Jornal do Brasil

Sábado, 22 de Novembro de 2014

Cardeal Orani Tempesta

Padre Donizetti Tavares de Lima

Dom Orani João Tempesta

Na celebração da Festa da Santíssima Trindade de 2014, o maior mistério da fé cristã, que professa haver um só Deus em três pessoas realmente distintas – o Pai, o Filho e o Espírito Santo –, a convite dos Padres da Comunidade Missionária Providência Santíssima, que trabalham pastoralmente nas três paróquias e no Santuário da Cidade de Tambaú, na minha diocese de nascimento, São João da Boa Vista, participei da Caminhada da Fé na época em que se recorda o dia do retorno ao Pai do Servo de Deus Padre Donizetti Tavares de Lima, sacerdote diocesano e pároco daquela cidade, cujo processo de beatificação está em andamento. Muitos romeiros acorrem àquele lugar semanalmente, mas nessa caminhada os milhares de católicos fazem de Tambaú um lugar de conversão e de experiência de fé.

Como nasci e vivi nessa região, a fama do pároco de Tambaú estava muito impressa em minha memória e foi grande a alegria em poder presidir esse belo momento de fé cristã com uma multidão de romeiros.

Perguntamos: será tão difícil entender, hoje, que este mesmo Deus, uno e trino, faz morada em nós pelo Batismo, a fim de que cumpramos a nossa meta de verdadeiros cristãos peregrinos neste mundo, que é a de conhecê-Lo, amá-Lo e servi-Lo, e, mediante isso, acolhermos a salvação? Ora, ser santo é corresponder aquele apelo do Senhor dirigido ao povo de Israel e depois, por meio de Jesus Cristo, a todos nós ao exortar: “Sede santos como o Pai celeste é santo” (Lv 19,2; Mt 5,48).

Somos seres sociais e nossas ações boas ou más repercutem entre nossos irmãos e irmãs, contribuindo para que eles sejam melhores ou piores do que são. Daí, dizer Elizabeth Liseur que: “uma alma que se eleva, eleva o mundo inteiro” com seu bom exemplo. Assim foi o Servo de Deus, Padre Donizetti, cuja história, baseada em escritos biográficos vários, queremos rapidamente rememorar.

Pe. Donizetti Tavares de Lima é mineiro, natural de Cássia-MG, nascido no dia 3 de janeiro de 1882, século XIX, sendo seus pais: Tristão Tavares de Lima e Francisca Cândida Tavares de Lima, em uma família de nove filhos. Quando Donizetti tinha apenas quatro anos de idade, sua família mudou-se para Franca-SP, onde ele fez o Ensino Fundamental e começou a aprender música.

Aos 15 anos de idade, entrou no Preparatório para o Seminário Episcopal de São Paulo e, depois de três anos, cursou o Colégio em Sorocaba, voltando no ano de 1900 para o Seminário. No dia 12 de julho de 1908, após a conclusão da Filosofia e da Teologia, foi ordenado Sacerdote em Pouso Alegre (MG). Passou por várias Paróquias, incluindo a de São Caetano, em Pouso Alegre; a de Santa Maria, de Jaguariúna; Sant’Ana, em Vargem Grande do Sul, até ser nomeado pároco da Paróquia Santo Antonio, em Tambaú (SP), no dia 24 de maio de 1926, aonde chegou no dia 12 de junho do mesmo ano, como seu sexto pároco, tomando posse no dia 13 seguinte, na santa missa das 11 horas desse domingo. Nessa cidade do interior paulista, Pe. Donizetti trabalhou por 35 anos, ou seja, até o dia 16 de junho de 1961, data em que faleceu aos 79 anos de idade por problemas cardíacos na mesma cidade, onde se notabilizou com fama de santidade.

O sacerdote “tinha vida austera, sem luxo, nada de requinte. Sua aspiração era servir a Deus sobre todas as coisas. Tinha total zelo pelas crianças e idosos, mas acolhia a todos sem distinção” (José Wagner Azevedo, Pe. Donizetti de Tambaú). Ainda hoje em Tambaú as suas obras sociais continuam sendo testemunhas de seu zelo social. Durante a “caminhada da fé” pude rezar diante de duas delas (crianças e idosos). Possuía grande devoção a Nossa Senhora Aparecida. Em sua época contam-se vários sinais miraculosos da multidão que acorria àquela cidade para receber a bênção do Pároco.

Após o seu falecimento até nos dias de hoje curas e milagres continuam acontecendo: são muitos relatos de curas de tambauenses e romeiros que estão registrados para serem investigados pelas instâncias competentes a distinguirem os reais milagres de outros favores divinos operados por Deus pela intercessão do padre mineiro, que muito atuou nesse interior de São Paulo.

Em vista de sua vida dedicada à missão e evangelização na simplicidade e austeridade de cada dia, em maio de 1991 foi solicitada a abertura do processo de Beatificação do Pe. Donizetti através da Câmara Municipal de Tambaú, juntamente à Diocese de São João da Boa Vista, e, em 21 de fevereiro de 1992, o processo foi aberto oficialmente em nível Diocesano, que é o primeiro passo para uma causa de canonização, inscrição de alguém no cânon ou catálogo dos santos pela Igreja.

No dia 02 de dezembro de 1996, a Congregação das Causas dos Santos, da Santa Sé, após minucioso estudo da documentação enviada pela Diocese de São João da Boa Vista, conferiu ao Pe. Donizetti o título de Servo de Deus, de modo que no ano seguinte, 1997, a Diocese constituiu o primeiro Tribunal para trabalhar, reunindo nova documentação para a causa da Beatificação, etapa anterior à canonização.

Após dezessete anos de pesquisa e trabalho, a primeira etapa foi finalizada e o encerramento da fase Diocesana foi realizado em Cerimônia Pública, e em 8 de maio de 2009 foram exumados os restos mortais do Pe. Donizetti, segundo exigência da Santa Sé. No dia 16 do mesmo mês, às 17 horas, iniciou-se o cortejo com os restos mortais do saudoso sacerdote, que percorreu as ruas de Tambaú acompanhado por grande multidão.

Às 18 horas desse histórico dia 16 de maio, o atual Bispo da Diocese de São João da Boa Vista celebrou a Missa na esplanada do Santuário Nossa Senhora Aparecida para milhares de fiéis entre tambauenses e romeiros. Foi, sem dúvida, um momento de fé que emocionou a todos.

 Terminada a celebração eucarística, que contou com a presença de bispos, grande número de sacerdotes, diáconos, religiosos e diversas autoridades do cenário político do país, foi instalado o Tribunal Eclesiástico para o ato jurídico de encerramento do processo, sob a presidência de Dom David Dias Pimentel e demais membros da comissão para instrução do processo, composto por: Frei Paolo Lombardo, OFM (Postulador da Causa), Padre Anderson Godoi de Oliveira, mps (Vice-Postulador da Causa), Pe. Celso Abreu de Jesus (Juiz Delegado), Mons. Augusto Alves Ferreira (Promotor de Justiça) e Dra. Ana Lúcia Ferreira Frigini (Notária Atuária).

Encerrado o ato jurídico de fechamento da fase Diocesana do Processo de Beatificação, os restos mortais do Padre Donizetti, que estavam em urna de acrílico, ficaram expostos para que todos pudessem ver. Formou-se, então, uma fila quilométrica de pessoas que queriam tocar as relíquias do sacerdote. Após a visitação, os restos mortais do Padre Donizetti foram colocados no mausoléu erguido no Santuário Nossa Senhora Aparecida, onde permanecerão definitivamente para visita dos fiéis.

No dia 14 de setembro de 2009, o Processo de Beatificação foi entregue na Congregação das Causas dos Santos e, em 29 de outubro de 2010, essa mesma Congregação enviou a Tambaú o Decreto de Validade do Processo. No dia 21 de janeiro de 2011, a Santa Sé nomeou o Pe. Simon, beneditino espanhol, para trabalhar na realização do próximo passo, chamado de “Positio” (parecer).

O Postular atual do Processo de Beatificação do Pe. Donizetti é o Dr. Paolo Vilotta, que já tem a alegria de saber que toda documentação enviada à Santa Sé está, canonicamente, conforme as normas da Congregação para a Causa dos Santos, está sendo estudada pela comissão nomeada por Roma, de modo que é grande a expectativa de que, em breve, o Pe. Donizetti seja reconhecido como venerável, para então poder dar prosseguimento ao processo.

Ser santo é viver de acordo com a vontade de Deus, praticando as virtudes cristãs da fé, da esperança e da caridade em grau heroico, ou seja, acima da média. Esse é o primeiro ponto: saber se o candidato a santo foi enormemente virtuoso em sua vida do dia a dia. 

Para ele, além das curas físicas que muitos atestam terem alcançado com suas bênçãos sacerdotais, era necessário pensar na vida digna para as pessoas. Além das várias obras sociais, ele lutou também pela transformação social para conseguir água potável para todos, melhores moradias, saúde, educação etc.

Padre Donizetti parecia levar muito a sério, em seus vários sentidos, o ensinamento de Santo Irineu de Lião, que diz: A glória de Deus é o homem vivo, ou seja, para que Deus seja realmente glorificado neste mundo é preciso que os seres humanos tenham o necessário para viver e caminhar continuamente na vida de conversão. Temos confiança de que o reconhecimento de suas virtudes e de sua vida cristã exemplar será um bem para a Igreja.  

Contemos, pois, sempre com este poderoso intercessor. Amén.

Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

Tags: cardeal, coluna, orani, Rio, tempesta

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.