Jornal do Brasil

Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014

Ciência e Tecnologia

Dupla de jovens cria formação do futuro em empresas

Uma alternativa no estilo “é fazendo que se aprende”

PorvirCarolina Lenoir

Em vez de estagiário, um braço direito. No lugar de um diploma, um portfólio formado por negócios fechados, produtos desenvolvidos e experiência de trabalho comprovada. Saem de cena as carteiras escolares para a entrada de mesas de trabalho bagunçadas. Se a ideia dos jovens Kane Sarhan e Shaila Ittycheria era virar o sistema tradicional de ensino superior de cabeça para baixo, a missão foi cumprida. Eles, na verdade, querem bem mais do que isso. Ao criarem o Enstitute, eles possibilitam a outros jovens americanos brilhantes – mas que não se veem numa faculdade ou não podem pagar por uma – uma alternativa no estilo “é fazendo que se aprende”.

A ideia central do Enstitute é reinventar a aprendizagem ao possibilitar que o ensino seja realizado integralmente dentro de empresas parceiras – desde startups até grandes corporações –, com pagamento de salários e foco em resultados. Somente em 2013, apenas um ano depois da implementação do piloto do programa, que não tem fins lucrativos e é bancado por doações, mais de 700 estudantes e cerca de 1.000 empresas se inscreveram para os processos de seleção.

Durante um ou dois anos, os alunos passam de segunda a sexta-feira no trabalho e atuam em funções-chave para o desenvolvimento de habilidades, especialmente nas áreas de tecnologia, negócios, design, marketing e mídias digitais. O trabalho é acompanhado pelos próprios fundadores das empresas ou por CEOs, que são chamados de mentores. Segundo o cofundador Kane Sarha, em entrevista ao Porvir, pelo fato de o Enstitute trabalhar com uma grande variedade de empreendedores, cada relação entre aluno e mentor é diferente. “Quando se trata de companhias menores, mentores costumam trabalhar lado a lado com os alunos em suas empresas.

No caso das companhias maiores, CEOs delegam projetos aos quais os alunos vão se dedicar e as equipes que vão participar e acompanhar, mas, ao fim de cada semana, todas as atividades são reportadas a esse executivo de alto escalão”, explica o Sarha, de 26 anos, eleito recentemente pela revista Forbes como um dos 30 mais brilhantes jovens com menos de 30 anos que se destacam em 15 diferentes áreas de atuação.

A experiência desses jovens é complementada por um currículo teórico oferecido on-line e em eventos presenciais.

Sahran explica que são seis horas por semana engajadas em cursos reunidos em uma plataforma desenvolvida pelo Enstitute, em que cada aluno cria seu plano individual de aprendizagem e estuda o que realmente lhe interessa. Os temas variam de finanças e programação de computadores até sociologia e história.

Para tentar uma vaga no programa, os interessados precisam ter de 18 a 24 anos, diploma de conclusão do ensino médio (ou equivalente) e cidadania norte-americana. Os melhores candidatos ­– frequentemente jovens ambiciosos e empreendedores ­– são selecionados em um processo criterioso e convidados a escolher as cidades e empresas em que têm interesse em trabalhar. A equipe do Enstitute faz o meio de campo com as companhias, que escolhem os candidatos que querem entrevistar.

Os empresários são encorajados a só selecionar interessados pelos quais realmente se apaixonarem, sem obrigação de aceitar qualquer um dos pré-selecionados. Quando a combinação perfeita é alcançada, as empresas se comprometem a dar um feedback mensal aos coordenadores do programa sobre a performance e o desenvolvimento dos alunos. Em contrapartida, elas usufruem de uma mão de obra talentosa e barata, por um período bem maior que a duração normal de um estágio, com possibilidade muito mais alta de contratação ao fim do programa.

Para Sarhan, o “aprender fazendo” é a melhor forma de jovens profissionais desenvolverem as habilidades e competências necessárias para serem bem-sucedidos nas carreiras de século 21. O objetivo a longo prazo, portanto, é fazer com que o programa seja aceito como uma alternativa à universidade. “Nos Estados Unidos, nós temos um sistema no estilo ‘um tamanho cabe em todo mundo’. Todos recebem uma única chance na trajetória para o sucesso quando saem do ensino médio: ir para a faculdade. O problema é que isso não está funcionando. Um percentual preocupante de graduados nas universidades é formado por desempregados ou subempregados. Além disso, ao saírem da faculdade, eles têm em média uma dívida de US$ 29 mil. Soma-se a isso o fato de cerca de 70% dos empregadores acreditarem que esses recém-formados não estão preparados para o mercado de trabalho. Nós criamos o Enstitute para provar que podemos resolver esses problemas por meio de um modelo alternativo de educação superior.”

A tarefa é árdua não só pelo ceticismo de um parte dos constratantes mais tradicionais, para os quais um diploma universitário é pré-requisito indispensável para posições importantes de trabalho, mas também pela visão de que o ambiente universitário estimula não só o conhecimento, mas como o pensamento crítico ­– algo que o Enstitute acredita também fazer, mas aliado à resolução de problemas e com resultados mais palpáveis, em forma de produtos e projetos.

Conta a favor, porém, o fato de cada vez mais empresas se mostrarem interessadas em testar alternativas de ensino mais voltado ao desenvolvimento de habilidades técnicas. Sarhan afirma que cerca de 90% dos formados no programa do Enstitute recebem uma oferta de emprego. Há também aqueles que optam por abrir a sua própria empresa. “No mundo das startups, o que importa para os que contratam é a experiência do candidato e o que ele pode realizar, não onde ele fez a faculdade ou qual o seu diploma. Quando nossos alunos provam as suas competências por meio de seus portfólios de projetos e nas suas experiências de trabalho ao longo de dois anos, a empregabilidade deles aumenta nas indústrias mais inovadoras.”

Tags: desenvolvimento de habilidades, ensino superior, enstitute, experiência, profissional do futuro, projeto piloto

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