Jornal do Brasil

Domingo, 23 de Novembro de 2014

Cardeal Orani Tempesta

Solenidade de Corpus Christi

Dom Orani João Tempesta*

Neste dia 19 de junho, celebramos a solenidade de Corpus Christi. A expressão latina Corpus Christi, tão utilizada nesta ocasião, significa Corpo de Cristo. É uma festa que celebra a presença real e substancial de Cristo na Eucaristia. É realizada na quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade, que, por sua vez, acontece no domingo seguinte ao Pentecostes. É uma festa de preceito, isto é, devemos participar da celebração da missa neste dia.

Em nossa diocese o tema que nos norteou nesses dias foi Eucaristia e caridade, com o lema Dai-lhe vós mesmos de comer (Mt 14, 16b). Além de atualizar o “ano da caridade”, nos impulsiona para anunciarmos o Senhor Jesus em trabalhos missionários, e, ao mesmo tempo, estarmos comprometidos com um mundo mais justo e fraterno. A assistência e promoção social unida às justas reinvindicações são compromissos fraternos de todo cristão neste mundo tão injusto e desigual. Durante a procissão recolhemos alimentos não perecíveis como sinais de que, alimentados pelo Pão do Céu, partilhamos também o pão de cada dia para os irmãos e irmãs.

A procissão pelas vias públicas atende a uma recomendação do Código de Direito Canônico (cânone. 944), que determina ao bispo diocesano que a providencie, onde for possível, “para testemunhar publicamente a veneração para com Santíssima Eucaristia, principalmente na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo”.

É recomendado que nestas datas, a não ser por causa grave e urgente, não se ausente da diocese o bispo (cânones. 395 SS3). Em muitas cidades portuguesas e brasileiras, é costume ornamentar as ruas por onde passa a procissão com tapetes de colorido vivo e desenhos de inspiração religiosa. Esta festividade de longa data se constitui uma tradição no Brasil, principalmente nas cidades históricas, que se revestem de práticas antigas e tradicionais e que são embelezadas com decorações de acordo com costumes locais.

A origem da solenidade do Corpo e Sangue de Cristo remonta ao século 13. Esta solenidade litúrgica foi Instituída pelo papa Urbano IV (1262-1264), através da bula Transiturus, de 11 de agosto de 1264, para ser celebrada na quinta-feira após a festa da Santíssima Trindade, que acontece  no domingo depois de Pentecostes. Urbano IV, antes de ser escolhido papa, foi cônego de Liége (Bélgica) e se chamava Tiago Pantaleão de Troyes, o mesmo que recebeu o segredo das visões da freira Juliana de Liége, que pedia uma festa da Eucaristia no calendário litúrgico. Esta solenidade entra no calendário litúrgico da Igreja para evidenciar e enfatizar a presença real  do Senhor Jesus no pão e no cálice consagrados. Conta à história que um sacerdote chamado Pedro de Praga, muito piedoso e zeloso pastoralmente, vivia angustiado por dúvidas sobre a presença real de Cristo no pão consagrado. Decidiu então ir em peregrinação ao túmulo dos apóstolos Pedro e Paulo, em Roma, para pedir o dom da fé. Ao passar por Bolsena (Italia), enquanto celebrava a santa missa, foi novamente acometido pela  dúvida. Na hora da consagração veio-lhe a resposta em forma de milagre: A sagrada hóstia branca transformou-se em carne viva, respingando sangue, manchando o corporal (pano branco no qual são colocadas as sagradas espécies consagradas), o sanguíneo (paninho de limpar o cálice)  e a toalha do altar. Por solicitação do papa Urbano IV, os objetos milagrosos foram para Orvieto em solene procissão. Esta foi a primeira procissão. Em 11 de  agosto de 1264, o papa lançou de Orvieto para o mundo católico o preceito de uma festa solene em honra do corpo e sangue do Senhor.

A festa de Corpus Christi é um convite para uma meditação sobre o valor e a importância da Eucaristia em nossa vida. A Eucaristia é um dos sete sacramentos e foi instituído na Última Ceia, quando Jesus disse: “Este é o meu Corpo... Este é o cálice do meu Sangue... fazei isto em memória de mim” (Mt 26,26). Quem pediu que nós ao longo dos tempos e da história celebrássemos a Eucaristia foi o próprio Cristo.  A Igreja Católica cumpre este mandato até hoje, para perpetuar a presença salvadora de Jesus na história.   O texto bíblico  mais evidente e claro sobre a doutrina da Eucaristia é o capítulo 6 de São João. Todo ele  é um discurso eucarístico de Jesus que disse “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6,56). A Eucaristia é a realização da promessa de Jesus que disse: “Eis que estarei convosco até a consumação dos séculos” (Mt 28).

Santo Tomás de Aquino afirmou:  “Nenhum outro sacramento é mais salutar do que a Eucaristia. Pois, nele os pecados são destruídos, crescem as virtudes e a alma é plenamente saciada de todos os dons espirituais. A Eucaristia é o memorial perene da paixão de Cristo, o cumprimento perfeito das figuras da antiga aliança e o maior de todos os milagres que Cristo realizou” —  a Eucaristia constitui o maior milagre realizado por Jesus neste mundo. A celebração de Corpus Christi consta de uma missa, procissão e adoração ao Santíssimo Sacramento. O destaque maior neste dia é a procissão com o Santíssimo, a qual recorda a caminhada do povo de Deus, como um povo peregrino neste mundo. No Antigo Testamento o povo foi alimentado pelo maná, no deserto. Hoje, é alimentado com o próprio corpo e sangue de Cristo.

Jesus, Pão do Céu e médico celeste que cura, liberta todos aqueles que O buscam. Só ele é capaz de preencher os nossos vazios existenciais e plenificar nossa vida. Façamos parte do seu discipulado! A vida cristã consiste em viver  em Jesus Cristo, com Jesus Cristo e por Jesus Cristo neste mundo, ou seja, fazer da vida uma Eucaristia para os irmãos, como fez o Senhor Jesus.  Que o Senhor Jesus, visibilizado pelo dom celestial da Eucaristia, abençoe nossas famílias e todo o nosso povo brasileiro.

* Dom Orani João, Cardeal Tempesta, cisterciense, é arcebispo do Rio de Janeiro.

Tags: corpo de cristo, eucaristia, pão do céu, presença real, solenidade

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