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Para enfrentar o alto desemprego mundial

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José Carlos de Assis *, Jornal do Brasil

RIO - A Organização Internacional do Trabalho calcula que, como consequência da crise global, haverá uma perda de cerca de 50 milhões de empregos no mundo até o fim do ano. Mais sombrio é o fato de que, como costuma haver um longo intervalo de tempo entre a recuperação econômica e a recuperação do emprego, no melhor dos futuros cenários considerados, que é a de retomada da economia mundial no fim deste ano, a retomada do emprego levará no mínimo três anos.

Entretanto, qual é a real perspectiva de recuperação econômica até o fim do ano? Não consigo visualizar os brotos verdes apontados por alguns analistas da imprensa mundial. É claro que oscilações semanais e diárias nos preços de ações e títulos públicos, e mesmo pesquisas de expectativas do consumidor e de empresários, não contam muito para uma análise a médio prazo. Neste caso, o que importa são fatos e medidas concretas que afetam o setor real das economias.

As agências multilaterais estimam para este ano uma contração da economia da Europa em 4%, do Japão em 9%, da Alemanha em 6% e dos Estados Unidos em 2,8%. Em média, o mundo se retrairá em 3%. No primeiro trimestre houve queda de 2% nos países mais ricos do mundo (OCDE), de 2,5% na União Européia e na Europa do Euro, de 1,5% nos Estados Unidos. Na Alemanha e no Japão, a contração no trimestre chegou a 3,7% e 4%, respectivamente. Diante desse quadro, os dois únicos países que continuam crescendo fortemente são China (8%) e Índia (6%). Não por acaso, são economias planejadas com controle quase absoluto do sistema bancário.

O eixo da crise financeira e de demanda é o sistema bancário americano: ele contaminou a si mesmo e ao sistema europeu. Nesse aspecto, a crise atual é mais profunda que a Grande Depressão. Na Depressão, quebraram milhares de bancos, mas todos pequenos e médios. Não quebrou nenhum grande, nem nenhuma grande corporação. Agora, quebraram todos os maiores em seus ramos: Lehman Brothers, Citigroup, Bank of America, AIG, Freddie e Fanny. E a vanguarda da indústria manufatureira americana, a GM e a Chrysler.

Na verdade, não fosse o plano de salvação do governo, todos os 19 maiores bancos americanos iriam à bancarrota, pelo que acabaram reconhecidos como grandes demais para quebrar . E é este um dos problemas para a recuperação. Se não podem quebrar, podem correr qualquer risco, mudando a própria natureza do sistema capitalista, pois liquidariam, com suporte governamental, todos os concorrentes menores. E sem qualquer contrapartida quanto a políticas e estratégias de aplicação, e quanto a futuros riscos.

Para restaurar o sistema de financiamento da economia, imprescindível para a recuperação, o governo Obama criou condições para a recapitalização dos grandes bancos e para que eles sejam limpados dos ativos podres. São programas ambiciosos e, a meu ver, bastante engenhosos. Mas ninguém sabe, na prática, como funcionarão. Mesmo porque os grandes bancos com ativos tóxicos podem mantê-los indefinidamente em carteira para embonecar os balanços, pois sabem que não vão quebrar. Em qualquer hipótese, o tempo da recuperação, numa visão realista, é indefinido.

É aí que se situa o cenário pessimista da OIT: a recuperação do emprego não virá antes de seis anos, na mesma medida em que a retomada econômica se retarde. A tragédia social que isso sinaliza é sem precedentes. E por trás do risco social vêm os riscos políticos. Nesse sentido, é melhor se preparar que remediar: a taxa de desemprego no Brasil está estabilizada no alto nível em torno de 9%, e, ao se considerar o entorno econômico geral, é quase certo que pode disparar. Os programas de estímulo aqui adotados são ainda modestos. É preciso mais.

Venho de um seminário, em Nova York (Levy Institute/Bard College), sobre políticas de emprego garantido para enfrentar a crise global. Participaram mais de 40 especialistas de cinco continentes. O consenso geral, que estamos chamando de Consenso de Nova York, é que o problema do desemprego deve ser enfrentado diretamente, mediante a criação de emprego remunerado pelo setor público e sua utilização em obras e serviços públicos e de interesse comunitário, de preferência a grandes obras públicas que, com as tecnologias atuais, geram poucos empregos proporcionalmente aos custos.

No caso brasileiro, a ideia é garantir emprego por um salário mínimo, durante sete meses do ano, a todo desempregado disposto a trabalhar em obras e serviços comunitários nas periferias metropolitanas. Isso custaria menos de 1,5% do PIB por ano, ao longo de cinco anos, ao fim dos quais teríamos resolvido, simultaneamente, o problema do alto desemprego, o problema da urbanização das favelas e o problema da segurança, ligado aos outros dois.

O mais importante, porém, é que esse programa representaria um forte estímulo para a retomada da economia, nos moldes recomendados pelo FMI e outras agências multilaterais (2% do PIB), sem o qual dificilmente se evitará uma retração forte do PIB neste ano e talvez no próximo. Do ponto de vista social, seria o complemento necessário do Bolsa Família, unanimemente elogiado no encontro de Nova York, assim como das políticas do governo Lula para a área rural, em especial no âmbito do estímulo à economia solidária e agricultura familiar.

* José Carlos de Assis é presidente

do Instituto Desemprego Zero