Jornal do Brasil

Domingo, 20 de Abril de 2014

Ciência e Tecnologia

Século 21 em ação: alta tecnologia cria um novo conceito de trabalho

Trabalhadores perdem postos, e especialização é cada vez mais valorizada

Jornal do BrasilAmanda Rocha*

A tecnologia avança a olhos nus, invadindo cada vez mais o mercado de trabalho. Seja com terminais para pagar o ônibus, seja com cirurgias complexas realizadas por robôs, muitos acreditam que o homem passa a ter papel secundário em sua própria profissão. Enquanto isso, a inteligência artificial, assim como no filme de Steven Spielberg, é cada vez mais almejada.

Na série de reportagens do JB, damos continuidade à exploração das novas tendências do mundo que se consolidam com o tempo e que comprovam que o "futuro", simbolizado pelo século 21, está cada vez mais presente.

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Religião, tecnologia, ciência, família... mundo passa por momento de profundas transformações
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Na medicina, é possível enxergar com clareza o impacto da tecnologia em um trabalho majoritariamente humano. Com a cirurgia robótica, conhecida por ser minimamente invasiva, robôs seguram o bisturi, diminuindo muito os riscos da operação. Para a doutora Leandra Carneiro, criadora do blog Tecnologia da Informação e Medicina, apesar desse tipo de cirurgia ser um grande avanço, não significa que irá, em algum momento, dispensar os profissionais por trás da máquina.

“A cirurgia robótica diminuiu a quantidade de erros médicos e eventos inesperados, como um movimento brusco, por exemplo. No entanto, o cirurgião é necessário para controlar a máquina, assim como é preciso um médico para fornecer um laudo”, explica. Apesar disso, Leandra conta que cada vez mais mecanismos são criados para diagnosticar pacientes de forma remota.

Por meio de algoritmos, aplicativos conseguem detectar se uma pinta tem chances de ser cancerígena e um programa de computador avalia diversas mamografias, separando as que mostram maior predisposição a tumores. Segundo Leandra, essas ferramentas são nada além de facilitadores dos médicos. “De forma geral, a tecnologia é muito bem vinda, embora não seja essencial. É claro que auxilia, mas não substitui o cuidado médico. Não basta ter aplicativo, assim como apenas consultar o Google não resolve”, afirma.

Uma pesquisa realizada pela Agência de Estatísticas do Trabalho dos Estados Unidos concluiu que novas tecnologias da computação acabam com posições no mercado de trabalho, mesmo que gerem algumas novas oportunidades para funcionários especializados. De acordo com o estudo, os Estados Unidos ganharam 387 mil administradores, enquanto perderam quase dois milhões de profissionais em cargos burocráticos desde 2007.

No entanto, a fundadora da Defí Inteligência Competitiva, Armelle Decaup, acredita que o ser humano nunca será substituído pela máquina. Trabalhando numa consultoria que implanta práticas de inteligência de mercado através de tecnologias avançadas, ela conta que nada traduz a mente humana e o papel da modernidade está em reaplicar modelos de novas formas.

“A área de inteligência de mercado é quase uma arte coletiva. Não é uma ciência, com modelagem matemática. Portanto, o envolvimento de diversos profissionais, com seus pontos de vista e opiniões diferentes conta muito. A ferramenta principal é o pensamento humano, e não há como traduzi-lo”, explica. Armelle afirma que certo nível de automatização existe sim, mas até um ponto, com o objetivo de estruturar informações, além de potencializar o tempo utilizado em algumas ações.

Karin Parodi, diretora-geral da Career Center, vê um novo modo de trabalho se estabelecendo nas empresas, baseado em colaboração. “As empresas enxergam um mundo novo, sem tantas estruturas fixas. Agora, preferem trabalhar a partir de times, de forma colaborativa. E isso também combina muito com a tecnologia porque eu posso, por exemplo, estar no Brasil e meu parceiro de projeto estar na Ásia. Assim, eu adianto minhas tarefas no meu horário normal de trabalho, já ele, do outro lado do mundo, adianta a sua parte enquanto já estou em casa”, explica.

Segundo ela, tudo está andando muito rápido e não basta apenas tentar se informar e conhecer novas técnicas. É preciso ser curioso o suficiente para buscar novas ferramentas. Tudo isso em busca do aperfeiçoamento da produtividade, palavra-chave da tecnologia. Para Karin, o problema atual recai em conseguir produzir muito mais com muito menos gente. Isso, de certa forma, enxuga posições de trabalho.

No entanto, Karin também é categórica ao afirmar que nada, apesar de toda tecnologia, substitui o ser humano. “A máquina tomou cargos operacionais, conquistando o posto de inteligência artificial. No entanto, é preciso ter uma coisa para controlá-la, que é uma pessoa”, diz.

Ela alerta, ainda, para a sensação de infelicidade que o excesso de tecnologia pode trazer para a vida do trabalhador, que acaba conectado o tempo todo. “Hoje em dia, não tem como não ser competitivo e é facil encontrar pessoas sofrendo por estresse e depressão. Elas acabam se questionando o tempo todo se estão felizes e preferem ganhar menos mas ter uma vida tranquila, sem uma conference call no meio da madrugada”, explica.

O psicólogo e professor de Psicologia Social na Universidade de Brasília, Fábio Iglesias, concorda que o impacto da tecnologia no ser humano tem seu lado negativo, mas os bônus são superiores. “Pessoas tendem à nostalgia. Sempre se ouve que a época anterior era melhor. No futuro, nós, dessa geração, também teremos um choque com o que surgirá, assim como a de agora tenta entender o que acontece. No entanto, isso não significa que a nova forma de se comunicar seja pior. É apenas outra”, conta.

Fábio aproveita para explicar que a tecnologia vem com o papel de facilitar comunicação e relações de trabalho, e não o contrário. Com o exemplo do computador, que nos anos 80 chegou ao mercado como um substituto do homem, ele acredita que alguns postos podem ser roubados, como um caixa eletrônico no lugar de um bancário e um site na internet substituindo o vendedor. Porém, a relação não é direta porque a tecnologia também cria muito empregos. “Não vamos viver numa sociedade Matrix. A dinâmica do trabalho apenas se torna diferente”, completa. 

*Do programa de estágio do Jornal do Brasil

Tags: avanço, inteligência, modernidade, século 21, Trabalho

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Comentários

1 comentário
  • Luis Prenda


    Século XXI uma mudança para mentalidades sobre avanço tecnológico!

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