Jornal do Brasil

Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

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A intolerância é que deve ser expulsa

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Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Chega a ser assustador que, em pleno século 21, o país que apregoa aos quatro ventos a sua inserção no chamado primeiro mundo ainda tenha de perder tempo discutindo a intolerância de uma comunidade acadêmica com relação aos trajes de uma aluna. E, mais grave, que a vítima seja transformada em ré ao ser expulsa do curso de turismo da Universidade Bandeirante (Uniban), de São Bernardo do Campo (SP). Felizmente não foi preciso perder tanto tempo para que o prejuízo de Geisy Villa Nova Arruda cujo crime fora usar um vestido um pouco mais curto tenha diminuído ao ser reintegrada ontem mesmo à comunidade. A medida é importante, principalmente, para impedir que bandos de alunos intolerantes decidam os destinos de nossas instituições de ensino superior.

O caso de Geisy nos remete a um tema que já foi até objeto de discussão neste espaço não faz muito tempo. O bullying é uma prática que leva alunos mais radicais e violentos a achincalharem em público e até agredirem fisicamente colegas mais fracos, que tenham alguma deficiência física, que usem óculos, que sejam negros, ou qualquer um que seja simplesmente diferente deles. O mais grave é que, em muitos casos, por medo que seja, ou apenas pela postura covarde de lavar as mãos, o bullying tem a anuência de professores e até de diretores.

Os xingamentos dos alunos são um caso típico e não assumido dessa prática. Antes de Geisy ser readmitida na Uniban, várias perguntas estavam sem resposta: ainda que ela tenha feito algum ato hostil contra os agressores, em que espécie de inquisição estamos para que essa resposta seja punida com a expulsão? E quem a xingou também seria expulso? A prova que ela fez, e lhe deu acesso à universidade, não valeria mais, seria anulada? O tempo e o dinheiro que ela gastou preparando-se para esse concurso, quem devolveria? A imagem da moça cuja moral foi denegrida pelos colegas, a ação transmitida ao país inteiro e estampada na internet, quem vai apagar isso? Quem vai pagar por isso? Não haveria um meio termo entre ignorar solenemente o incidente (algo tampouco recomendável) e expulsar a aluna? Uma advertência a todos os envolvidos talvez não fosse suficiente para encerrar o problema e evitar a injustiça que está sendo cometida?

Se ficasse tudo por isso mesmo , quem garante que a ditadura dos estudantes não passaria a expulsar quem se vestisse de preto, quem tivesse o cabelo comprido, quem não fosse paulista ou quem não torcesse para o Corinthians?

Neste mesmo 2009, no trote da Universidade Federal Fluminense (UFF), alunos veteranos foram acusados de obrigarem algumas calouras a praticar sexo oral com eles. A UFF pode não ter apresentado ainda ao público os resultados de suas investigações internas. Mas pelo menos não deu apoio público aos agressores expulsando as calouras que denunciaram a odiosa prática. E se o incidente tivesse acontecido na Uniban, com Geisy, o que a direção teria feito?

Como a Uniban não tinha como responder a todas essas perguntas, reviu a punição e reintegrou a aluna. Melhor assim. Ainda que não se tenha reparado de todo o erro, pelo menos ele foi minimizado.