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Disputa com a qual o país só tem a ganhar

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Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Um dos conceitos mais importantes para a qualidade da democracia é o de accountability. Sua tradução seria algo como a capacidade de prestação de contas dos governantes em relação aos cidadãos. Alguns sistemas políticos, em virtude de suas características institucionais, são mais favoráveis e estimulam o fornecimento de informações necessárias ao eleitor para que eles façam uma boa escolha de seus representantes. Isso é importantíssimo. É assim que ele pode saber se seu parlamentar realmente cumpriu as promessas de campanha ou comparar o governo atual com o(s) anterior(es). Sistemas bipartidários, como o dos Estados Unidos e do Reino Unido, geralmente são elogiados por facilitarem essa prestação de contas. Como há dois grandes partidos alternando-se no poder, um será sempre confrontado pelo adversário, na oposição, que lhe cobrará pelo que fez e pelo que deixou de fazer.

O Brasil, muitas vezes criticado pelo seu multipartidarismo exacerbado, que impediria uma prestação de contas e uma identificação clara da eficiência dos governos, curiosamente, é um exemplo de que a accountability também pode se dar em um sistema partidário com muitas legendas, reunidas em torno de dois blocos que se alternam no poder.

Prova disso é a luta política que começa a se desenhar para as eleições presidenciais deste ano. PT e PSDB, as duas principais siglas, aglutinam em torno de si outros partidos e vêm polarizando a política nacional desde 1994. Mas só agora, ao que tudo indica, ocorrerá um debate claro, em que se fará uma comparação séria entre as administrações petistas e tucanas. É um embate que já poderia ter se dado antes, sobretudo em 2006, mas que o candidato peessedebista Geraldo Alckmin evitou. Como também José Serra, em 2002. As realizações e a herança dos anos Fernando Henrique Cardoso não foram defendidas. Diante da impopularidade com que o ex-presidente saiu do governo, após uma crise econômica mundial, os candidatos tucanos optaram pela estratégia de marketing eleitoral, de curto prazo, em detrimento de um posicionamento político mais vantajoso a longo prazo. Perderam bandeiras, o discurso e a oportunidade de defender suas políticas.

Mas tudo deve ser diferente neste ano. O tão aguardado confronto entre os governos FHC e Lula já começou. Primeiro, por iniciativa do próprio presidente. Lula por acreditar que a comparação será vantajosa, favorecendo sua candidata, Dilma Rousseff vinha anunciando que queria uma disputa plebiscitária, que pusesse lado a lado seus oito anos de Presidência com os oito de Fernando Henrique. A dúvida era se os tucanos, mais uma vez, evitariam. Não desta vez.

Em artigo publicado no último domingo, intitulado Sem medo do passado, FHC faz uma contundente defesa das realizações de seu governo. É um texto escrito com o fígado, que faz críticas pesadas ao adversário Lula. Mas que também busca relacionar seus feitos e exorcizar dois tabus para os tucanos: o tema da privatização e a alegada falta de prioridade conferida à área social. O artigo termina chamando Lula para a briga das comparações. Desde que o confronto se dê dentro de um clima de civilidade, com honestidade na defesa das ideias, é uma briga boa, e cujo vencedor já se pode declarar antecipadamente: a democracia brasileira.