Jornal do Brasil

Terça-feira, 24 de Abril de 2018 Fundado em 1891

Ciência e Tecnologia

Branqueamento de corais preocupa especialistas

Fenômeno é consequência das altas temperaturas

Jornal do Brasil Louise Rodrigues*

A falta de chuvas e o calor intenso estão causando o branqueamento dos corais na Baía da Ilha Grande, na Costa Verde Fluminense. O problema, identificado por pesquisadores e mergulhadores, preocupam especialistas. De acordo com o biólogo Clovis Castro, coordenador geral do Projeto Coral Vivo e professor do Museu Nacional - UFRJ, “quanto mais intenso e duradouro o evento, maior a chance da colônia de coral morrer”.

O branqueamento dos corais é causado quando o coral expulsa as microalgas simbiontes (chamadas zooxantelas), que vivem no interior do tecido dele são responsáveis dar a cor. O fenômeno acontece quando os corais passam por estresses, como o aquecimento da água, acidez ou poluição. Assim, eles adoecem e com a saída das zooxantelas, o tecido quase transparente deixa em evidência o esqueleto calcário branco.

Criada em 1990 com o objetivo de preservar o ecossistema insular e marinho da Baía da Ilha Grande e permitir o monitoramento de sua qualidade ambiental, a ESEC Tamoios registrou em Paraty-Mirim, 34°C na temperatura do mar. Segundo a analista ambiental Adriana Gomes, trata-se da mais alta temperatura registrada desde o início das medições, há 10 anos.

Um coral saudável registrado antes do fenômeno de branqueamento na Baía de Ilha Grande

A estiagem já dura um mês e o problema é agravado pela geografia da região e a direção dos ventos. Segundo o biólogo marinho e coordenador executivo do Projeto Coral Vivo, Gustavo Duarte, a situação dos corais da Baía se torna ainda mais preocupante porque “houve atraso na ressurgência de Cabo Frio, que é um fenômeno oceanográfico que leva as massas de águas frias para a superfície em novembro. Neste verão somente aconteceu em fevereiro”.

Em uma previsão otimista, Gustavo explica que “quando os corais do litoral brasileiro conseguem sobreviver a esse tipo de estresse crônico, em seis meses, recuperam a coloração com o retorno das algas zooxantelas à colônia. Já em outras partes do mundo a taxa de mortalidade dos corais costuma ser maior”. O biólogo usa o mesocosmo marinho do Projeto Coral Vivo em Arraial d’Ajuda (BA) para simular as mudanças climáticas e antecipar episódios - como o que ocorreu em Paraty - favorecendo a tomada de decisões de políticas públicas.

O mesmo coral, registrado após o início do fenômeno. Situação preocupa biólogos do Projeto Coral Vivo.

O Projeto Coral Vivo, que é patrocinado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Ambiental,recebeu relatos de diferentes pesquisadores e mergulhadores da região e constatou que, até o momento, parece ser um fato isolado, sem interferência na vida marinha de outras regiões do estado. Contudo, é preciso estar atento às consequências que a morte desses corais pode ter para a vida marinha. “Os corais são a base da biodiversidade marinha. Eles geram estruturas, criam estruturas tão sólidas quanto rochas e constroem aquele ambiente. A morte de um coral é a perda da capacidade estruturante da vida marinha”, explica Gustavo. Ainda segundo o biólogo,  “um coral do diâmetro de um pires pode demorar cerca de 20 anos para se desenvolver, já os corais maiores, 100 anos”. 

*Do projeto de estágio do Jornal do Brasil



Tags: Aquecimento global, branqueamento, corais, projeto coral vivo, vida marinha

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