Jornal do Brasil

Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017

País - Carnaval 2017

Marchinhas de carnaval: blocos negam censura, e pregam diversão com respeito

Músicos e foliões comentam polêmica sobre letras politicamente incorretas

Jornal do BrasilRebeca Letieri *

No carnaval desse ano, a polêmica gira em torno das tradicionais marchinhas tocadas por blocos de rua. Algumas das letras consideradas politicamente incorretas levantaram debate entre diversos segmentos da sociedade e provocaram grande repercussão na mídia. Músicos e representantes de algumas das centenas de blocos de rua do carnaval do Rio de Janeiro conversaram com o Jornal do Brasil e alertaram para uma interpretação equivocada do assunto: ninguém falou em censura. 

“Acho que essa discussão é maravilhosa. A repercussão que me incomodou é a ideia de que as pessoas estão querendo impor algo. Não é uma questão de qual bloco vai tocar. O importante é a discussão e o espaço que foi aberto para que as pessoas possam expressar esse descontentamento e para que possam ser ouvidas”, disse Simone Cruz, que toca em diversos blocos como a Orquestra Voadora. 

“Um debate valioso como esse foi repercutido como censura, como algo negativo. Não é isso. Os blocos têm que ter liberdade para escolher o que querem tocar. Ninguém está dizendo que outros blocos não podem tocar alguma coisa ou outra”, contou Andre Ramos, também membro do bloco Orquestra Voadora.

O bloco Mulheres Rodadas foi um dos atingidos pela repercussão da notícia. Originalmente feminista, o grupo divulgou nota em sua página do Facebook comentando a polêmica em torno do marchinhas que usam o termo "mulata", considerado por muitas ativistas do movimento negro como nociva. 

"Sim, vamos tocar Tropicália, porque não acreditamos na censura, mas no respeito. Nunca decidimos não tocar Tropicália. Nunca falamos em banir músicas do Carnaval", diz a nota.

Bloco de rua no Rio em 2014
Bloco de rua no Rio em 2014

Uma das marchinhas que estão na mira das críticas é O teu cabelo não nega, lançada em 1932 e composta pelo carioca Lamartine Babo. A questão do boicote é menos um consenso e mais a liberdade de escolher não tocá-la. O movimento já vem ocorrendo há anos em alguns blocos do Rio, mas só agora ganhou destaque. Levantar o debate é motivação unânime para todos os entrevistados. A questão primordial é refletir sobre o conteúdo ofensivo dessas letras escritas em outras época, sob outros padrões sociais. 

“'O teu cabelo não nega' a gente não toca há anos. Isso partiu de um coral que participa do bloco e que realmente achou a letra muito racista. As pessoas têm que ter liberdade de não querer tocar essas marchinhas, ou de tocá-las, ou de renovar o repertório. O importante é manter a essência do carnaval que é a liberdade e a alegria, e que cada um possa fazer isso da melhor forma”, disse Thiago Queiroz, um dos fundadores e diretores do Bloco Boitatá.

“Para mim é muito claro que essas marchinhas são ofensivas, e como eu, muitas pessoas que estavam incomodadas não eram ouvidas. Como mulher preta, me atinge. Acredito que todo racismo, machismo e preconceito é sistematizado, ele é construído a partir de várias frentes, algumas graves e outras nem tão graves. As violências são naturalizadas a partir do pequeno”, afirmou Simone Cruz. 

Existem músicas que em um determinado tempo foram consideradas progressistas e fazem parte da memória coletiva do carnaval. Diante do fortalecimento de algumas minorias e debates sociais e políticos, algumas dessas letras tornaram-se passíveis de críticas, principalmente por aqueles que sentem incômodos e são vítimas desse discurso. 

“Isso foi feito em uma época em que as pessoas se sentiam ofendidas, mas não se manifestavam. E hoje as pessoas estão se manifestando. Não é uma forma de censura, é uma forma de escolha de repertório. Quantas milhares de marchinhas existem que não possam ser resgatadas?”, questionou a música do bloco Orquestra Voadora, Alice Pereira. 

Uma solução apontada por alguns são as paródias – usar a mesma melodia da música original alterando a letra. Dessa forma, mantém-se a essência dos ritmos e cria-se um novo sentido para a música. Há blocos que, em vez de cantar “corta o cabelo dele”, em Cabeleira do Zezé, canta “deixa o cabelo dele”.

“Algumas marchinhas como Cabeleira do Zezé sempre me incomodaram. Eu sou transexual, então ela me atinge diretamente. Eu percebia que no momento em que a música tocava, as pessoas olhavam para mim. Algo que era pra ser uma diversão acaba sendo ofensivo para muita gente. Tem gente que não vê problema porque não está nessa posição, porque é quem está fazendo chacota do outro”, disse Alice, para quem a paródia não resolve o problema questionado. 

Carmelitas em 2014
Carmelitas em 2014

”As pessoas sempre vão se lembrar da música na forma como ela foi consagrada. Eu vou continuar lembrando”, destacou. 

O Ocupa Carnaval surgiu em 2014 e Tomás Ramos explica que é como se fosse uma “campanha onde pessoas de blocos diferentes e coletivos diferentes se juntam para organizar o carnaval no Rio”. Desde o início, o Ocupa usa o carnaval para fortalecer pautas políticas que estão em discussão no momento. Um dos motes do grupo é transformar as marchinhas tradicionais em paródias com esses temas. No ano passado, o Ocupa Carnaval foi uma política que articulou mais de 35 blocos diferentes.

“Aproveitamos a oportunidade para fazer alguma contribuição para a galera que está no dia a dia lutando para mudar essa cidade. O Ocupa Carnaval não toca, nós apenas orientamos outros blocos. Não tem repertório. É uma política que a gente usa e articula. E entre outras coisas, distribuímos panfletos de paródias das marchinhas”, contou Tomás, que ressaltou ainda que ninguém é forçado a tocar as paródias que são sugeridas. 

“O mais importante é que esses debates estão sendo feitos, e que a gente possa se reinventar e atualizar os valores que nos cercam para tentar viver de maneira mais livre”, concluiu.

Leia a nota do bloco Mulheres Rodadas na íntegra:

Linda nação rodada,

Aqui vai nosso comunicado.

VAMOS TOCAR TROPICÁLIA.

Nos últimos dias, dentro da escolha do nosso repertório, surgiu a dúvida se íamos ou não tocar Tropicália, música que usa o termo "mulata", palavra essa já condenada por muitas no ativismo negro por sua origem perniciosa.

O Mulheres Rodadas não só preza pela liberdade de todas as mulheres mas também acredita que essa liberdade só existe quando nos respeitamos umas às outras.

Mas mais que isso, acreditamos no poder da arte de transformar a sociedade a partir da reflexão que ela proporciona. E o Carnaval não poderia ser um momento mais especial.

Sim, vamos tocar Tropicália, assim como cantamos em um show em 2016 sambas clássicos que falavam de homens batendo em mulheres como forma de debater essa construção.

Sim, vamos tocar Tropicália depois de uma conversa com nossas integrantes, principalmente as mulheres negras, depois de refletir sobre isso, depois de uma troca afetiva.

Sim, vamos tocar Tropicália, porque não acreditamos na censura, mas no respeito. Nunca decidimos não tocar Tropicália. Nunca falamos em banir músicas do Carnaval.

Respeito às mulheres. Sempre.

* do projeto de estágio do JB

Tags: Blocos, Carnaval, Racismo, Rio, homofobia, marchinhas, mulheres, música, polêmica, rua

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