Jornal do Brasil

Domingo, 26 de Outubro de 2014

Cardeal Orani Tempesta

Páscoa e vida cristã

Cardeal Orani João Tempesta*

Vivemos tempos especiais, em que grandes momentos de evangelização acontecem ao mesmo tempo, e grandes desafios nos são lançados. 

Nesta semana que finda, o papa Francisco celebrou a missa de ação de graças pela canonização do Apóstolo do Brasil, José de Anchieta. Além de sua influência na história de nosso país e também da cidade do Rio de Janeiro, ele foi um jovem cristão que soube enfrentar desafios e anunciar o evangelho em condições as mais diversas no início da presença portuguesa em nosso país. 

No final desta semana iremos celebrar o Domingo da Misericórdia quando, em Roma, o papa Francisco irá canonizar os papas João XXIII e João Paulo II. Homens de Deus, nossos contemporâneos, que são exemplos de vida cristã para nós. São sinais colocados em nossos horizontes para que encontremos, também nós, o caminho da santidade. 

A oitava da Páscoa nos faz refletir sobre os acontecimentos da Semana Santa, a bela participação do povo de Deus em massa em todas as celebrações, e os desafios de nossa presença em situações extremas desta grande cidade, cheia de desafios. 

Em nossa arquidiocese, tivemos a páscoa eterna de um sacerdote relativamente jovem que tanto serviu ao povo de Deus. Celebramos solenemente São Jorge com um grande afluxo de devotos. Também, como todos viram pelos noticiários, tivemos os acontecimentos que envolveram a nossa Catedral no grito por melhores condições de moradia. Mesmo sabendo que o horizonte é muito mais vasto, os grupos e comunidades de nossa arquidiocese que trabalham nessa área deram toda assistência e encaminhamentos cristãos. Os trabalhos sociais são grandes em todos os níveis, tanto na assistência como na promoção e na reinvindicação. Temos a maior rede de assistência social quando incluímos, além da arquidiocese, também as congregações religiosas, novas comunidades, irmandades, entidades ligadas a católicos, e tantos outros trabalhos históricos, desde Anchieta. 

Tive a oportunidade de celebrar o Tríduo Pascal em algumas comunidades, levando a todos a certeza de que a vida venceu a morte! O encontro com o povo nessas comunidades sempre é muito carinhoso, ao mesmo tempo em que nos compromete com suas causas e sonhos. 

Somos chamados a viver testemunhando o Cristo Ressuscitado. Somos chamados a viver a missionariedade como sal da terra e luz do mundo. 

Celebramos a vida, morte e ressurreição de Jesus – o mistério pascal. Celebramos o centro da nossa fé. O Filho de Deus, o Verbo Eterno que se fez homem, veio nos trazer a vida.  A sua presença sempre incomodou, incomoda e incomodará porque nos ensina a estar no mundo sem ser do mundo. Jesus vai dar a sua vida, vai se entregar e vencer a morte com a sua morte-ressureição, que nos dá a certeza de que, por mais que o mundo rejeite Jesus Cristo, sempre a vida e a ressurreição triunfam. 

A Igreja vive em meio a dificuldades e perseguições, vive na diversidade de situações, pois nós trazemos em vaso de barro uma Palavra que é de uma riqueza imensa – Deus amou o mundo mandando o seu Filho Jesus para nos salvar.  

Estar no mundo sem ser do mundo, procurar viver a caridade sem ser uma ONG, e sim cristãos comprometidos com Cristo e com os irmãos. São desafios antigos e novos sempre presentes. 

Celebramos a Páscoa com alegria e continuamos a fazê-lo por oito dias solenemente, e, depois, até Pentecostes como um tempo especial de festa e anúncio alegre. A liturgia nos atualiza no sentido de que temos Jesus, esse Jesus que incomodou, que queriam eliminá-l'O e que ressuscitou. A nossa vida não é diferente: estamos no mundo, no trabalho, no estudo, na realidade cultural, porém, nós trazemos uma Palavra que é vida e salvação. O Evangelho nos ensina como viver como cristãos hoje: renovação das promessas batismais, para sermos sinais de que em Jesus Cristo se encontra a verdadeira vida, testemunhamo-l'O, proclamamo-l'O. Em qualquer situação somos chamados a ser testemunhas d'Aquele que é vida, para poder ser sinal de Jesus Cristo na sociedade.

Proclamemos o Evangelho com a palavra, o testemunho ao estar no meio do mundo, anunciando o mundo novo que é Cristo. 

No âmbito do Ano da Caridade da nossa arquidiocese, devemos lembrar que a primeira maneira de viver a caridade é ser caridoso com o próximo. E amar o próximo requerer uma conversão profunda, deixar de lado as amarras do pecado e viver a luz do mundo, que é o Cristo Ressuscitado! A Igreja se compromete com o outro, não só com as suas preocupações materiais mas principalmente com o sentido último de sua vida e o valor de sua própria pessoa enquanto filho de Deus, que no fundo é viver como cristãos. 

Na Vigília Pascal renovamos as promessas batismais. Fomos preparados pela Quaresma, seja como tempo de penitência, seja com as reflexões litúrgicas, em especial com o tema da água, da luz, da ressurreição. Eis que chegamos ao cume do ano litúrgico, e a Igreja nos conduz a reavivar esse grande dom de Deus em nossas vidas: o nosso batismo, o ser cristão. 

Ao falar sobre a água, recordemos o diálogo com a Samaritana. Jesus iniciou o seu diálogo com ela, mesmo que os seus discípulos ficassem estupefatos. Ele disse à estrangeira: "Dá-me de beber” (cf. Jo 4,7). Aqui fica um questionamento importante: por que eu vivo, qual a razão de minha vida, da verdadeira vida?  

Devemos viver a nossa vida iluminados por Cristo. A Samaritana, pela sua vida, pelo seu comportamento imoral, sai mostrando aos outros que o Messias que ela encontrou chamou-a a viver uma vida completamente nova. Apontar o pecado dos irmãos deve ser para que o pecador saia do pecado e procure viver uma vida nova, iluminado completamente por Cristo. 

Quem encontra Cristo, a água viva, vive uma vida nova e testemunha Jesus. Por isso, outros vêm ver Jesus pelo testemunho da Samaritana, uma estrangeira, uma pecadora pública. A Palavra viva é decisiva para que toda pessoa que tenha sede da Palavra de Deus possa viver e encontrar os caminhos de uma vida iluminada. 

Nosso Senhor Jesus Cristo nos dá uma nova vida que renova, que transforma, que tira água viva da Pedra e que sempre dá a possibilidade de um recomeço. Tantos são os corações petrificados que se transformam em água viva pela graça de Deus. Devemos, pois, enxergar o chamado da conversão, somos testemunhas de Jesus Cristo na sociedade. 

Somos convidados a ser pessoas que encontraram razões para se encontrar com Jesus Cristo. Somos chamados a ser luzeiros da esperança, de vida nova, iluminando o ambiente de trabalho, os vizinhos, os amigos como alguém que encontrou a vida nova, como autênticos discípulos-missionários. 

No final do episódio da Samaritana está o resultado de quem é iluminado por Cristo: "Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o salvador do mundo” (cf. Jo 4,42). Essa maturidade de quem se encontra com o Senhor: vimos e ouvimos que este é o Filho de Deus, fazendo a experiência do Senhor que nos chamou, e nós encontramos a verdadeira vida em Jesus Cristo. 

Agora, depois de renovarmos as promessas do nosso batismo, somos chamados à santidade e a testemunhar o Redentor no mundo, amadurecendo nosso itinerário de fé, nossa caminhada pastoral, e encontrar Jesus Cristo Ressuscitado. 

A pedra do sepulcro que foi removida, o túmulo vazio, os encontros com o Ressuscitado nos sejam atualizados em nossas vidas, hoje, para sermos como os primeiros discípulos: testemunhas da Ressurreição! Assim como São Jorge, Anchieta, João XXIII, João Paulo II e tantos outros, estejamos no mundo vivendo o nosso batismo, sendo sal e luz proclamando a vida de Cristo nessa sociedade tão injusta e carente. O horizonte é vasto. A missão é enorme! Estejamos unidos nesse belo e importante trabalho para o bem e salvação das pessoas. Continuemos a viver com alegria o tempo pascal, e que, um dia, cheguemos juntos à Páscoa eterna. 

* Dom Orani João, Cardeal Tempesta, cisterciense, é arcebispo do Rio de Janeiro.

Tags: anchieta, desafios, EVANGELIZAÇÃO, Francisco, joão paulo ii, joão xxiii, são jorge

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