Jornal do Brasil

Quarta-feira, 23 de Julho de 2014

Ciência e Tecnologia

Neurologista critica atendimento médico de jogadores na Copa

Casos como o do uruguaio Álvaro Pereira poderiam ter tido desdobramentos trágicos

Jornal do BrasilRafael Gonzaga

A grande final entre Alemanha e Argentina acontece neste domingo (13) e um dos assuntos que mais chamaram atenção da imprensa mundial foram os lances perigosíssimos de falta. Além da trágica fratura de vértebra que o tirou da competição, o jogador brasileiro Neymar também sofreu uma na partida contra o Chile, caindo praticamente de cabeça no gramado. Entre casos como o nariz quebrado do americano Dempsey e o acidente com o ombro de Thomas Muller, se destaca também o caso do uruguaio Álvaro Pereira que caiu desacordado e continuou em campo, após se recusar a ser substituído.

Para o neurologista Abouch Krymchantowski, as autoridades médicas da Fifa responsáveis pela partida deveriam ter agido com menos negligência no caso de Álvaro Pereira. “Eles poderiam ter mandado o indivíduo sair do jogo, levado pelo menos para o vestiário, feito um exame neurológico. Um médico que não seja neurologista dificilmente vai saber fazer um exame neurológico. No mínimo seria necessário colocar ele deitado em um lugar tranqüilo, fazer um exame neurológico e manter o jogador em observação para que, notada qualquer alteração, o jogador pudesse ser levado para um hospital”, explica.

>> Lesões no esporte trazem consequências danosas, adverte neurologista

O médico explica que o crânio é uma espécie de caixa fechada. De acordo com o especialista, a calota craniana tem alguns poucos buracos – o orifício dos olhos e o local por onde passa a medula – mas que o conteúdo do interior do crânio (cérebro, vasos, sangue, líquido do sistema nervoso) pode variar, aumentando quando há sangramento. “O cérebro reage a pancadas através da inchação, o que a gente chama de edema, e quando isso acontece, para onde esse conteúdo vai crescer se a caixa craniana é fechada? Não tem para onde crescer e a pressão dentro do crânio aumenta. O cérebro sofre aumentos de pressão, a função cerebral deixa de acontecer e o indivíduo acaba morrendo”, alerta o médico.

O dr. Krymchantowski conta também que uma pancada, que não precisa necessariamente ser muito forte, pode provocar sangramento ou edema cerebral. “Se isso acontece e a pessoa não é avaliada corretamente, a pressão dentro do crânio pode aumentar, pressionar o cérebro e a pessoa pode entrar em coma e morrer”, conta.

Sobre o atendimento dos jogadores contundidos, o neurologista também lamenta que as necessidades médicas do jogador acabem não sendo a prioridade no momento da partida de um grande campeonato. “Infelizmente, as questões de prioridade são movidas pelo dinheiro. O que é a prioridade de um não vai se sobrepujar ao interesse da maioria que quer ver o cara jogando, é uma situação onde tem muito dinheiro envolvido”, conta.

Segundo médico, atendimento imediato de Neymar não foi o mais adequado
Segundo médico, atendimento imediato de Neymar não foi o mais adequado

O médico aponta ainda outros exemplos de lesões na Copa que poderiam ter tido desdobramentos ainda piores se o jogador em questão tivesse se recusado a fazer acompanhamento médico. “Se o Neymar não tivesse ficado caído, gritando de dor, certamente ele teria continuado em campo até o acidente se desdobrar em alguma coisa mais séria. Quando o indivíduo está quente, ele pode demorar a sentir os efeitos do acidente”, alerta.

Ele aponta ainda possíveis falhas no socorro ao qual o jogador Neymar foi submetido, após a joelhada que terminou na fratura de uma das vértebras do jogador. “Em traumas de coluna, ninguém pode ser carregado sem uma prancha de imobilização, e o Neymar foi carregado em uma maca que mais parece uma cesta. Se ele tivesse tido uma lesão mais grave, teria piorado”, aponta.

O neurologista afirma também que a maioria dos médicos dos times são ortopedistas, cuidando assim de lesões mais comuns no futebol. Porém, por conta disso, de acordo com ele, se um jogador sofre uma lesão neurológica, provavelmente não terá ninguém capacitado a fazer um exame neurológico correto à disposição.

Outros casos de acidentes neurológicos já assustaram a comunidade esportiva. Nessa edição da copa, foi o zagueiro holandês Bruno Martins Indi quem sofreu a primeira lesão grave em uma das partidas do Mundial. Em um lance com o atacante Tim Cahill, da Austrália, ele bateu a cabeça no gramado estádio e desmaiou. O jogador foi levado ao hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, e foi constatado que o jogador havia sofrido um traumatismo craniano leve.

O dr. Krymchantowski lembra ainda que quase todo esporte desse tipo é traumático e que, portanto, medidas de cuidado devem ser tomadas. “Em primeiro lugar é preciso ter sempre um neurologista presente e um exame de imagem à disposição. Em segundo lugar, quando há um trauma de crânio, a abordagem precisa ser mais agressiva: é preciso que o jogador dê uma repousada”, recomenda.

Tags: acidente, acidentes neurológicos, álvaro pereira, copa do mundo, lesão, neurologia, neymar

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