Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Abril de 2014

Ciência e Tecnologia

Cooperativa europeia de negócios sociais chega ao Brasil

Groupe SOS traz expertise de medição de impacto ao cenário brasileiro

PorvirPatrícia Gomes

Se os negócios sociais no Brasil ainda são um conceito que ainda não foi amplamente difundido, no mundo não é bem assim. O grupo francês SOS, que tem mais de 300 empresas espalhadas por 20 países, já atua na área há 30 anos e agora chega em terras brasileiras atraído pelas oportunidades daqui. “Os brasileiros têm um espírito empreendedor particularmente forte e eles tendem a orientá-lo na direção da inovação tecnológica e dos novos mercados digitais. É um movimento completamente novo, muito promissor e que tem se expandido rapidamente”, diz Nicolas Hazard, vice-presidente do Grupo SOS e presidente do CDI (Comptoir de l’Innovation), uma empresa social que ajuda a medir o impacto social e financeiro dos negócios da rede.

Em entrevista ao Porvir, Hazard fala do conceito de negócios sociais que as empresas adotam e aponta razões por acreditar que empresas com esse perfil estejam se espalhando no mundo. No Brasil, o grupo já identificou como oportunidade de atuação a construção de creches para a população de baixa renda – na França, para atacar questão semelhante, eles desenvolveram um modelo de negócio para os centros de primeira infância em que o valor cobrado cabe no bolso de famílias pobres. “Juntos, podemos encontrar soluções inovadoras para setores que têm necessidades urgentes, como a primeira infância, área em que há uma enorme falta de opção para os pais matricularem seus filhos”, diz ele.  E o diagnóstico não poderia ter sido mais preciso. Nesta semana mesmo, o Ministério Público de  São Paulo determinou que o prefeito Haddad cumpra a promessa de campanha e crie 105 mil vagas de creche até 2016.

As empresas do Grupo SOS prestam serviços que o Estado não tem condições de oferecer sozinho em principalmente cinco áreas: saúde, educação, solidariedade, terceira idade e emprego. “Devido à natureza política das empresas sociais, é essencial que elas constituam um complemento ao Estado, não uma substituição”, disse o francês.

Veja abaixo a entrevista completa com Hazard.

Das definições de negócios sociais, qual é a que vocês acreditam?

O negócio social tem que combinar um modelo de negócio sustentável com um forte impacto social. O método consiste em usar ferramentas clássicas de negócios para dar escala às atividades das empresas sociais. O lucro é um pré-requisito e o principal foco da companhia é atacar questões ambientais e sociais.

Algum tempo atrás, o conceito de negócios sociais se confundia com o de caridade. Como o campo está hoje?

Na medida em que o movimento dos negócios sociais se espandiu pelo mundo, os governos começaram a entender seu poder para resolver questões sociais. Devido à natureza política das empresas sociais, é essencial que elas constituam um complemento ao Estado, não uma substituição. É absolutamente necessário que haja uma forte relação de confiança para que os negócios sociais trabalhem lado a lado com o governo. Em Paris, por exemplo, trabalhamos com o governo da cidade para lançar o Social Good Lab, uma incubadora de tecnologias com impacto social. Essa iniciativa não seria possível sem a cooperação do setor público e o Le Comptoir de l’Innovation.

Como estão os negócios sociais pelo mundo?

Para qualquer empreendedor social, o Brasil é um mercado promissor, não apenas pelo seu tamanho mas também por muitas das questões sociais que tem enfrentado: desigualdades sociais e econômicas, falta de educação, pobreza, baixa qualidade do sistema de saúde,  entre outros.

Depois da crise de 2007, ficou bastante óbvio que o mundo precisava de um novo paradigma macroeconômico. Isso reforçou a ideia já existente de que as ferramentas de negócio – graças a sua eficiência econômica – tinham um papel central na solução de problemas e na complementação da atuação do governo na oferta de serviços públicos. As novas gerações sabem que alguma coisa precisa mudar na forma como construímos e conduzimos nossas sociedades e elas precisam de uma proposta forte e clara. Os negócios sociais são uma das melhores respostas para as novas necessidades do mundo. Não apenas eles podem resolver questões relacionadas à pobreza e à exclusão, mas também contribuir para o crescimento econômico e a geração de empregos. Muitas organizações internacionais estão contribuindo para fazer dos negócios sociais um movimento global, mas ainda há muito a ser feito. Então, claro, cada país tem suas próprias necessidades e por isso terá  uso e interpretação específicos para os negócios sociais.

Quais são as cinco áreas em que vocês atuam?

Para combater a pobreza e a exclusão social, o Grupo SOS tem uma abordagem holística na qual cinco áreas (saúde, educação, solidariedade, terceira idade e emprego) têm importância fundamental para o desenvolvimento social. Consideramos a educação uma das principais soluções para as desigualdades sociais e, por isso, temos trabalhado para garantir que todas as crianças tenham as mesmas oportunidades. A educação é provavelmente a melhor opção para a mobilidade social, é um investimento de longo prazo.

Você vê diferenças importantes entre as oportunidades para empreendedores no mundo se comparadas com as do Brasil?

Os brasileiros têm um espírito empreendedor particularmente forte e eles tendem a orientá-lo na direção da inovação tecnológica e dos novos mercados digitais. É um movimento completamente novo, muito promissor e que tem se expandido rapidamente. O uso de tecnologias inovadoras que combatem a exclusão social é provavelmente um campo em que os empreendedores devem encontrar uma variedade de oportunidades. Para qualquer empreendedor social, o Brasil é um mercado promissor, não apenas pelo seu tamanho mas também por muitas das questões sociais que tem enfrentado: desigualdades sociais e econômicas, falta de educação, pobreza, baixa qualidade do sistema de saúde entre outros. Há diferenças entre os estados do Brasil: São Paulo não tem os mesmos problemas relacionados a educação, por exemplo, que o Maranhão. E você não poderá combatê-los da mesma maneira. Você terá que adaptar as necessidades da dpopulação para o ambiente.

Quais são as empresas mais interessantes que têm resolvido problemas educacionais?

Existe uma empresa brasileira chamada Geekie que está revolucionando a forma como os estudantes aprendem. Eles têm uma plataforma on-line que adapta os conteúdos às necessidades dos alunos. Isso os ajuda no processo de aprendizado e permite que os estudantes obtenham melhores notas, além de prepará-los para o Enem. É um jeito brilhante de usar tecnologia para lutar contra desigualdades e dar aos jovens brasileiros melhores chances na vida. Na França, o Grupo SOS se dedica a centros destinados a primeira infância. Investir em crianças pequenas é essencial para uma educação melhor e permite que as mães sigam suas carreiras. Esses serviços são acessíveis para famílias de baixo poder aquisitivo. Nos últimos 30 anos, desenvolvemos a Crescendo, uma rede de serviço de cuidados à criança voltados a primeira infância, creche e centros sociais. Graças a um sistema de equalização de preços, conseguimos construir um modelo sustentável e hoje a Crescendo recebe semanalmente 2.000 famílias em suas 30 unidades.

Quais são suas expectativas para o futuro no Brasil?

Os negócios sociais estão se expandindo no Brasil. O conceito está se espalhando e podemos ver a multiplicação de iniciativas e novas estruturas prontas para apoiá-los. Queremos contribuir com esse movimento ao apoiar e criar projetos numa perspectiva de longo prazo. Com base na gama de negócios que desenvolvemos nos últimos 30 anos, poderemos contribuir com soluções eficientes para diferentes problemas sociais no Brasil. É por isso que estamos começando a trabalhar com organizações e institutos brasileiros  que estão liderando esse movimento no país. Juntos, podemos encontrar soluções inovadoras para setores que têm necessidades urgentes, como a primeira infância, área em que há uma enorme falta de opção para os pais matricularem seus filhos. Também acreditamos que podemos ajudar empresas e instituições brasileiras a desenvolver ferramentas de mensuração de impacto social e desempenho financeiro, algo crucial para a aceleração e expansão do conceito dos negócios sociais no Brasil.

Como você mede o impacto de cada empresa do grupo? Como é a ferramenta de medição que vocês criaram?

Os negócios sociais são uma das melhores respostas para as novas necessidades do mundo. Não apenas eles podem resolver questões relacionadas à pobreza e à exclusão, mas também contribuir para o crescimento econômico e a geração de empregos

Porque tínhamos empresas em diferentes setores e que produziam tipos diferentes de impacto social, precisávamos de uma ferramenta muito completa e eficiente que pudesse analisar esse impacto e, ao mesmo tempo, garantir que nossos modelos de negócio eram apropriados e efetivos. Foi assim que o CDI Ratings nasceu. É parte dos serviços oferecidos pelo Le Comptoir de l’Innovation. O CDI Ratings é uma ferramenta complexa para monitorar, avaliar e reportar nosso desempenho social, adaptado para nossas cinco áreas de atividade.

Nós usamos 600 critérios em 15 setores para oferecer uma análise financeira e extrafinanceira que nos permita monitorar e relatar o desempenho financeiro e social de uma empresa, além de facilitar a mediação entre investidores e empreendedores sociais. Assim sendo, nós avaliamos a missão social e o impacto, a governância, as políticas de recursos humanos e ambientais, além de outros elementos-chave para o funcionamento de uma empresa. Mas o CDI Ratings não está apenas preocupado com o impacto social: temos que ter certeza que as empresas têm sustentabilidade econômica e que o modelo de negócio também está funcionando. Então fazemos também uma análise financeira extensiva, atentando para a estratégia, o posicionamento no mercado, as operações e a estrutura financeira.

Ao fim do processo, sabemos onde e por que uma empresa está indo bem ou mal e estamos aptos a dar uma assistência sobre melhores práticas e métodos. Isso nos ajuda e ajuda as empresas que prestamos serviços não apenas a otimizar o impacto social e o desempenho financeiro, mas também a ter mais credibilidade e atrair investidores.

Tags: desempenho social, desenvolvimento social, empreendedorismo, negócios sociais, política social

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