Jornal do Brasil

Domingo, 26 de Outubro de 2014

Bruno De Conti

A “crise dos emergentes” e os dois lados da moeda

Bruno De Conti*

Que a moeda tenha dois lados não é novidade alguma. Crianças e árbitros de futebol praticam há tempos o disseminado jogo de “cara ou coroa”. No entanto, deixando essa perspectiva concreta e atingindo um grau maior de abstração, chegamos a outra dicotomia bem menos inocente: i) a moeda como moeda nacional; e ii) a moeda como um ativo financeiro internacional. Senão, vejamos.

Por um lado, a moeda é usada, dentro de seu país de emissão, como moeda nacional(tout court), ou seja, como meio de pagamento, unidade de conta e reserva de valor – as funções clássicas da moeda. Algumas poucas transpõem as fronteiras nacionais de seu país de emissão e passam a ser usadas como moedas também em âmbito global. Tratam-se das moedas centrais, como o dólar, o euro e o iene, que desempenham as funções monetárias também na esfera internacional.

Por outro lado, a moeda é usada, pelos não-residentes do país em questão, como um ativo financeiro internacional.O que isso significa? Que ela não é demandada para desempenhar as funções clássicas da moeda, mas simplesmente pela expectativa de retorno que oferece ao seu detentor. Assim como qualquer ativo financeiro, as vantagens de sua posse – e dos ativos nela denominados – são calculadas a partir do tradicional trade-off entre risco e rentabilidade.

As moedas periféricas – como o real brasileiro, a lira turca e a rúpia indiana – não desempenham as funções clássicas da moeda no cenário internacional. Nesse âmbito, portanto, não são demandadas enquanto moedas, mas simplesmente enquanto ativos financeiros. Assim como qualquer ativo financeiro, são prontamente abandonadas diante do menor sinal de que sua rentabilidade relativa se reduzirá.

Qual o problema? O problema é que essa moeda, que na mão dos investidores internacionais não passa de um ativo financeiro, continua tendo a sua contra face – a mais importante, diga-se de passagem –, a de uma moeda nacional. E esses movimentos de realocação de portfólio por parte dos agentes internacionais – associados às mudanças em seu posicionamento nos mercados futuros – alteram o preço desse ativo financeiro, que nada mais é do que a taxa de câmbio dessas moedas.

 Em um contexto de abundância de liquidez, o investidor internacional aumenta a parcela de seus recursos alocada nessas moedas periféricas. A despeito de serem “ativos exóticos”, as taxas de juros que os remuneram são bastante elevadas; e o próprio movimento de aquisição massiva desses ativos – e apostas no mercado futuro – colaboram com a apreciação das moedas periféricas, promovendo aos seus detentores um duplo ganho. Foi isso que aconteceu com o real brasileiro durante longos períodos da história recente.  Em sua face enquanto ativo financeiro internacional, essa moeda permitiu incríveis ganhos para os investidores. Em sua face enquanto moeda nacional, porém, a apreciação reduziu a competitividade do setor produtivo nacional, a despeito de ter facilitado o controle da inflação – e os ganhos salariais reais.

Quando o fim da festa se anuncia – dessa vez pelo tapering, mas os motivos podem ser variados –, os investidores internacionais passam a temer a desvalorização desses ativos financeiros periféricos, recompõem suas carteiras e invertem suas posições. Fundamentos macroeconômicos e até “carisma político” são evocados, mas o investidor está de olho mesmo é nos seus pares, para não estar na parte de trás da manada quando a fuga ocorrer, já que lá as perdas são maiores.Esse movimento de fuga não é gradual, mas súbito; não é individual, mas coletivo. Ao fim, esse movimento massivo impacta nos preços desses ativos financeiros, que se depreciam. Mais uma vez, o preço em questão é a taxa de câmbio das moedas periféricas, que se eleva, gerando impacto inflacionário e uma volatilidade cambial que é extremamente deletéria ao cálculo econômico.

O posicionamento da taxa de câmbio sempre favorece alguns, em detrimento de outros, e os debates a respeito de seu pretenso “ponto ótimo” fogem do escopo desse artigo. O ponto a se destacar é que se trata de um preço sério demais para ser determinado aos moldes daquilo que ocorre com um ativo financeiro qualquer, já que o ativo em questão é nada mais nada menos do que a moeda nacional.

Felizmente, o Brasil conta hoje com reservas internacionais que lhe permitem contra balançar de alguma forma os movimentos especulativos. Instrumentos de intervenção pelo mercado futuro também devem ser usados, para exercer algum tipo de controle sobre as oscilações da taxa de câmbio.Seria conveniente, inclusive, uma maior regulação do mercado futuro, para desincentivar posturas especulativas. Turquia, Índia, Indonésia e África do Sul também têm as suas armas, em menor ou maior grau. No entanto, a própria necessidade de readequação das políticas econômicas desses países – com prováveis efeitos colaterais negativos sobre a atividade econômica doméstica – são reveladoras das assimetrias da economia internacional.

Em especial, o que essa propalada “crise dos emergentes” faz é trazer novamente à tona as contradições, no contexto de mundialização financeira, entre os dois lados da moeda, a saber, da moeda como moeda nacional e da moeda como ativo financeiro internacional. Fica escancarado, mais uma vez, o caráter hierárquico do Sistema Monetário Internacional, que confere “privilégios exorbitantes” ao emissor da moeda-chave e falta de autonomia aos emissores de moedas periféricas – e o discurso de Janet Yellen nesta semana deixou isso bem claro. Na ausência de mudanças estruturais, o jogo com os dois lados da moeda periférica permanecerá. E o grande problema é que, ao contrário do “cara ou coroa”, esse jogo com a moeda periférica não tem nada de aleatório, já que um lado da moeda pesa mais do que o outro.

*Bruno De Conti é professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (Cecon/Unicamp).

Tags: ativo, econômicas, emissão, MOEDA, políticas

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