Jornal do Brasil

Sábado, 22 de Novembro de 2014

Ciência e Tecnologia

Pesquisa aponta para possível relação entre câncer de mama e carne vermelha

Nutricionista recomenda que se coma mais alimentos de origem vegetal

Jornal do BrasilRafael Gonzaga *

Um estudo liderado pela Escola de Saúde Pública de Harvard, nos Estados Unidos, estabeleceu uma relação entre o alto consumo de carne vermelha na vida adulta e o aumento do risco de aparecimento de câncer de mama. Os pesquisadores envolvidos no estudo recomendaram a substituição da carne vermelha por uma combinação de feijões, ervilhas, lentilhas, nozes, peixes e aves que, segundo eles, poderia diminuir o risco de aparecimento da doença em mulheres mais jovens.

Os recentes dados são provenientes de um estudo acompanhou a saúde cerca de 90 mil mulheres com idades entre 24 e 43 anos. A equipe do projeto acompanhou a dieta de aproximadamente três mil mulheres que tiveram câncer de mama. Apesar de os próprios médicos da pesquisa terem descrito o aumento do risco como pequeno, o estudo concluiu que a ingestão elevada de carne vermelha pode ser um fator de risco para o surgimento do câncer de mama.

Pesquisa alerta para alto consumo de carne
Pesquisa alerta para alto consumo de carne

A nutricionista Maria Eduarda Melo, da Unidade Técnica de Alimentação, Nutrição e Câncer, do Instituto Nacional de Câncer (Inca) explica que uma alimentação saudável e variada pode diminuir os riscos e proteger contra o câncer. “O que a gente recomenda é ter uma alimentação com predominância de alimentos de origem vegetal, como frutas, legumes e verduras. Esses alimentos possuem nutrientes que são protetores para o nosso organismo, diminuindo o risco de câncer”, diz.

Sobre a pesquisa, a nutricionista explica que, diferente da carne vermelha, vegetais são alimentos de baixa densidade energética, ou seja, fornecem poucas calorias. De acordo com a especialista, a obesidade é um dos principais fatores de risco para vários cânceres, como o de mama e o de endométrio. Evidências recentes teriam ainda mostrado que o sobrepeso está relacionado com o câncer de ovário também.

Nesse ponto da questão calórica dos alimentos, a nutricionista explica que as carnes vermelhas têm um alto teor de gordura e isso contribui para a questão do ganho de peso. Portando, esse seria um dos mecanismos usados para associar a carne vermelha com o surgimento de câncer.

Segundo a especialista, a forma como a carne é preparada também é relevante. “Quando você submete essa carne a temperaturas muito elevadas, ao fritar, por exemplo, você forma compostos que são cancerígenos, como aminas heterocíclicas e hidrocarbonetos aromáticos”, conta.

Maria Eduarda Melo diz ainda que uma pessoa que consuma muitos alimentos prontos e carnes processadas como salame, bacon e presunto deve tomar algum cuidado. “Geralmente esses produtos contêm um alto teor de gordura, contribuindo para o ganho de peso, aumentando assim o risco do desenvolvimento de vários tipos de câncer. Além de que alimentos processados podem levar uma grande quantidade de sal, para além dos conservantes, e existem evidências que associam esse consumo alto de sal com câncer de estômago”, explica.

Carne vermelha e câncer de colorretal

A relação do consumo de carne com o aparecimento de câncer não é novidade. Pesquisas anteriores já apontavam para a relação entre o consumo de grandes quantidades de carne vermelha e de carne processada com o aumento do risco de câncer no sistema digestivo.

A nutricionista inclusive faz questão de salientar para o consumo desses alimentos. “Em relação às carnes processadas como bacon, presunto, salame, até mesmo hambúrguer, a gente pede pra evitar mesmo. Já a carne vermelha tem outros nutrientes, como ferro e B12. O que nós recomendamos é limitar o consumo, em até 300g da carne já cozida por semana”, indica.

Especialista em enfermagem oncológica, a enfermeira Alexandra Zandonai possui inclusive um trabalho em que foram demonstrados os fatores de risco do consumo de carne e sua influência na incidência do câncer colorretal. Alexandra aponta que evidências científicas têm sido avaliadas e sumarizadas em recomendações por diferentes grupos de especialistas, que concluíram essa relação.

Zandonai aponta para o alto consumo no Brasil de carne vermelha, e alerta para como é feita a carne. “No preparo você precisa tomar cuidado para não formar aquela casquinha queimada. Essa casquinha contém alcatrão, o mesmo componente que existe no cigarro. E as carnes defumadas estão muito relacionadas ao câncer colorretal. Elas apresentam, durante o processo de defumação, compostos nitrosos. São agentes cancerígenos que, depois de consumidos, vão alterar a estrutura das células intestinais durante o processo de digestão”, diz.

Para se prevenir do câncer de mama, do câncer colorretal e de todos os demais cânceres, a nutricionista Maria Eduarda Melo recomenda manter a alimentação predominantemente composta por alimentos de origem vegetal, de forma a ter todos os nutrientes que protejam o organismo contra o desenvolvimento de câncer. “Infelizmente, dados de pesquisas nacionais mostram que o hábito do brasileiro de comer legumes e verduras é muito baixo. Para ter esse efeito protetor contra o câncer, são recomendadas cinco porções desses alimentos todos os dias, mas apenas 23% da população consomem esse recomendado de vegetais”, conta.

Especialistas pedem cautela com resultados de pesquisa

Apesar dos resultados da recente pesquisa norte-americana, especialistas britânicos e americanos dizem que é preciso observar esses resultados com alguma cautela, visto que estudos anteriores não conseguiram definir uma ligação tão clara entre carne vermelha e câncer de mama.

O professor associado da Faculdade de Farmácia da UFRJ Luis Mauricio Lima concorda que é preciso tomar cuidado com esse tipo de informação. De acordo com o professor, a leitura cuidadosa do artigo original revela que existiria uma chance aumentada de 1 em cada 100.000 mulheres de ser acometida por câncer de mama caso elas aumentassem o consumo de carne vermelha em uma porção diária - e não exatamente as chances alarmantes de cerca de 20% de haver a doença que estão sendo divulgadas.

Em artigo escrito pelo professor, ele aponta detalhes do estudo que deveriam ser vistos com mais calma. “O que não se comenta é que isso seria unicamente válido quando comparados os grupos de maior e menor consumo, não havendo qualquer relevância estatística com grupo de consumos intermediário de carne vermelha, indo contra o que é universalmente observado na ciência e epidemiologia: dose-resposta”, diz o professor em artigo.

Lima diz também que existem outros fatores sobre as próprias pessoas que foram analisadas que devem ser levados em conta. “Sem esquecer de mencionar que neste estudo o grupo de maior consumo de carne vermelha – o único que apresentaria maior risco, 1 em 100.000 - é o que mais fuma. Existe uma necessidade premente de se fazer uma análise detalhada das informações publicadas, tanto pelos revisores de artigos científicos ao aceitar trabalhos sem demandar cuidado dos autores na informação que concluem, quanto pela mídia e sua urgência por estar à frente da informação”, conta.

* do Projeto de Estágio do JB

Tags: CÂNCER, carne vermelha, harvard, nutrição, pesquisa

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