Jornal do Brasil

Sábado, 20 de Dezembro de 2014

Cardeal Orani Tempesta

Paz aos pés do Cristo Redentor!

Cardeal Orani Tempesta*

Entramos na Quaresma! Quarta-Feira de Cinzas nos recorda que somos pecadores e todos chamados à conversão: “Convertei-vos e crede no Evangelho”, pois o tempo passa rápido e sabemos que “somos pó e a ele voltaremos” um dia.

Enquanto refazemos o caminho do êxodo (das escravidões para a libertação) na busca de conversão por uma ascese que nos conduza a uma mística de vida cristã adulta, somos convidados a refletir sobre as consequências da presença cristã na cidade. Assim como temos a cada ano a oportunidade de sermos questionados sobre como viver a conversão concretamente, seja pela mudança de vida, seja na profética Campanha da Fraternidade, que este ano tem como tema o tráfico humano.

O papa Francisco, em sua mensagem para os brasileiros sobre a CF, nos recorda palavras duras: “Eu só ofendo a dignidade humana do outro, porque antes vendi a minha” a “troco do poder, da fama, de bens materiais”. E ainda mais: “quando piso (a dignidade humana) no outro, estou pisando a minha”.

Por isso mesmo, alargando os horizontes, somos chamados a ver a nossa missão nesta nossa grande cidade. Tão cheia de violências, falta de liberdade de ir e ir, com tantas insatisfações, corrupções, interesses, manipulações! O desejo de tempos e vida melhores misturado com tantas violências.

Sempre temos muitas mortes ao redor: algumas mais divulgadas e outras anônimas. Quantos que morrem no trânsito a cada dia! Quantos são desaparecidos, e não se tem notícia sobre suas vidas e, muitas vezes, sobre suas famílias! Outras vezes, quantos que tiram a própria vida devido a tantos conflitos internos dentro de si. São muitas situações e dores que machucam o tecido social de nossa cidade.

Ao olharmos o povo carinhoso e solidário de nossa cidade, não imaginamos como pode haver tantos roubos e assassinatos a cada dia, desrespeitando a vida e a liberdade humana.

As mortes mais comentadas e divulgadas nos fazem refletir sobre as tantas outras. E nos perguntar: teria outro jeito possível para viver? Teríamos condições de construir uma cidade de paz?

É claro que sempre nos depararemos com a liberdade humana (até para fazer o mal, claro, com suas consequências) e com os desequilíbrios e doenças nesses grandes centros, onde o estresse e outras situações despersonalizam tantos seres humanos.

As famílias se machucam, as pessoas se revoltam, outros querem fazer justiça com as próprias mãos, revoltados, sentindo-se traídos ou explorados. As manifestações pacíficas refletem um pouco essas insatisfações ligadas a tantos direitos como a saúde, transporte, habitação, educação, lazer e outros. Mas também nos perguntamos sobre aqueles que se acham no direito de serem violentos e depredam e matam as pessoas porque se justificam que também foram violentados antes. Ainda aqueles para os quais não deveria existir leis e sim apenas a “anarquia”.

Tive oportunidade de encontrar pessoas que experimentaram perdas familiares e que, longe do ódio ou vingança, clamam por tempos novos e mais justos na busca da paz.

Todos os cidadãos têm direito de livre manifestação. As reivindicações por vida mais justa e para o respeito aos direitos marcam este tempo na sociedade mundial e também em nosso país. Como distinguir entre esses movimentos justos e as situações de violência contra as pessoas e seus bens apenas com fins inconfessáveis?

As imagens da violência na cidade parece que não combinam com o sentimento do carioca. O carioca é alegre. O carioca é solidário. O carioca é bem humorado. O carioca se relaciona. O carioca é expansivo. O carioca é de bem com a vida. O carioca é religioso. Vimos isso na JMJ Rio 2013, em que o acolhimento foi um ponto de destaque no mundo. E a alegria dos jovens que não revidaram às provocações de grupos fanáticos ou intolerantes, fazendo transparecer o que realmente conta, que é a fraternidade, demonstra os caminhos de tempos melhores. Por isso o carioca, ao se manifestar, ao reivindicar sempre propõe, dialoga, conversa.

Conclamo o povo do Rio de Janeiro a ser solidário com a dor dos que sofrem, que são injustiçados, padecem na miséria ou perderam seus entes queridos na violência urbana. Vejo com muito carinho, cada vez que pedimos através da Caritas Arquidiocesana ajuda para situações de calamidade, que a resposta é ampla e generosa. Sou testemunha disso, dessa solidariedade que se transforma em gestos concretos. Necessitamos de continuar dando esses passos e fazendo acontecer uma nova civilização aos pés do Cristo Redentor. A beleza desta cidade cantada em prosa e verso e o coração generoso de seu povo podem transformar a realidade para que realmente o “amor ao próximo” aconteça em todos os gestos, pequenos ou grandes, daqueles que habitam esta cidade maravilhosa.

Uma cidade que se autoproclama maravilhosa deve ter Deus em seu centro e, por isso mesmo, do alto do Corcovado, o Cristo Redentor de braços abertos acolhe a diversidade de culturas e de raças, mas nos chama a fazer o que Cristo ensinou: amar, perdoar, acolher, rezar, ajudar, solidarizar-se.

Nossa cidade não pode arrefecer a sua vocação espiritual, a exemplo de São Sebastião que, diante do Imperador Diocleciano, protestou duas vezes publicamente contra as perseguições aos cristãos. Nós devemos seguir o exemplo do Santo Guerreiro. Pedir melhorias para a nossa cidade e a sua gente boa, mas pregar a paz na sua reivindicação.

Em Roma, onde estive recentemente, pude falar com o papa emérito Bento XVI e com o papa Francisco, agradecendo pela escolha e realização da JMJ aqui nesta cidade. E levei junto o coração de cada carioca e fluminense, os brasileiros nascidos nas terras evangelizadas por Anchieta, sobre a proteção de São Sebastião. Que ele ajude todos os cidadãos de boa vontade a construírem uma nação, uma cidade em que Deus habita, em que Deus governa, pautada em seus valores éticos, morais, de querer bem ao irmão, de ser solidário, pacífico e propositivo, buscando um caminho de diálogo, de partilha, de solidariedade, promovendo a cultura da vida.

O papa nos dá a receita para que a paz habite a nossa cidade: “Quando os líderes dos diferentes setores me pedem um conselho, a minha resposta é sempre a mesma: diálogo, diálogo, diálogo". E diálogo exige transparência, respeito, valorizar as leis que nos guiam e ter a coragem de mostrar o rosto em que brilha a vontade de superar qualquer divisão e estabelecer a paz, o grande anseio que os cariocas querem e desejam, a paz do Cristo Redentor!

É, aliás, um dos versos do hino desta cidade, que completará 450 anos no próximo ano: “Jardim florido de amor e saudade, terra que a todos seduz, que Deus te cubra de felicidade, ninho de sonho e de luz”.

Que neste tempo da Quaresma os católicos caminhem em conversão e contagiem a todos com o bem. Que “Deus cubra a todos de felicidade”. Paz na terra! Paz no céu! Paz no Rio de Janeiro com diálogo e partilha!

*Cardeal Orani Tempesta é arcebispo do Rio de Janeiro. 

Tags: caminho, cidade, Conselho, éticos, líderes, resposta, valores

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