União da Ilha 'convida' Vinicius de Moraes para o samba
Enredo dialoga com a vida e obra do poetinha e ainda dos 60 anos da escola no Carnaval de 2013
Ele comemoraria 100 anos em 2013. Vinicius de Moraes foi cantor, compositor, crítico, diplomata, poeta, dramaturgo, jornalista. Passeou pelo samba e pela bossa nova. Foi múltiplo e apaixonado, e assim será retratado no enredo da União da Ilha deste ano. "Vinícius no Plural. Paixão, Poesia e Carnaval" falará da vida e obra do poetinha, como o amigo Tom Jobim o chamava. A escola, que será a quarta a se apresentar no domingo de Carnaval (10), também falará da região onde ele viveu, a própria Ilha do Governador.
Nascido na Gávea em 19 de outubro de 1913, Vinicius era filho de um violinista e de uma pianista. A mãe, que ficou doente, precisava morar em um lugar calmo, à beira mar. O local escolhido foi a Ilha do Governador, mais precisamente a praia de Cocotá, nº 109-A. Foi ali que o artista viveu, dos 9 aos 16 anos, de 1922 a 1929.
Depois de um tempo, Vinicius e a irmã mais velha, Lygia, foram morar com os avós em Botafogo, e passavam os fins de semana e feriados na casa dos pais, na Ilha. Lá, ele conheceu o amor e outras tantas coisas saborosas. Na época, a única forma de entrar na região era usar a barca da Cantareira. Todo esse elo foi descrito em um poema, chamado "Ilha do Governador".
E a partir daí, começa a viagem pela vida do artista, exibida pela União da Ilha. O abre-alas mostrará esta mesma barca, em uma alegoria de três andares que terá muita coreografia por parte de seus componentes. “O primeiro setor da escola vem de vermelho, azul e branco para homenagear os 60 anos da ilha, comemorados em 7 de março de 2013. Faremos a união da região com a escola de samba", adianta Márcio André, diretor de Carnaval. A comissão de frente representará vários momentos da vida e carreira de Vinicius.
"A Bênção, Bahia"
A passagem pela Bahia e a influência das religiões afro-brasileiras na vida e carreira do artista também marcam presença em um setor inteiro. Com o tema Afrossamba, disco lançado em 1966 por Vinicius e Baden Powell e que tem muitas faixas abordando orixás, o segmento abrange várias alas, um carro, as baianas e a bateria 40 Graus, regida pelos mestres Odilon e Riquinho, com voz de Ito Melodia.
Patricia Pontes, rainha da alas das passistas e também musa do tradicional Cordão do Bola Preta, conta que estará neste setor da escola. "Faço parte do segmento da escola que fala do amor que o nosso poetinha Vinicius tinha pelo candomblé. Venho representando Yemanjá", adianta a jovem de 28 anos, que se diz apaixonada pela Ilha desde a primeira vez que pisou na quadra. " A Ilha tem uma energia diferente, por isto é conhecida como a escola mais simpática do Carnaval carioca", complementa.
Importante obra composta por Vinicius, Orfeu da Conceição, que virou peça de teatro e filme, traz a alegoria chamada Orfeu Negro, inteiramente dedicada à história. Os atores Fabrício Boliveira e Lucy Ramos interpretam respectivamente Orfeu e Eurídice. O poema Pátria Minha, publicado por Vinicius em 1949, é tema de outro carro, que apresenta a parte literária e diplomata, o sertão, o operário na construção. A alegoria tem cerca 5 mil franjas de cegonha pretas e brancas, que deram um toque luxuoso ao tema.
Sucessos dão cores e som ao trabalho da União da Ilha
Músicas como Lamento de Exu, Meu Pai Oxalá, A arca de Noé, O pato, Aquarela, Samba da Benção, suas parcerias com outros compositores também serão lembradas em alas ao longo do desfile. Muitos artistas que tiveram relação com a vida do poetinha foram convidados e estarão no desfile. Entre eles Carlos Lyra, Toquinho, Quarteto em Cy, Francis e Olivia Hime, Nana Caymmi, Edu Lobo. Letícia Spiller vem como Hêlo Pinheiro jovem, Eriberto Leão representa Tom Jobim jovem.
Alex de Souza, carnavalesco da Ilha, conta que a relação de Vinicius com a Ilha é imensa. “Foi um momento muito importante na vida dele, dos 9 aos 16 anos, com muitos relatos dedicadas à região. Namoradas, crônicas, amigos, lá ele aprendeu a nadar, a mergulhar. É uma relação tão apaixonante e bonita que pouca gente conhece”, analisa.
Na montagem da sinopse, Alex resolveu inovar. Criou uma entrevista, um bate-papo com Vinicius e usou citações do próprio artista, em músicas, entrevistas e textos para ilustrar e pontuar. O material, disponível no site da Liesa, revive a memória do escritor. “ São palavras dele. Seria difícil eu me passar ou falar sobre ele. Resolvi fazer com que ele próprio se mostrasse, e como material é vasto, aconteceu.”
Desfile será marcado por momentos da vida de Vinicius
“A Ilha vem em uma linha cronológica com temas. Exemplo, os shows, Ipanema, os poemas infantis, a boêmia e a dramaturgia serão abordados. Começamos com o nascimento do poeta e terminamos com o show. Sempre que ouvirmos Vinicius, vamos lembrar dele.”Alex preferiu homenageá-lo no último carro, com uma foto, sem necessariamente alguém para interpretá-lo. Mas o carnavalesco deixa no ar a possibilidade de alguém representar Vinicius de Moraes na Avenida. “Pode rolar e pode não rolar. Ele está presente na obra, mas pode quem sabe?”.
A escola, que nunca venceu um campeonato no Grupo Especial, chegou a esta categoria há três anos. Márcio André diz que a vitória é saudável para uma agremiação no Carnaval, e que eles trabalharam firme e levam fé. "A gente se antecipa em 15, 20 dias na preparação. Sabemos que temos Carnaval para desfilar no sábado das campeãs. O jurado tem de compreender isso tudo e olhar com mais carinho por nós. Trabalhamos sério para ganhar um campeonato, que não vai demorar a chegar ".
*Do Projeto de Estágio do Jornal do Brasil.
