Jornal do Brasil

Domingo, 21 de Dezembro de 2014

Ciência e Tecnologia

'O problema está na burocracia', diz médico sobre investimentos em pesquisa

Especialista critica demora na aprovação de estudos no Brasil

Jornal do BrasilRafael Gonzaga

Nos próximos quatro anos, os investimentos públicos e privados em pesquisa na área de saúde no país deverão atingir R$ 13 bilhões. Seriam cerca de R$ 2 bilhões por ano vindos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), além de R$ 400 milhões anuais provenientes dos ministérios da Saúde e da Ciência e Tecnologia e algo em torno de R$ 3 bilhões dos laboratórios farmacêuticos.

Contudo, ainda há muita dissonância no direcionamento para a pesquisa. Segundo uma matéria publicada recentemente pelo jornal The New York Times, seriam necessários mais incentivos ao desenvolvimento de novas drogas por parte da indústria farmacêutica para suprir antibióticos que estariam perdendo sua eficácia. De acordo com a matéria, a Organização Mundial de Saúde (OMS) teria examinado o crescimento de germes resistentes a antibióticos em todo o mundo. No Brasil, cerca de R$ 18 milhões estaria sendo mobilizado principalmente na pesquisa de anticorpos monoclonais, relacionados com a luta contra o câncer. Na matéria do The New York Times, a Royal Pharmaceutical Society, que representa os farmacêuticos na Grã-Bretanha, declarou que nenhuma nova classe de antibióticos foi descoberta desde 1987 e que grande parte da responsabilidade disso estaria no fato de que os retornos financeiros para a descoberta de novas classes de antibióticos são muito baixos, ao contrário das drogas lucrativas para o tratamento de doenças crônicas, como o câncer.

O oncologista Evanius Wiermann, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, explica que muitos dos laboratórios que testam novas tecnologias acabaram por reduzir a verba em pesquisa por conta de uma crise global de investimentos. “Em um cenário de pesquisas de novas drogas, foi identificado que os casos de câncer estão crescendo demasiadamente em comparativo até mesmo com outras doenças e, portanto, foi identificado como sendo uma área chave”, avalia o médico.

Apesar disso, no Brasil, foi aprovado um edital também de R$ 18 milhões que incentivaria pesquisas em doenças como malária, leishmaniose e dengue. Outros R$ 10 milhões estariam direcionados à terapia celular, com o uso de células tronco e mais R$ 20 milhões estariam reservados às doenças crônicas cardiovasculares e do aparelho circulatório.

Segundo o oncologista, o cenário também não é tão bom para a oncologia. “Não se está tirando investimentos de outros e colocando na oncologia. Na verdade, todas as áreas acabaram tendo um déficit, mas realmente algumas áreas acabaram sendo mais prejudicadas”, explica.

A expectativa é que esses investimentos diminuíssem a distância que separa o Brasil dos demais países desenvolvidos em inovação no setor. Nos últimos anos, a distância vinha inclusive aumentando. Contudo, Wiermann avalia que o problema não está somente na ordem de investimentos.

Burocracia atrapalha avanços científicos

O principal problema para Wiermann está fora dos centros de pesquisa. “O problema é a burocracia, a autorização regulatória para as pesquisas. Pesquisas em humanos precisam passar pelo Comitê de Ética em Pesquisas, para saber se não há alguma falha ética. Além disso, temos a Anvisa e o Conep. Temos, no Brasil, muitas instâncias burocráticas para a pesquisa ser autorizada”, lamenta.

Segundo o oncologista, em alguns outros países próximos o cenário é diferente. Na Argentina, o tempo de liberação para pesquisa é de somente quatro meses. No Chile, seis meses. Enquanto isso, no Brasil, o tempo de aprovação para uma pesquisa muita vezes ultrapassa um ano. “Quando o Brasil começa a utilizar o tratamento em pacientes, a pesquisa já está quase terminando ou já acabou no cenário internacional. São vários centros de pesquisa no mundo, mas a agilidade do processo regulatório de cada país é o que define o quão rápido você poderá incluir pacientes nela”, explica.

Wiermann pontua ainda que o Brasil não proíbe a pesquisa, mas que o país acaba saindo atrasado. Em casos de câncer de pâncreas e câncer de pulmão, por exemplo, onde a mortalidade é muito alta, muita pessoas morrem esperando ser incluídas em um estudo. “Às vezes há um desestímulo à pesquisa no Brasil porque o sistema é muito moroso. O Brasil recruta menos de 1% de todos os pacientes do mundo em pesquisas. Existe uma previsão de se identificarem cerca de 580 mil novos de câncer no Brasil, sendo 180 mil de pele. É uma grande concentração de pacientes de câncer que poderiam estar sendo beneficiados”, aponta.

Tags: BNDES, burocracia, CÂNCER, finep, investimento, pesquisa

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.