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Vale-cultura é essencial para os brasileiros

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Gustavo Barreto *, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - O que é essencial para todos? O homem é essencialmente um ser de cultura , argumenta o professor Denys Cuche, da Universidade Paris. A cultura é um campo do conhecimento humano que nos permite pensar a diferença, o outro e dar um fim às explicações naturalizantes dos comportamentos humanos. As questões étnicas, nacionais e de gênero, por exemplo, não podem em hipótese alguma serem observadas em seu estado bruto . É o caso da relação homem-mulher, cujas implicações culturais são mais importantes do que as explicações biológicas.

E por que se faz importante fazer esta breve introdução, na questão do vale-cultura, lançada pelo governo federal e atualmente em discussão com os atores sociais da área? Porque urge que nossa legislação passe por uma transformação, dado que a principal lei do setor está defasada (é de 1991) e é insuficiente para os desafios atualmente expostos.

O conceito de cultura é tão reivindicado quanto controverso. Ouvimos esta palavra diariamente, para os mais diversos usos: cultura política, cultura religiosa, cultura empresarial. Também serve para complexificar e ampliar um debate sobre um tema difícil ( isso é cultural ), para finalizá-lo ( não tem jeito, isso é cultural ) ou gerar preconceito contra um grupo social ( o povo não tem cultura ). São múltiplos os usos.

Está claro que incentivar as manifestações culturais de um povo é condição indispensável de seu desenvolvimento. É certo que este instrumento deve atingir um de seus principais objetivos: a desconcentração regional e a democratização do acesso a produtos culturais. A injeção de R$ 600 milhões por mês no mercado cultural, podendo atingir até 12 milhões de brasileiros, é um grande benefício.

O curioso na iniciativa do governo, que já tramitava no Congresso desde 2006, é a questão tardiamente (e fatalmente) gerada para reflexão: o que é essencial para todos? Se o trabalhador possui o vale-transporte e o vale-alimentação, por que não o vale-cultura? Este debate e o debate é justamente este gera reações ainda mais curiosas.

A mais risível é a que ataca a proposta como dirigista , afirmando que o tempo do dirigismo cultural já acabou em todo o mundo. Uma simplificação melancólica e uma inverdade: governos de países que alcançaram bons índices de desenvolvimento humano investem muito mais na cultura do que o Brasil. Os ataques têm nome: são os mesmos que falam em alta cultura e compõe as velhas oligarquias deste setor, pois concentraram por muito tempo a exclusividade dos negócios da área. Alguns chegam a duvidar da qualidade estética dos produtos culturais a serem consumidos.

São evidentes os inimigos deste discurso conservador: o trabalhador, que passa a ser progressivamente um crítico de cultura, e as manifestações da cultura popular ora atacada, por exemplo, por meio da restrição ao funk carioca.

A aprovação do projeto será um passo importante, dentro de uma longa caminhada, para a inserção de milhões de brasileiros no universo privilegiado da cultura local, regional e nacional.

*Produtor cultural