Jornal do Brasil

Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

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Perspectivas 2010: outro ano à margem das turnês internacionais

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Luiz Felipe Carneiro *, Jornal do Brasil

RIO - Neste ano, comemoraremos os 25 anos da primeira edição do Rock in Rio. Pode até parecer estranho, mas, àquela época, o evento idealizado por Roberto Medina ainda acontecia no Rio de Janeiro, como o nome indicava. Passado todo esse tempo, hoje podemos definir melhor a importância do festival. Antes dele, poucos artistas internacionais haviam se aventurado a tocar no Brasil. O Queen, por exemplo, quando veio ao Brasil pela primeira vez, em 1981, teve que cancelar a sua apresentação no Rio porque o governador Chagas Freitas, no último momento, decidiu não liberar o Maracanã. E o Kiss, no ano seguinte, teve parte do seu equipamento extraviado. Com o Rock in Rio de 1985, os cariocas, além de terem a oportunidade de assistir a apresentações de bandas como Iron Maiden, Yes e Queen, viram que esse negócio de show era coisa séria.

Depois disso, o Rio viu apresentações de artistas como Paul McCartney, Eric Clapton, Rolling Stones, Madonna, U2, além de diversas edições do finado Hollywood Rock. Triste notar que, 25 anos depois, apesar de a oferta de shows internacionais ter aumentado, a capital fluminense tenha sido jogada para escanteio. Em 2009, por exemplo, bandas como AC/DC, Iggy Pop e Sonic Youth não deram as caras por aqui. Por outro lado, bateram ponto em São Paulo. No início deste ano, os fãs cariocas do Metallica também terão que se deslocar até a capital paulista para assistir ao show da turnê Death magnetic. A explicação para esse fenômeno não é tão simples.

Diversos fatores afastaram o público desses grandes shows. O excesso de artistas que vêm para cá pode ser um deles. Na medida em que diversas bandas venham se apresentar por aqui num espaço de tempo tão curto, o público tem que optar. Em 2009, as dúvidas foram cruéis. Iron Maiden ou Kiss? Faith No More ou Prodigy? Keane ou Oasis? Simply Red ou A-Ha? Além da oferta, o preço dos ingressos tem beirado o absurdo. Por exemplo, somente em fevereiro de 2010, teremos shows de Beyoncé e do Coldplay. Os ingressos mais caros custam, respectivamente, R$ 750 e R$ 500 sem contar as taxas de venda pela internet. No show da Beyoncé, é possível também desembolsar R$ 180 para um lugar com visão parcial (?!?) do palco. E tudo isso no mês do Carnaval! Os honestos que não falsificam carteira de estudante têm que pagar esses preços exorbitantes até mesmo para as celebridades , que, em sua maioria, com seu lugar VIP garantido, nem sabem o que acontecem no palco..

O fato, contudo, é que o problema dos preços não é exclusividade do Rio de Janeiro. Então, o que explica essa opção dos produtores por São Paulo em vez do Rio? O AC/DC disse que não poderia vir ao Rio porque a logística da sua turnê não permitiria apresentações em duas cidades brasileiras diferentes. A opção acabou sendo São Paulo. E a explicação parece ser muito mais cultural do que financeira. Apesar de todo mundo dizer que a grana rola mais solta em São Paulo, os shows do R.E.M. e do Queen, que aconteceram em 2008, tiveram preços mais caros (e mais lugares vazios) em São Paulo do que no Rio.

A impressão que fica é que o público paulistano tem uma relação mais estreita com os seus ídolos. E, por sua vez, o Rio de Janeiro oferece opções de lazer mais variadas do que São Paulo. Talvez seja estranho para o carioca sair da praia num dia de verão para assistir a um show (caro) na Praça da Apoteose ou na HSBC Arena, em Jacarepaguá. O paulistano, por sua vez, é mais noturno. É como se o show fosse o programa do dia , diferentemente do carioca. Por isso, talvez os artistas e empresários estrangeiros se sintam mais seguros em agendar uma apresentação em São Paulo (ou até mesmo em alguma capital do Sul) do que no Rio de Janeiro.

Enfim, vários outros fatores pode explicar essa opção. Só é triste constatar que o Rio de Janeiro, que, com o Rock in Rio, foi a porta de entrada dos grandes shows internacionais no país, tenha se tornado a segunda (ou terceira) opção de artistas e produtores internacionais.

* Luiz Felipe Carneiro é responsável pela editoria Esquina da Música, do site SRZD (http://www.sidneyrezende.com).