O filho de Dona Lindu
Candido Mendes, Jornal do Brasil
RIO - Apenas desponta, contra as primeiras expectativas, o sucesso de Lula, o filho do Brasil, a ganhar o mais profundo do inconsciente social brasileiro. Têm razão os produtores, em querer levar o filme para as praças públicas desmunidas de cinema no cerne do povo de Lula , a responder, aliás, à pedagogia mais ambiciosa da película. Dona Lindu, sim, é a mãe desses brasileiros, no abraço enorme e permanente da partida e chegança pelos Brasis, da tábua do caminhão como do descasco das paredes da Vila Carioca, em São Bernardo, na certeza do êxito de Luiz Inácio e o nenhum espanto do até onde chegaria.
Logrou o filme essa identidade umbilical com o Brasil de Lula, nesse primeiro aconchego do filho, mesmo antes do companheiro do novo enlace sindical, saído, de vez, do pegajoso do pelego ou do luxo das radicalidades doutrinárias.
Importante, de logo, é a sinalização de como o começo da carreira de Lula justifica o desfecho da sua maturidade. É ele o construtor de maiorias, paciente diante da indignação dos próprios irmãos e a avançar nas suas coalizões impressentidas. Também a liderança indiscutível brota de logo no respeito dos próprios repressores, enquanto permitem a Lula sair da prisão para assistir ao funeral da mãe.
A película, por outro lado, não transige no realismo em que retrata o pai, Aristides Silva, na expressão clássica do desapreço ao estudo do menino, a querer só forçá-lo a trabalhar, e trabalhar, sem recreio.
O que se desenha é um Lula, de saída, indeciso no enfrentamento, mas que cresce, na busca instintiva de defender o salariado, na força de um trabalhador inserido na família para os confrontos de fábrica, sem a retórica dos extremismos na luta de classe no ABC. A nova liderança cresceu, rápido, nos tempos de risco múltiplo, de greves gerais no governo militar. E é genuinamente pelo repto de um consenso, sempre à obra, que Lula pede as mãos para cima ou não, em continuar a luta sindical.
O filme, entretanto, para antes da transformação da liderança operária em partidária, e priva-nos da crônica de emergência do PT, da matriz inicial da fábrica e da Igreja Católica, prefigurada na reunião na Catedral de São Bernardo, e com o apoio, então, do seu bispo Claudio Hummes, como berço das assembleias interditadas nos estádios. Já assentava, então, o percurso subsequente do companheiro Lula, da chegada ao Planalto, à Presidência dos 84% de apoio em fins do segundo mandato, no recado único para o futuro democrático do país, de todo o prenúncio do filho de Dona Lindu.
Candido Mendes é cientista político.
