Cidades precisam se preparar para mudanças climáticas
Fernanda Prates , Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - A preocupação com as alterações climáticas há muito deixou os laboratórios e se tornou prioridade para governos e empresas, que per cebem, cada vez mais, seus impactos na vida urbana. As mudanças no clima também afetam a saúde e a qualidade de vida dos moradores de grandes metrópoles, que já sentem na pele (e nos pulmões) seus efeitos negativos. Porém, o que pesquisadores revelam é que esses impactos serão muito mais prejudiciais para a saúde em cidades que não estão devidamente preparadas para lidar com eles.
Baseada nisso, a rede Urban Climate Change Research Network, ligada à Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, realizou um levantamento global que busca mostrar como essas mudanças climáticas, de fato, afetam as condições de vida das populações e até que ponto as autoridades podem agir para prevenir ou minimizar os efeitos.
A variação do clima traz impactos para a temperatura, os ventos e até mesmo a qualidade do ar e da água, podendo provocar enchentes, secas e, consequentemente, diversas doenças explica a economista e pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz, Martha Barata, uma das colaboradoras do estudo. Porém, a intensidade desses impactos vai variar de acordo com as condições sociais, ambientais e de infraestrutura dessas cidades.
Os danos que a mudança climática pode causar na saúde, direta ou indiretamente, são muitos. Segundo Martha, vários centros urbanos sentem os efeitos diretos no caso, por exemplo, de enchentes que causam traumas físicos e psicológicos instantâneos ou de ondas de calor que vêm resultando em mortalidades, especialmente entre idosos, em vários países da Europa.
Já os impactos indiretos vão desde a proliferação de vetores de doenças (como mosquitos e ratos) ao aumento de alergias e problemas ,em decorrência da diminuição da qualidade do ar. Além disso, as mudanças climáticas alteram até mesmo a agricultura, gerando movimentos migratórios de expulsão rural e contribuindo para agravar os problemas sociais dentro das grandes cidades.
Às vezes, as condições naturais, como o relevo, também contribuem para agravar problemas climáticos completa a pesquisadora. É por isso que a Zona Sul do Rio de Janeiro, que tem uma topografia que permite maior circulação do ar, não sofre com a poluição do ar como São Paulo, por exemplo.
E no caso climático, vale um velho ditado: É melhor prevenir do que remediar . Segundo Martha Barata, uma adaptação de sucesso às alterações ambientais depende de iniciativas que preparem, desde já, o governo e a população das grandes cidades para lidar com seus impactos.
Trabalhando problemas como a qualidade da água e do ar, o governo pode reduzir os danos com o tratamento de doenças como hepatite, dengue ou patologias respiratórias defende Martha. O impacto depende muito do local e da educação, e a preocupação com esses investimentos pode poupar gastos no futuro.
Nesse sentido, a pesquisa procura orientar essas decisões, propondo iniciativas que englobam todos os campos da vida nas cidades, desde melhorias em hospitais e profissionais de saúde a soluções sustentáveis em transportes e habitação. Para isso, Martha defende um planejamento urbano visando à otimização de recursos e logística:
É preciso pensar em construir prédios mais sustentáveis, criar alternativas energéticas e pensar em danos ambientais, como os causados pelo uso de agrotóxicos ou usinas hidreléticas defende a economista. As ações, no sentido da saúde, devem levar em consideração o planejamento urbano, já que a saúde também envolve vários campos sócio-econômicos.
O Rio já tem uma iniciativa nesse sentido. No momento, a Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz), o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e a Secretaria de Estado do Ambiente do Rio de Janeiro (SEA) conduzem um estudo para avaliar indicadores de vulnerabilidade dos municípios em relação às mudanças climáticas. A ideia é que, a partir desses índices, as autoridades possam aplicar as políticas adequadas, contribuindo para melhorar a saúde e a qualidade de vida dos cariocas.
É necessário um setor de saúde bem preparado para receber mudanças conclui Martha. O clima vem se tornando uma preocupação cada vez maior.
