Jornal do Brasil

Segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

Cardeal Orani Tempesta

Decência e Justiça

Cardeal Orani Tempesta

A justiça deve ser respeitada e deve funcionar de maneira como representada pela mitologia grega – de olhos cerrados – para mostrar a sua imparcialidade. E, retardada pela morosidade ou pelos muitos recursos, a justiça é negada. Decência e justiça: estamos diante de duas grandes virtudes, que nos tempos atuais alguns não dão muita relevância.

A palavra decência é um termo que empregamos frequentemente em nosso idioma e que usamos para referir-se a diversas questões. Quando um indivíduo atua e se comporta em diferentes situações com honestidade e respeita as convenções sociais estabelecidas em sua comunidade ou no contexto em que se encontre irá destacar-se por sua decência.

O oposto a esta referência é a desonra, indecência, que implica na perda de respeito, de estima e de honra e é, por essa razão, que várias situações são consideradas opostas à decência. 

A desonestidade é a ação que está no caminho em frente desse sentido. A desonestidade caracteriza-se pela ausência de ética, honra e justiça em termos de pensar e agir. Deve-se notar que a decência, na maioria das culturas do mundo, é considerada como um valor notável. Outro uso também atribuído à palavra decência é o sinônimo de limpeza. A limpeza envolve o asseio, o cuidado e a dedicação com que alguém trata algo que se apresenta. O conceito que se contrasta a este sentido é a sujeira, porque justamente indica a impureza e a falta de limpeza que se estabelece em algo ou alguém.

Para falar de decência, devemos tomar a Palavra de Deus lá em 1Cor 14,40: Tudo deve ser feito com decência e ordem. Isso porque os coríntios perguntaram a Paulo a respeito dos dons do Espírito Santo, especialmente o de profecia e o de falar outras línguas. Após alguns conselhos de bom senso espiritual.

Todo desequilíbrio causa indecência e desordem. A decência tem a ver com adequação, decoro, limpeza, compostura. Por isso, sempre que ocorre a decência, acontece a ordem. São essas virtudes, ensinadas pelo Espírito Santo, que Paulo propõe, seja na vida comunitária, como é o caso do culto público, seja na vida pessoal. 

Decência e ordem são bênçãos do Senhor em nossa vida cristã. O cristão decente não faz aquilo “que bem entende”. Ao consultar o Senhor e ao depender do Senhor, ele vivencia o tempo do Senhor e a ordem do Senhor. Após experimentar a “ordem” do Senhor, e somente após, descobrimos, admirados, a adequação da soberania e da providência divina. Faz sentido fazer “tudo com decência e ordem”.

A justiça é a virtude cardeal que permite uma convivência reta e límpida entre os homens. Sem esta virtude, a convivência torna-se impossível; a sociedade, a família, a empresa deixam de ser humanas e convertem-se em lugares onde o homem atropela o homem. A justiça regula a convivência da sociedade humana enquanto humana, quer dizer, enquanto baseada no respeito aos direitos pessoais; é princípio da existência e da coexistência dos homens, como também das comunidades humanas, das sociedades e dos povos.

Num de seus aspectos, esta virtude diz respeito às relações com os vizinhos, com os colegas, com os amigos e, em geral, com todas as pessoas: regula as relações dos homens entre si, dando a cada um o que lhe é devido. Sob outro aspecto, refere-se aos deveres da sociedade para com cada indivíduo, naquilo que este deve receber dela. Por último, regula aquilo que cada indivíduo concreto deve à comunidade a que pertence, ao todo de que faz parte.

Justo, no sentido pleno da palavra, é aquele que vai semeando à sua passagem amor e alegria, e que não transige com a injustiça onde quer que a encontre, geralmente no âmbito em que a sua vida se desenvolve: na família, na sua empresa, na cidade em que mora... Se nos examinarmos seriamente, é possível que descubramos na nossa vida injustiças que teremos de remediar: juízos precipitados contra pessoas e instituições, pouco rendimento no trabalho, injustiça no modo de tratar ou de remunerar os outros etc.

A prática da justiça e decência leva-nos a um constante encontro com Cristo. Em última análise, praticar a justiça e decência com um homem é reconhecer a presença de Deus nele. É por isso que também não pode haver no cristão verdadeira justiça e decência se não estiver impregnada de caridade; de outro modo, não faríamos mais do que amesquinhá-la. Cristo, nas nossas relações com o próximo, quer muito mais de nós. Por isso, temos que pedir a Ele um coração bom para praticar a justiça e a virtude da decência.

Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist. - Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

Tags: Artigo, cardeal, JB, orani, tempesta

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