Diplomacia persa no Brasil
José Flávio Sombra Saraiva, Jornal do Brasil
RIO - O desembarque do presidente Ahmadinejad em Brasília não produziu o espetáculo esperado pelos plantadores de catástrofes. Tampouco preencheu o lugar do espetáculo imaginado por setores da imprensa ávidos por palavras fortes e bombásticas a serem pronunciadas pelo homem de Teerã. Nem mesmo serviu ao jogo de empurra-empurra partidário no Congresso Nacional, nem ao clima pré-eleitoral do Brasil de 2010. Irrelevantes foram os parcos protestos na frente do Itamaraty.
Ao contrário, o semblante sereno e amplo do presidente do Irã predominou. Seu profundo e longínquo olhar, a lembrar quase todo alto dirigente iraniano que se conhece naquele antigo país, reforçou certa idéia da experiência histórica da diplomacia iraniana. Mediu palavras, sem deixar de dizer que o Irã tem seu próprio destino. País no qual as flores são oferecidas aos homens, o temido homem de Teerã, tratado por setores da academia e do mundo político nacional como um perigoso visitante, desfilou a calma e a frieza da experiência multimilenar da cultura persa.
O Brasil ganhou com a visita do chefe de Estado iraniano. Combinou a recepção do líder da potência regional no Oriente Médio com o movimento que vem fazendo junto aos países emergentes na ordem internacional multipolar. Os Estados Unidos se beneficiaram do esforço brasileiro de agregar um canal colateral de diálogo pela paz no Oriente Médio. O desembarque do iraniano foi tão correto quanto a presença de Shimon Peres, presidente israelense, ou do palestino Mahmud Abbas, há poucos dias. As visitas conversaram entre si e mostraram inteligência política da diplomacia brasileira.
O alerta do presidente do Brasil, olhando para Ahmadinejad, a lembrar que não gostamos de desenvolvimentos de tecnologia nuclear para a guerra, foi bem entendido pelo visitante. A lembrança de que o Brasil, como membro do Conselho de Segurança a partir de primeiro de janeiro de 2010 até fins de 2011, deverá envidar esforços aos temas da superação de conflitos, cooperação para a construção da paz no Oriente Médio, por meio da metodologia do diálogo direto das partes, foi lição bem captada pelo líder persa.
É ululante que não podemos importar contenciosos internacionais que não nos pertencem, ou com os quais não temos meios para agir de forma soberana. Podemos, no entanto, promover espaço de diálogo. O Brasil agrega, ao debate em torno da paz naquela região convulsionada do planeta, o exemplo da convivência pacífica dos migrantes daquela região para o Brasil, ao viverem aqui em paz. É uma bela pedagogia brasileira, que certamente foi bem entendida pelo presidente iraniano.
O que ganha Brasília ante o deslocamento geográfico dos holofotes dos diálogos promovidos tradicionalmente pelos europeus nos temas do Oriente Médio para um país emergente como o Brasil? Avança nosso país sua projeção internacional de forma altruísta, em reação à crítica de outros ao caráter egoísta da política externa brasileira que não assume risco, à espera o vencedor da guerra para recolher as batatas. A exposição externa, com responsabilidade e cálculo, é um valor positivo na inserção internacional dos Estados cautos, como é o Brasil.
Diante da diplomacia persa, demonstrou o Brasil, no campo dos valores, que os conceitos brasileiros de relações internacionais, como a convivência tolerante de contrários ainda é possível no mundo que vivemos. É pedagógico para os visitantes notar que um país continental pode abrigar contrários sem se levar pela luta fratricida, como aquelas ainda mantidas no Oriente Médio.
José Flávio Sombra Saraiva, PhD pela Universidade Birmigham, Inglaterra, é professor titular da UnB
