Jornal do Brasil

Domingo, 23 de Novembro de 2014

Ciência e Tecnologia

Creme que promete clarear pele negra gera polêmica médica e debate social

Comunidade médica questiona efeitos prometidos; produto levanta questão do racismo

Jornal do BrasilRafael Gonzaga

Um creme que promete o clareamento de peles morenas e negras em sete dias tem sido alvo de debate tanto pela comunidade médica quanto por entidades que lutam contra o preconceito racial. O creme chamado Whitenicious, agiria na hiperpigmentação, além de livrar a pele de manchas escuras e até mesmo de acnes. O produto tem feito sucesso na África Ocidental e está sendo promovido pela cantora nigeriana Dencia, que apresentou resultados visíveis nela mesma em fotos antes e depois de utilizar o creme.

No site responsável pela venda do produto para todo o mundo, poucas informações sobre a composição do produto estão disponíveis, o que gera dúvidas na comunidade médica se os agentes utilizados no produto são realmente os indicados no site. De acordo com as especificações, o Whitenicious utilizaria como agentes aloe vera e vitaminas C e E combinados. O fabricante ainda garantiria que a composição do produto proporcionaria a despigmentação cutânea de uma forma não agressiva.

Comercial do produto 
Comercial do produto 

A dermatologista Gabriella Albuquerque, coordenadora do Departamento de Cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) no Rio de Janeiro, questiona a eficácia do produto, a ação dos agentes indicados da forma como é apresentado e o tempo indicado de eficácia. “A vitamina C é um antioxidante importante, que inclusive deveria ser utilizado por todo mundo. Ela ajuda na fotoproteção, mas o poder de clareamento dela é muito pequeno. A vitamina E funciona como hidratante e também ajuda na fotoproteção. Ela potencializa a própria ação da vitamina C e aumenta o tempo de validade do produto, mas não clareia. A aloe vera tem um forte poder de hidratação, mas não tem o menor poder de clareamento”, explica.

Sobre o produto poder causar algum dano à saúde, a dermatologista lembra que esses ativos indicados pelo fabricante não causam riscos às pessoas, mas o que estaria sendo alvo de preocupações era a possibilidade de o creme conter outros tipos de componentes.

Um dos possíveis componentes que poderia fazer parte do produto, segundo a comunidade médica, é a hidroquinona, um composto orgânico aromático. A dermatologista explica que a hidroquinona atuaria em todas as etapas do clareamento, mas, por causar efeitos adversos na pele, teria sido recentemente proibida na União Europeia. “Ela causa um efeito chamado leucodermia, que é a destruição do melanócito. É uma destruição tão intensa, que a pele se torna branca como se a pessoa tivesse vitiligo. Em alguns casos, a pele se torna clara demais com várias manchas brancas, sem a uniformidade desejada”, adverte.

Além disso, a dermatologista explica que se acredita que esse possível componente do Whitenicious possua alguma ação cancerígena na pele, mas que esse aspecto ainda estaria sendo estudado. Quanto ao tempo de ação do produto, a dermatologista diz ser impossível um resultado da forma como vem sendo apresentado. “De qualquer modo, mesmo com a hidroquinona, oferecer o resultado em sete dias é impossível. O tempo de replicação da pele é de 21 dias, ou seja, é esse o tempo mínimo necessário para ver resultados gerais na pele”, conta.

Debate social

Outro ponto que tem sido abordado nesse caso é o fato de várias jovens negras estarem buscando o produto para branquear a pele. A própria cantora Dencia teria dito que o produto cosmético serviria para proporcionar bem-estar, visto que ao clarear a pele, as usuárias passariam a estar imunes ao racismo. No site oficial da venda do produto, a cantora africana diz que a criação do produto foi motivada pelo processo ininterrupto de marginalização da comunidade negra perante o mercado internacional de cosméticos.

Medidas como a incentivada pelo produto vão de encontro às ações afirmativas pela igualdade racial promovidas pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir). Mônica Oliveira, diretora de programas da Secretaria de Políticas e Ações Afirmativas da Seppir, lembra que a garantia de que o fato da pessoa clarear a pele vai torná-la imune ao racismo é ilusória. “As manifestações de racismo não se restringem à pele mais escura. Não é garantia. Os mecanismos de manifestação do racismo são muitos diversificados”, pontua.

Para Mônica, um dos efeitos mais perversos do racismo é justamente essa negação da identidade racial. “Se a pessoa convive desde a infância sob permanente violência sobre aquilo que ela é, ela pode desenvolver a tendência de negar sua condição racial para se proteger do racismo. As pessoas passam a se negar para serem aceitas”, explica.

Mônica diz também que é bastante delicado afirmar se as pessoas deveriam ou não usar o Whitenicious, visto que as pessoas são livres para fazer suas escolhas. O que a integrante do Seppir comenta é que o Brasil segue uma corrente oposta, com a identidade negra sendo cada vez mais valorizada. “A população negra no Brasil vem fazendo um caminho inverso a isso. No último Censo, a população negra se afirmou mais ainda: em 2010, 50,7% das pessoas se afirmaram negras ou pardas. Ou seja, hoje, do ponto de vista oficial o Brasil tem maioria negra. Isso é um avanço do movimento negro e das ações de afirmação da identidade negra”, aponta.

Sobre o creme especificamente e sobre a vinculação do produto com uma popstar, Mônica diz que não dá para avaliar imediatamente os efeitos disso, mas que esses efeitos vão aparecer. “Por que temos que ser todos da mesma cor e essa cor tem que ser a cor branca? Não se justifica a hierarquização de que uns são positivos e outros são negativos simplesmente pela cor da pele. É preciso destacar positivamente a identidade racial”, diz.

Tags: clareamento, cosmético, creme, pele negra, Racismo, whitenicious

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