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Protagonismo potro

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José Luiz Niemeyer dos Santos *, Jornal do Brasil

RIO - A condução da política externa brasileira, nos últimos anos, vem sendo caracterizada por um claro protagonismo de cunho conceitual e instrumental.

Os resultados são positivos, sim, principalmente em áreas que envolvem uma ampliação das linhas comerciais entre o país e outras regiões fora do eixo norte-americano e europeu; uma maior visibilidade da presença brasileira nos fóruns internacionais; uma representação mais eficiente dos interesses empresariais brasileiros, e mesmo do cidadão comum, no exterior. Entre outras iniciativas no plano internacional.

Todavia, a base desta ação de política externa é em muito fundamentada num tipo de protagonismo a qualquer custo .

Como diz o título deste artigo, estaríamos operacionalizando uma forma de protagonismo potro, aproveitando aqui a figura do cavalo muito jovem, exercendo toda sua vitalidade, que pensa poder tudo quando é solto no campo.

E neste caso reside um problema grave num regime superpresidencialista, como é o caso brasileiro, as figuras do presidente da República e do chanceler, por estarem muito expostos, quando se utilizam de uma retórica e de um posicionamento muito assertivo, ganham uma dimensão que pode suplantar e neutralizar a condução da própria política externa do Estado brasileiro.

Por exemplo. As últimas declarações e visitas oficiais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva versaram sobre uma possível retomada das ilhas Falklands pela Argentina; o posicionamento do governo iraniano acerca de seu programa nuclear; a forma como os outros países, principalmente os EUA e Israel, devem discutir tal posicionamento; o futuro do conflito árabe-israelense; e os rumos do conflito entre o Hamas e o Fatah dentro de uma dinâmica de negociação interna da Autoridade Palestina.

Tais temas e agendas de negociação envolvendo Estados e governos são muito sensíveis e devem ser tratados com parcimônia e cuidado.

O mais grave é que no caso destes cinco temas descritos acima o presidente Lula e o chanceler Celso Amorim não apenas discursaram sobre como também se posicionaram a favor ou contra; e em nome do Estado brasileiro.

Ao se posicionar favorável a uma retomada das negociações sobre a posse das Falklands, o presidente Lula se adiantou à própria Argentina.

Ao indicar que a forma como o Irã trata seu programa nuclear deve ser compreendida, primeiramente, sob a ótica dos interesses estratégicos iranianos, também é muito grave na perspectiva da lógica da política internacional contemporânea.

Opinar sobre como os países ocidentais e Israel devem se posicionar com relação a esta questão tem tão pouco sentido prático que pode ser considerado uma ação por demais vazia.

O mesmo se pode dizer quando o presidente Lula busca colocar-se como mediador das questões tradicionalmente dificílimas que envolvem o conflito árabe-israelense e árabe-palestino.

Na seara da política externa os vetores capacidade e vontade devem estar equilibrados. É dispendioso e fraco quando um país possuindo capacidade não exerce vontade.

Mas é perigoso quando um país exerce vontade sem possuir toda a capacidade necessária.

O Brasil possui mais vontade do que capacidade.

Há espaço e intenção política para adquirir maior capacidade. E este é um processo alvissareiro, sim.

Mas sempre equilibrando a vontade presente com a capacidade real.

* Cientista político