lixo comum
Ele já infestou alguns locais do país e podem ser catados e descartados no lixo comum

Para combatê-lo, ela recomenda catá-los com uma luva ou saco plástico. "É bom lembrar de catar também os ovos, que são esferas amareladas de cerca de meio centímetro, que ficam semi-enterradas", completa.  Ela explica que, depois de mortos, eles podem ser descartados no lixo. 

Ela diz que outros crustáceos, como camarão e caranguejo também podem transmitir a doença, se comidos cru, outro hábito que o brasileiro não tem. Segundo ela, outros tipos de caramujos também transmitem a doença, mas a preocupação com o caramujo africano gigante é justamente a infestação que se instala no Brasil. 

"O caramujo entrou no brasil na década de 80, numa feira agropecuária. Ele veio para o Brasil com o intuito de ser criado como scargot, para a alimentação. Como esse empreendimento não deu certo, não é algo cultural comermos caramujo cru, os caramuhos foram soltos e agora atingem várias regiões do Brasil", conta Silvada, lembrando que eles entraram pelo nordeste. 

Assim como o molusco, os ratos também fazem parte do ciclo do verme.  “Os vermes adultos são encontrados nos pulmões dos ratos, que eliminam, nas fezes as larvas. As larvas são ingeridas pelos moluscos e os ratos comem novamente os moluscos, fechando o ciclo. Aí que o homem entra no ciclo, ingerindo moluscos e sendo infectado", explica. 

Tags: caramujo africano, chuvas, CIÊNCIA, fiocruz, Inverno, medicina, meningite, puc-rs

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