Jornal do Brasil

Quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

Bruno De Conti

O investimento no Brasil: aceleração e vazamentos

Bruno de Conti

Nos contextos de baixo dinamismo econômico, como o atual, ficamos todos de olho nos indicadores que permitem antever uma recuperação. Com esse intuito, a modalidade de gasto que costumamos olhar com mais cautela é o investimento, por seu caráter volátil e por seu efeito multiplicador, que promove a elevação conjunta de outros tipos de gasto, ampliando o efeito sobre a demanda agregada. 

O investimento no Brasil no ano passado não foi particularmente ruim; pelo contrário, foi o componente mais dinâmico da demanda, com crescimento de 6,3%. A grande incógnita para a economia brasileira no ano de 2014 – e também nos próximos –, portanto, diz respeito à sustentação desse investimento. 

Sabendo disso, o governo anunciou, nesta semana, a desoneração permanente da folha de pagamento em alguns setores. Como contrapartida, exigiu, dentre outras coisas, o aumento dos investimentos. Os empresários se comprometeram a fazê-lo e pediram, adicionalmente, a manutenção do Programa de Sustentação de Investimentos (PSI), do BNDES.

Diante disso, será que efetivamente se elevarão os investimentos?  Quando – e por que – as empresasinvestirão? Trata-sedo componente do gasto de mais difícil previsão. O investimento privado ocorre em função da demanda esperada para o futuro, guardando, portanto, um forte componente expectacional. E essa demanda esperada será contraposta à capacidade que a empresa tem de atendê-la. Exatamente por isso, um dos índices mais utilizados pelos analistas para vislumbrar a possibilidade de crescimento dos investimentos é o grau de utilização da capacidade instalada – ou seja, a proporção do potencial produtivo total dessa empresa ou setor que está efetivamente sendo usada para produção.

À exceção dos investimentos para modernização do parque produtivo, portanto, o empresário investe quando percebe que, se a demanda por seus produtos se elevar no futuro próximo, ele não terá condições de aumentar a produção e atender a essa nova demanda. 

Afinal, tudo o que um empresário quer é que a demanda por seus produtos aumente. Como decorrência, nada mais frustrante a um empresário do que perceber que em um contexto de demanda aquecida em seu setor de atuação, ele não tem condições de aumentar sua produção, certo? 

Mais ou menos. No contexto atual, a resposta não deve ser tão taxativa. E por que não? Por um único motivo, que se desdobra em dois cenários possíveis para as empresas brasileiras. O motivo único é a concorrência dos produtos estrangeiros. O primeiro cenário possível ocorre quando, em uma empresa, percebe-se que a demanda em seu setor de atuação crescerá, mas será suprida, em grande medida, pelos produtos importados. O segundo cenário possível ocorre quando a empresa se adapta a esse novo contexto de imensa concorrência internacional e, ao invés de produzir, ela própria importa esse produto e o revende aqui no Brasil.

Em ambos cenários, a consequência sobre aquilo que nos importa neste artigo – o investimento – é a mesma: não há estímulo à ampliação da capacidade instalada, não havendo, então, uma tendência inequívoca à elevação do investimento.

O que isso significa, ao fim, é que o indicador clássico das possibilidades deaumento do investimento em uma economia, representado pelo grau deutilização da capacidade instalada, deve ser agora analisado com mais cautela. Em um contexto de invasão de produtos estrangeiros e da decorrente reconfiguração da indústria brasileira, que ampliou seu perfil importador, é preciso olhar não apenas para a capacidade utilizada no Brasil, mas também para a capacidade utilizada no mundo – e aí o quadro atual é de pessimismo, pois a crise mundial geraelevada capacidade ociosa em diversos setores e países.

De toda forma, essa dificuldade adicional na já frágilcapacidade preditiva que nós, economistas, temos com relação ao investimento é o que menos importa. O que realmente importa é que a relação entre a demanda esperada, a capacidade utilizada e os investimentos ganha novas mediações nesse contexto de economias integradas – sobretudo quando um dos concorrentes internacionais é um país absolutamente fora dos parâmetros, como é a China.

Modelos macrodinâmicos, análises conjunturais e política econômica devem levar em consideração, portanto, que o “efeito acelerador” que o crescimento da demanda gera sobre o investimento está mais fraco no Brasil. Isso é particularmente ruim, pois reduz as possibilidades de estabelecimento de um círculo virtuoso de retroalimentação entre demanda aquecida e investimento crescente, como o que se verificou em outros momentos. Não quero dizer com isso que essa dinâmica não seja possível – até mesmo porque no setor de serviços a questão não se coloca –, mas apenas chamar atenção para o seu enfraquecimento, determinado pelo vazamento de parte desse dinamismo para o exterior, via importações. E esse problema se cristaliza quando a indústria nacional se reconfigura para, pragmaticamente, tirar proveito dessa possibilidade de importar e revender, com pouca agregação interna de valor e pouco encadeamento com os demais setores nacionais.

Ao fim, quais as conclusões práticas que podemos tirar desse raciocínio todo? 

Como aspecto estrutural, que a indústria nacional deve ser defendida, mas não apenas para continuar existindo ou para manter sua rentabilidade; deve continuar existindo para gerar empregos, agregar valor e alavancar outros setores. 

Como aspecto conjuntural, que a esperança de dinamismo do investimento brasileiro no contexto atual não deve se assentar apenas nos estímulos ao investimento privado aqui discutido, muito mais difícil de ser induzido do que se supunha. Esse dinamismo deve se basear no investimento que é realmente autônomo e que preenche uma lacuna importante da economia nacional, qual seja, o investimento em infraestrutura. Esse investimento, além de contribuir como demanda nesse momento de baixa atividade econômica, contribuirá também pelo lado da oferta, com a já aludida – e necessária – defesa da estrutura industrial.

* Bruno De Conti, professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (Cecon/Unicamp)

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