Jornal do Brasil

Quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

Ciência e Tecnologia

Branqueamento de corais preocupa especialistas

Fenômeno é consequência das altas temperaturas

Jornal do BrasilLouise Rodrigues*

A falta de chuvas e o calor intenso estão causando o branqueamento dos corais na Baía da Ilha Grande, na Costa Verde Fluminense. O problema, identificado por pesquisadores e mergulhadores, preocupam especialistas. De acordo com o biólogo Clovis Castro, coordenador geral do Projeto Coral Vivo e professor do Museu Nacional - UFRJ, “quanto mais intenso e duradouro o evento, maior a chance da colônia de coral morrer”.

O branqueamento dos corais é causado quando o coral expulsa as microalgas simbiontes (chamadas zooxantelas), que vivem no interior do tecido dele são responsáveis dar a cor. O fenômeno acontece quando os corais passam por estresses, como o aquecimento da água, acidez ou poluição. Assim, eles adoecem e com a saída das zooxantelas, o tecido quase transparente deixa em evidência o esqueleto calcário branco.

Criada em 1990 com o objetivo de preservar o ecossistema insular e marinho da Baía da Ilha Grande e permitir o monitoramento de sua qualidade ambiental, a ESEC Tamoios registrou em Paraty-Mirim, 34°C na temperatura do mar. Segundo a analista ambiental Adriana Gomes, trata-se da mais alta temperatura registrada desde o início das medições, há 10 anos.

Um coral saudável registrado antes do fenômeno de branqueamento na Baía de Ilha Grande
Um coral saudável registrado antes do fenômeno de branqueamento na Baía de Ilha Grande

A estiagem já dura um mês e o problema é agravado pela geografia da região e a direção dos ventos. Segundo o biólogo marinho e coordenador executivo do Projeto Coral Vivo, Gustavo Duarte, a situação dos corais da Baía se torna ainda mais preocupante porque “houve atraso na ressurgência de Cabo Frio, que é um fenômeno oceanográfico que leva as massas de águas frias para a superfície em novembro. Neste verão somente aconteceu em fevereiro”.

Em uma previsão otimista, Gustavo explica que “quando os corais do litoral brasileiro conseguem sobreviver a esse tipo de estresse crônico, em seis meses, recuperam a coloração com o retorno das algas zooxantelas à colônia. Já em outras partes do mundo a taxa de mortalidade dos corais costuma ser maior”. O biólogo usa o mesocosmo marinho do Projeto Coral Vivo em Arraial d’Ajuda (BA) para simular as mudanças climáticas e antecipar episódios - como o que ocorreu em Paraty - favorecendo a tomada de decisões de políticas públicas.

O mesmo coral, registrado após o início do fenômeno. Situação preocupa biólogos do Projeto Coral Vivo.
O mesmo coral, registrado após o início do fenômeno. Situação preocupa biólogos do Projeto Coral Vivo.

O Projeto Coral Vivo, que é patrocinado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Ambiental,recebeu relatos de diferentes pesquisadores e mergulhadores da região e constatou que, até o momento, parece ser um fato isolado, sem interferência na vida marinha de outras regiões do estado. Contudo, é preciso estar atento às consequências que a morte desses corais pode ter para a vida marinha. “Os corais são a base da biodiversidade marinha. Eles geram estruturas, criam estruturas tão sólidas quanto rochas e constroem aquele ambiente. A morte de um coral é a perda da capacidade estruturante da vida marinha”, explica Gustavo. Ainda segundo o biólogo,  “um coral do diâmetro de um pires pode demorar cerca de 20 anos para se desenvolver, já os corais maiores, 100 anos”. 

*Do projeto de estágio do Jornal do Brasil

Tags: Aquecimento global, branqueamento, corais, projeto coral vivo, vida marinha

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