Jornal do Brasil

Domingo, 23 de Novembro de 2014

Bruno De Conti

2013 e 2014: nem pibinho, nem pibão

Bruno De Conti*

Os resultados recém-divulgados revelam que o PIB brasileiro em 2013 não foi nem um pibão, como gostaria o governo, nem um pibinho, como desejava veladamente a oposição. Diante do cenário exageradamente pessimista que se configurou, os resultados até que foram razoáveis.No entanto, o crescimento de 2,3% não é digno de comemoração, sobretudo se pensarmos nas possibilidades e, mais ainda, nas necessidades da economia brasileira.

Para além da análise da taxa de crescimento, é preciso enxergar também os determinantes desse resultado, olhando para os componentes da demanda (ou os “tipos de gasto”) que mais cresceram no ano. Se o tipo de gasto com maior crescimento no ano fosse o consumo das famílias, as manchetes estampariam: “Brasil segue com modelo de crescimento insustentável, baseado no consumismo e no endividamento das famílias”. Alternativamente, se o crescimento do PIBtivesse sido induzido pelo consumo público,a acusação seria: “populismo em ano pré-eleitoral ameaça a nota brasileira junto às agências de rating”.

Mas não foram esses os componentes da demanda que chamaram a atenção. O crescimento do PIB em 2013 foi puxado fundamentalmente pelos investimentos, o que é uma boa notícia.Os investimentos aumentaram 6,3% em relação a 2012, contribuindo com 1,3% do crescimento do PIB no ano. Resultado que deve ser visto com cautela, em função da elevada participação das vendas de caminhões. Mas que deve ser celebrado, já que significa um retorno do investimento depois de um 2012 muito ruim.

A má notícia é que as importações também cresceram acentuadamente no ano passado(8,4%), revelando que parte importante da demanda brasileira continua “vazando” para o exterior. Esse aumento das importações esteve concentrado primordialmente em petróleo e combustíveis, gastos de brasileiros viajando no exterior e máquinas e equipamentos. Dado que as exportações cresceram muito menos do que as importações (2,5%), a contribuição do setor externo ao PIB brasileiro em 2013 foi de -0,9%.

E 2014, como será?

Consumo das famílias e consumo público devem ter papéis semelhantes aos do ano passado, em função do arrefecimento do mercado de trabalho, da desaceleração do crédito ao consumidor, do tímido reajuste do salário mínimo em termos reais – já que ele é baseado no crescimento de 2012 – e das metas fiscais anunciadas.

Do ponto de vista externo, as importações devem crescer menos, sobretudo – e voltando aos “vilões” de 2013 –, porque se espera a normalização da produção interna de petróleo e combustíveis; também,porque a Copa do Mundo ampliará os gastos de turistas em viagens dentro do país. Além disso, espera-se que a elevação da taxa de câmbio verificada no ano passado– ainda que não possa ser vista como a salvadora da pátria – tenha algum efeito positivo sobre o saldo externo. Mesmo assim, não é de se esperar que a produção interna possa rapidamente substituir a externa, em função das deficiências do parque produtivo nacional; nem sequer que as exportações nos salvem, já que o mundo continua em crise – agora também com os solavancos das economias argentina e venezuelana – e os termos de troca não nos favorecem como outrora.Portanto, a situação deve melhorar um pouco no cenário externo, mas não se pode esperar nenhum tipo de dinamismo provocado pelo drive exportador.

Chegamos novamente ao investimento.A grande pergunta do ano é: os investimentos continuarão a crescer? E a resposta não é trivial. Como se sabe, o investimento é uma variável extremamente volátil e, para esse ano, as perspectivas são ambíguas. Elevação dos juros, redução do volume de empréstimos do BNDES, câmbio e concessões devem ser levados em conta. No entanto, há um fator-chave para se entender porque o investimento não avança com um ritmo maior e mais persistente. Esse fator-chave é o pessimismo dos empresários. Não se pretende com isso culpá-los, já que eles têm os seus motivos. De toda forma, esse ponto é importante pois conduz a outras perguntas essenciais: o que poderia tornar os empresários mais otimistas? E a resposta é: o crescimento. De onde virá esse crescimento? Dos investimentos. De quem? Dos empresários. Chega-se a um círculo vicioso que não é inédito e nem mesmo raro no capitalismo. Trata-se de apenas mais um dos diversos momentos em que a atitude individual – e legítima – de precaução dos agentes diante de um possível cenário negativo colabora para a efetivação ou aprofundamento desse cenário.

Como sair disso?A aposta do governo ao longo de 2013 foi preparar o terreno – por meio de desonerações, subsídios e concessões – para o investimento privado. E ele veio, como mostram os dados, mas muito mais lento e tímido do que se esperava. Ele vinha com mais intensidade no primeiro semestre do ano passado, mas sofreu com o choque de expectativas que se abateu sobre o país a partir da metade do ano,gerando inclusive as dúvidas sobre sua continuidade no ano corrente.Terminado o ano, percebe-se que o custo fiscal das desonerações teria provocado um efeito maior sobre o PIB se usado diretamente para o investimento público. Queiram os liberais ou não, o investimento público continua sendo um fortíssimo indutor do investimento privado, já que tem a capacidade de tirar a economia do círculo vicioso acima exposto.

Amanutenção do consumo em um nível relativamente aquecido e, sobretudo, as lacunas de infraestrutura apontam espaço de sobra para o crescimento do investimento no Brasil – até mesmo porque a taxa de investimento no país é ainda de apenas 18,4% do PIB. Esperemos que as ações do governo sejam capazes de dissipar as nuvens, romper com o círculo vicioso do pessimismo e induzir a continuidade e o aprofundamento dos investimentos.

Tudo indica que o PIB de 2014 não será novamente nem um pibinho, nem um pibão. Mas as variações dentro desse espectro dependerão essencialmente dos investimentos.

*Bruno De Conti é professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (Cecon/Unicamp). 

Tags: aquecido, crescimento, investimento, pibinho, taxa

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