Jornal do Brasil

Terça-feira, 2 de Setembro de 2014

Ciência e Tecnologia

Chute de abertura na Copa é pontapé inicial para avanços na área da paralisia

Paraplégico será o primeiro a tocar na bola na abertura do Mundial, usando um exoesqueleto robótico

Jornal do BrasilRafael Gonzaga *

Em meio a tantos craques nacionais e internacionais do futebol, o primeiro chute que será dado na Copa do Mundo que acontece no Brasil será protagonizado por um adolescente paraplégico, no dia 12 de junho, no Arena Corinthians, em São Paulo. O jovem, paralisado da cintura para baixo, irá utilizar uma vestimenta robótica chamada de exoesqueleto para conseguir realizar o feito. Mais do que abrir o maior evento de futebol do planeta, essa exibição tecnológica, que será transmitida em escala global, atenta para as inovações realizadas na luta em fazer com que paraplégicos e tetraplégicos retomem seus movimentos.

Em diversos lugares do mundo há diferentes pesquisas com tipos variados de exoesqueletos que vêm sendo desenvolvidos ambicionando restaurar a mobilidade de pessoas que perderam os movimentos das pernas. O primeiro modelo foi construído ainda na década de 1960 nos Estados Unidos, pelo Pentágono.O projeto, que tinha como proposta aumentar a força de militares, foi abandonado por pesar praticamente meia tonelada, entre outras limitações.

O exoesqueleto elaborado por Nicolellis
O exoesqueleto elaborado por Nicolellis

A própria pesquisa sobre os exoesqueletos teve seu início dissociada da neurociência, mas posteriormente os cientistas que trabalhavam na área da robótica perceberam que poderiam relacionar os conhecimentos em produção de exoesqueletos com os estudos na área de interfaces cérebro-máquina (ICM).

O médico neurocirurgião Rodrigo Tragante explica que o sistema interface cérebro-máquina consegue perceber a ativação de diferentes áreas do cérebro através da detecção da passagem do impulso elétrico pela diferentes áreas, seja através do eletroencefalograma ou seja por eletrodos na superfície cerebral. “Lembrando que cada área do cérebro tem sua função. Portanto, detectando qual área está eletricamente ativa, é possível inferir qual a expressão externa daquele impulso como, por exemplo, mexer o braço. O sistema detecta uma ativação na área motora responsável por mexer o braço e aciona o robô para que este movimente o braço mecânico”, explica.

São duas as principais frentes nas pesquisas com exoesqueletos operados interfaces cérebro-máquina. A primeira envolve aprimoramentos robóticos, fazendo com que os mecanismos se tornem mais rápidos e com que a reprodução de movimentos fique mais próxima dos humanos. A segunda envolve aperfeiçoar a qualidade de captação e mapeamento dos sinais cerebrais.

Uma opção diferente considerada pela comunidade científica para o controle de exoesqueletos tem sido a aplicação de implantes cerebrais. Implantados na região craniana do paciente, esse mecanismo traria a vantagem de receber sinais de um grupo relativamente maior de neurônios de forma mais direta e com uma quantidade reduzida de interferências. A técnica, contudo, é bastante invasiva, visto que necessita de uma neurocirurgia em sua implantação.

Outras pesquisas na área são as que envolvem células-tronco. De acordo com Tragante, muita pesquisa está sendo feita nessa área, mas sem grandes resultados. “Existe muito investimento em pesquisa de células-tronco e os resultado iniciais são um tanto quanto desapontadores, exceto nos casos de isquemia cerebral. Nas lesões medulares, houve pouco ou nenhum avanço prático”, esclarece.

Abertura do Mundial de futebol

A demonstração que será feita na abertura do Mundial de futebol é fruto de R$ 34 milhões de investimentos do Governo Federal, pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), empresa ligada ao Ministério de Ciência e Tecnologia. Além disso, o projeto, chamado ‘Walk Again’ conta com a mobilização de uma equipe de 156 cientistas de 25 países diferentes, coordenada pelo cientista brasileiro da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, Miguel Nicolelis.

Talvez a principal novidade do projeto que abrirá a Copa do Mundo é que a estrutura robótica, que pesa cerca de 60 quilos, permite que o jovem tenha a sensação de contato com o solo, como se os pés estivessem em contato com o chão. Isso será possível graças a sensores acoplados na base da estrutura que confundem a mente, fazendo com que ela perceba a informação recebida como se tivesse sido enviada pelo corpo.

Contudo, no que diz respeito à saúde pública, Tragante diz não enxergar os paraplégicos como sendo público-alvo das políticas. “Não há acesso facilitado para centros de reabilitação, nem há preocupação nem com a educação, nem com cuidados durante a readaptação como acesso ao conhecimento da manipulação de artefatos relacionados à perda de controle esfincteriano, aos cuidados com úlceras de pressão, à manipulação de órteses, e por aí vai”, comenta o médico.

* Do Programa de estágio do JB

Tags: copa do mundo, exoesqueleto, mundial de futebol, neurociência, neurocirurgia, paraplégicos

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