Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Abril de 2014

Ciência e Tecnologia

Genética foi o setor da pesquisa médica que mais avançou em 2013

Jornal do Brasil

A passos largos a Medicina caminhou no ano de 2013 em todo o planeta. Pesquisadores chegaram à cura de muitas doenças que afligiam a humanidade e nova tecnologias foram bem vindas ao mercado médico. A área de genética foi uma das que mais se destacou nas inovações. 

Logo em janeiro de 2013, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP implantou o projeto Beira de Leito, que controla a validade e rastreia os medicamentos. O programa é desenvolvido por um sistema de informação que controla a entrada, dispensação e distribuição dos medicamentos. Usando um computador portátil, o médico pode fazer a leitura dos medicamentos administrados aos paciente internados, por meio de uma pulseira colocada na pessoa e que emite todos os dados ao computador em forma de código de barra. O sistema emite alertas de inconsistências e de medicamentos não prescritos para o paciente ou fora do prazo de validade. A medida ofereceu maior segurança aos pacientes e à prática médica. 

Os especialistas, ainda em janeiro, adiantaram que em breve será realidade a fabricação de rins, fígados e pâncreas artificiais. Segundo eles, em duas décadas as bioimpressoras terão a capacidade de produzir esses órgãos a partir das células-tronco de uma pessoa. O avanço pode acabar com um dos maiores e mais cruéis problemas da área médica no mundo: as filas de transplante de órgãos. Apesar das primeiras bioimpressoras já estarem em funcionamento, os cientistas ainda não dominaram determinados comandos técnicos. 

"Antenados" no universo das tecnologias, os médicos conheceram a computação em "nuvem", que ofereceu à classe um sistema revolucionário que deu mobilidade e economia. Apesar de algumas críticas, a comunidade médica foi adotando gradativamente à "nuvem" e adaptando os ambientes de trabalho à tecnologia. Muitos hospitais adotaram a computação para evitar gastos com equipes de TI.

Durante o Encontro Nacional da Sociedade Americana de Química, nos Estados Unidos, realizado em outubro, o combate à gripe ganhou destaque. Cientistas americanos desenvolveram uma nova técnica para produção de teste caseiro capaz de diagnosticar de forma exata o vírus da gripe. O método é simples, de baixo custo e deve ajudar no tratamento e transmissão da doença, e deve substituir os procedimentos mais modernos, que ainda são de alto custo.   

O campo das terapias genéticas foi o que mais revolucionou no decorrer deste ano, anunciando avanços que vão favorecer as gerações futuras. A mais importante delas, segundo a avaliação dos especialistas, foi a chegado ao mercado do primeiro medicamento de terapia gênica, o Glybera. O fato foi considerado um marco na história da medicina.  

Medicamento Glybera representa um marco da medicina
Medicamento Glybera representa um marco da medicina

Pesquisador avalia novos passos na Genética

O professor do Departamento de Fisiologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) e pesquisador do Centro de Terapia Genica (HCPA), Guilherme Galdo, fez para o Jornal do Brasil uma avaliação dos maiores avanços da medicina em 2013. Baldo disse que quanto às novas tecnologias, o DNA passou a ter outras utilidades. Ele lembra que no inicio do ano, foi publicado um estudo que utiliza DNA sintético para armazenamento de informações digitais. "Nesse caso, a informação digitalizada e armazenada foram todos os sonetos de William Shakespeare. O DNA tem imenso potencial como meio de guardar informações, e pode se tornar disponível comercialmente nos próximos anos", destaca o pesquisador.

Já quanto os tratamentos, Baldo ressalta que em 2013 a bioengenharia de tecidos e a terapia gênica tiveram grandes avanços. "Por exemplo, pela primeira vez foram criados em laboratórios tecidos inteiros como vasos sanguíneos, rins e fígado. Além disso, o FDA (Food and Drug Administration) aprovou o primeiro pâncreas artificial. Outro avanço significativo foi a terapia gênica para algumas enfermidades. Nesse tipo de tratamento, usa-se uma cópia normal de DNA para substituir uma fita de DNA com mutação ou para dar à célula uma nova função". 

Na avaliação do pesquisador, particularmente em 2013 os estudos em pacientes foram realizados com êxito em uma série de doenças genéticas até então incuráveis, como a leucodistrofia. Baldo destaca que outras enfermidades já haviam sido curadas de forma similar em 2012, como a adrenoleucodistrofia ligada ao X (a doença do filme “O Óleo de Lorenzo”). "Existem centenas de crianças no Brasil com este grupo de doenças, que podem se beneficiar deste tratamento nos próximos anos. Este tipo de terapia pode beneficiar pacientes com as mais variadas enfermidades, desde tumores até mesmo diabetes", explica Baldo.

Para Guilherme Baldo, os avanços mais importantes na medicina no decorrer deste ano, dizem respeito ao combate ao HIV. "Inicialmente, houve um estudo que demonstrou que, em um caso, a terapia anti-retroviral foi iniciada muito cedo em criança com HIV e, dessa forma, conseguiu-se curar a mesma. Este estudo fez a OMS recomendar o tratamento precoce. Além disso, uma nova vacina contra o vírus foi testada com sucesso em macacos e espera-se que os estudos clínicos sejam iniciados logo", destacou o pesquisador.

Apesar de não serem exatas as previsões quanto às tecnologias do futuro, algumas novidades soam particularmente promissoras. Baldo citou o exemplo o Glybera, aprovado na Europa para uso comercial, voltado para o tratamento de uma doença chamada deficiência de lipoproteina lipase. "Portanto, a tendência é que este tipo de tecnologia fique cada vez mais disponível ao grande público, de forma mais rápida", avaliou Baldo.

Baldo explicou que o Glybera é um medicamento específico para uma doença, a deficiência de uma proteína chamada lipoproteiía lipase, que é responsável pela digestão de gordura no corpo. O Glybera é um vírus modificado, que possui na sua estrutura uma cópia normal do gene que produz a lipoproteina. Quando o vírus é aplicado, ele mistura o seu DNA com o DNA das células do paciente e, portanto, passa a produzir uma cópia normal da proteína. "Foram 12 injeções intramusculares dadas de uma só vez em 27 pacientes, e eles continuam produzindo a enzima anos depois do tratamento. Por enquanto, a droga esta aprovada apenas na Europa, para ser utilizada no pais, deve receber aprovação da ANVISA, o que pode demorar algum tempo, geralmente de 1 a 2 anos", contou Guilherme Baldo.

Tags: Células-tronco, doenças, GENÉTICA, médico, tecnologias

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