Jornal do Brasil

Sábado, 25 de Outubro de 2014

Bruno De Conti

Os Brics e o esforço para contornar o dólar

Bruno de Conti

Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – os chamados Brics – tiveram, em conjunto, um Produto Interno Bruto (PIB) de aproximadamente US$ 16 trilhões no ano passado.Valor comparável, portanto, ao PIB dos Estados Unidos da América (EUA), que foi da ordem de US$ 16,8 trilhões no mesmo ano. No entanto, nos mercados cambiais globais, o uso das moedas dos países que compõem os Brics atinge meros 7% (2,2% do yuan chinês; 1,6% do rublo russo; 1,1% do real brasileiro; 1,1% do rand sul africano e 1% da rúpia indiana). O dólar estadunidense, por sua vez, participa de 87% das transações cambiais internacionais!

Por que isso acontece? De acordo com uma velha analogia, a moeda é como um idioma, só sendo útil quando também é utilizada pelos outros. Nas transações internacionais, portanto, recorre-se a uma moeda que seja aceita por ambas as partes. Assim, um exportador russo, sabendo que cobrar por suas mercadorias em rublos dificultará (ou inviabilizará) o negócio, cobra em dólares. Da mesma forma, o importador brasileiro, sabendo que não conseguirá comprar produtos russos em reais, buscará dólares no mercado cambial, para poder efetuar a sua compra. Uma operação, portanto, que não tem qualquer relação com os EUA, envolve a troca de real por dólar em uma ponta e, na outra, a troca desse mesmo dólar por rublos. O dólar é a “moeda veicular” dessa transação.

Se é inquestionável que esse recurso à intermediação do dólar estadunidense facilita as trocas internacionais, é também inegável que ele amplia enormemente o poder dos EUA. Sendo usado não apenas como meio de troca, mas também – e sobretudo – como reserva de valor, o dólar e sua centralidade no Sistema Monetário Internacional conferem aos EUA, nas palavras de Barry Eichengreen, um “privilégio exorbitante”. Emitindo a moeda-chave da economia internacional, trata-se do único país do mundo que não tem limites para os déficits em transações correntes e que possui uma política monetária verdadeiramente autônoma. A maioria dos países periféricos, por sua vez, tenta, de alguma forma, referenciar sua moeda no dólar e tem sua taxa de juros subordinada aos juros estadunidenses, o que limita absurdamente a política econômica nacional.Fica claro, portanto, que a relação centro-periferia se manifesta (e se reforça) também pela esfera monetária.

E como mudar isso? Não basta querer. Por um lado, é importante entender que individualmente (ou nacionalmente) fica mais difícil promover qualquer tipo de mudança – e aqui a analogia com o idioma volta a ser esclarecedora. Por outro lado, essa possibilidade de mudanças deve passar sim por decisões de cunho político. Em minha tese de doutoramento, aponto três principais determinantes para o uso internacional de uma moeda: o primeiro e mais óbvio é o tamanho da economia emissora e sua integração internacional; o segundo diz respeito à importância geopolítica do país em questão; e o terceiro refere-se justamente ao uso político que um governo pode fazer para incentivar (ou desincentivar) o uso internacional de sua moeda.

No que concerne ao tamanho da economia, os dados acima indicam que o PIB estadunidense ainda é, de longe, o maior do mundo, mas que, em conjunto, os países dos BRICS já o alcançam. Quanto à importância geopolítica, da mesma forma, os EUA mantêm certamente seu statusde país mais influente junto às instituições multilaterais e mais poderoso militarmente, mas é inegável a ascensão do poder chinês e, mais ainda, do poder coletivo dos BRICS.

Chegando, finalmente, ao uso político para incentivar o uso das moedas, uma novidade pode surgir da reunião dos BRICS, que ocorrerá em Fortaleza, na semana que vem. De acordo com a mídia nacional e internacional, esforços serão envidados para o avanço de acordos facilitando que as transações entre os países dos BRICS sejam realizados nas moedas do próprio bloco. Linhas de crédito nas moedas locais e acordos para o pagamento do comércio intrabloco também nas moedas nacionais permitiriam o início de um processo de redução da dependência em relação ao dólar.Essas transações teriam inicialmente um peso absolutamente marginal em relação ao total das transações internacionais, mas, além do caráter simbólico, podem ir criando uma institucionalidade que favoreça um processo gradual de reconfiguração do Sistema Monetário Internacional. Se sustentado e aprofundado ao longo do tempo – além de acompanhado pela continuidade do aumento da importância política e econômica dos BRICS –, significa um passo na direção de uma menor dependência desses países em relação às instituições multilaterais tradicionais – que têm se mostrado avessas a qualquer mudança – e, em última instância, de relativização do supracitado “privilégio exorbitante” dos EUA.

Drásticas alterações na hierarquia do SMI não estão no horizonte próximo. Dependendo de aspectos estruturais – geopolíticos e geoeconômicos –, essa hierarquia é extremamente resistente a mudanças. Ademais, ela guarda um forte componente inercial, já que a aceitação de uma moeda não é criada e nem destruída da noite para o dia. Ainda assim, vejo como importantes os esforços políticos para contornar o dólar e, nesse aspecto, a iniciativa prevista para a cúpula dos BRICS, caso se consolide, me parece bem-vinda.

* Bruno De Conti é professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica.

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