Jornal do Brasil

Quarta-feira, 22 de Maio de 2013

Ciência e Tecnologia

Religiões afrobrasileiras tentam instituir práticas sustentáveis, mostra estudo

Jornal do BrasilDa Agência Uerj de Notícias Científicas

O mundo vive um momento em que muitas ações vêm sendo adjetivadas como sustentáveis. O conceito, que foi utilizado pela primeira vez em 1987, consolidou-se após a Rio 92, difundiu-se rapidamente e se tornou palavra de ordem na sociedade contemporânea. Nesse contexto, as religiões afrobrasileiras, apesar de sua intensa relação com o meio ambiente, podem ser vistas como vilãs ambientais. 

No Parque Nacional da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, um aviso proíbe o despacho de oferendas de religiões afrobrasileiras em seu interior. Foi esse tipo de proibição que motivou o professor do Programa de Pós Graduação em Meio Ambiente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Carlos José Saldanha Machado, e seu ex-doutorando Ramon Fiori Fernandes Sobreira, a estudarem a manutenção do estereótipo negativo em torno das oferendas das religiões afrobrasileiras, principalmente no que se refere à sua representação como uma agressão ao meio ambiente. 

Oferendas sustentáveis 

Para mudar essa imagem negativa, as comunidades de terreiro vêm desenvolvendo ações próprias que aproximam ainda mais o ambiente da religião. Exemplo disso são as práticas de oferendas ecologicamente corretas. A utilização de materiais biodegradáveis, a reciclagem de objetos e a rejeição do uso de velas em florestas são alternativas criadas para a inserção das religiões afrobrasileiras na “Era da Sustentabilidade”. 

No entanto, tal alternativa ainda enfrenta dificuldades dentro das próprias comunidades de matriz afro. Segundo Carlos José e Ramon Fiori, é possível que haja um equívoco histórico dos religiosos, já que alguns deles se recusam a praticar oferendas sustentáveis por medo de que sua fé não seja desempenhada de maneira eficaz. “Achamos natural que o praticante tenha receio de que a oferenda ou o despacho perca a sua eficácia, se começarem a fazer muitas concessões ao "ambientalmente correto". Porém, a fé e a devoção do umbandista e do candomblecista devem ser compatíveis com o equilíbrio do meio ambiente natural”, afirmaram os pesquisadores. 

A importância de ações governamentais 

Como medida para amenizar a intolerância e disseminar o conceito ecológico em religiões, o Governo do Estado vem desenvolvendo iniciativas que dão maior visibilidade às religiões de matriz africana. De acordo com os pesquisadores, tais ações são de fato relevantes. “Existe a Superintendência de Educação Ambiental, ligada à Secretaria de Estado do Ambiente, que advoga uma solução negociada com as comunidades religiosas e com o governo, para que se faça uma área destinada às oferendas, com disciplina. O mais importante é que nos parece que o governo do estado está sensível a essa questão, até porque a umbanda é muito representativa no Estado do Rio”, comemoram Carlos José e Ramon Fiori. 

Eles acreditam que a própria proibição rigorosa das oferendas em áreas verdes pode ser uma manifestação inconsciente de intolerância. Consideram também a conscientização ambiental primordial no processo de desmistificação das religiões afrobrasileiras como poluidoras. “Parece um contrassenso, mas, as religiões acusadas de sujar o meio ambiente seriam, na verdade, religiões ecológicas”, garantem os pesquisadores. 

Os pseudo-religiosos 

Um problema constatado na pesquisa diz respeito aos praticantes oportunistas ou eventuais da religião. Segundo os estudiosos: “pessoas que não são umbandistas nem candomblecistas, e que, para obter alguma coisa (um emprego, por exemplo), procuram alguém que se intitula pai ou mãe-de-santo, muitas vezes prescrevem uma oferenda ou um despacho sem nenhuma preocupação ambiental, e isso acaba prejudicando as próprias religiões”. 

Apesar de os conflitos ainda existentes dentro das próprias religiões afrobrasileiras no que diz respeito a aliar o ambiente e a religiosidade, Carlos José e Ramon Fiori se mostram esperançosos. “Achamos que a umbanda e o candomblé institucionais, doutrinários e organizados estão prontos para esse desafio de aliar fé e conservação ambiental”, concluem os autores.

Tags: AMBIENTE, estudo, Meio, natureza, preservação, religião

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.