Jornal do Brasil

Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018 Fundado em 1891
Hildegard Angel

Colunistas - Hildegard Angel

Marinete, mãe sem medo: 'Que Estado é esse, que democracia é essa?'

Mãe de Marielle Franco questiona ausência de respostas desde a morte da parlamentar

Jornal do Brasil

Às vésperas deste Dia das Mães, a descoberta de um documento da CIA por um pesquisador da Fundação Getulio Vargas me faz reviver os anos da ditadura como se tivessem ocorrido ontem. A cada fato novo esse “reviver” acontece. A História é dinâmica, nossos dramas se sobrepõem. 

O Caso Amarildo, na Rocinha, do desaparecido torturado e morto pelos policiais, teve paralelos com o Caso Stuart, meu irmão, e de outros desaparecidos da ditadura, em contexto diferente e com motivação diversa. 

O Caso Marielle lembrou-me a emboscada contra minha mãe, Zuzu Angel, devido à sua coragem desafiadora, e tudo que ela era capaz de incomodar e importunar forças estabelecidas de um poder tirânico. 

Neste dia, e neste momento brasileiro, a mãe mais representativa do país é Marinete Silva

Neste dia, e neste exato momento brasileiro, a mãe mais representativa do país é Marinete Silva. Ela tem muito a nos falar sobre sua filha, Marielle Franco, heroína desta tragédia atual, e a respeito de seus sentimentos em seu primeiro Dia das Mães sem tê-la em casa com a família. 

Difícil esta Semana das Mães, aos ecos da bombástica revelação de que o principal suspeito é um companheiro parlamentar da vítima. Tudo isso Marinete Silva não se furtou a comentar com o repórter da coluna, João Francisco Werneck. A advogada Marinete respondeu com bravura. Aí entendemos com quem Marielle aprendeu sua coragem. 

A Coluna Hildegard Angel foi a Bonsucesso, à casa de Marinete Silva, mãe de Marielle Franco, entrevistá-la. Diz um provérbio judaico: “Deus não pode estar em todos os lugares, e por este motivo fez as mães”.  Tratando-se de uma família ameaçada constantemente por inimigos covardes, todo cuidado ainda seria pouco. Porém, Marinete não se furtou a falar. Ela queria falar, tinha muito para desabafar, sobretudo pelo momento. Seja político, em face às denúncias recentes que apontam Marcelo Siciliano como mandante do crime que vitimou sua filha, seja em nome de todas as outras mães, pois sua dor é a delas, e o seu luto é, de alguma forma, para sempre o nosso também.

Você pode falar um pouco sobre como era a Marielle quando criança? 

Marinete Silva: Era uma criança que se destacava. Muito sabida, inteligente. A minha mãe veio lá da Paraíba para ficar com ela, quando ela nasceu. Então ela era mimada também, paparicada pela família, foi filha única por cinco anos. Era tudo para ela, a neta aqui do Rio de Janeiro. Mas ela começou a estudar muito cedo, com dois anos, porque eu tinha que trabalhar bastante, sustentar a casa...

Quando a Sra. identificou esse interesse dela pela pauta dos direitos humanos. Quer dizer, quando começa a “Luta da Marielle”? 

Isso começa bem antes da adolescência. Na igreja que frequentávamos, ela já trazia essa luta pelos mais pobres, pelo outro, de igualdade, justiça. Mas a luta mesmo começa com a morte de uma amiga dela, a Jaqueline, que fez catequese com ela, e que foi assassinada aqui na favela da Baixa do Sapateiro. Isso mudou a vida dela. Depois desse acontecimento trágico, a Marielle entrou de cabeça nessa luta pela população negra.

A Marielle se assumiu gay nos últimos anos, e tem uma filha, dois casamentos... Só que a Sra. é católica fervorosa. Como era a relação de vocês?  

Desde cedo ela já tinha uma vida própria. Ela sempre foi muito independente, trabalhou bastante, e desde novinha. Então eu não podia falar muito, no sentido de criticar. O melhor que eu fiz foi apoia-la. Era uma mulher super determinada, forte em seus princípios. Com relação a vida particular dela eu não posso falar, apenas aceitar suas escolhas. Mas sobre a nossa relação, era ótimo. Ela era muito presente aqui na minha casa. Éramos amigas. E ela assumiu, de verdade, a criação da Anielle (irmã de Marielle). Foi uma parceira mesmo, porque eu tinha que trabalhar, tocar minha vida, e a Marielle ficava por aqui, cuidando, levando à escola, orientando, né, que é muito importante. Ela foi um espelho para Anielle.

Houve alguma influência da sua profissão de advogada na escolha profissional da Marielle?

O meu trabalho, especificamente, nem tanto. Mas, sem dúvida, a importância que eu sempre dei à educação foi fundamental na vida dela. Podia faltar qualquer coisa, menos educação. O contexto de família e educação foi primordial para criação dela. Por isso que ela começou a carreira profissional dela dando aula, querendo transmitir conhecimento, valores. Ela sempre defendeu o que acreditava.

Sim, e alguns anos depois, ela ingressa na política... 

Eu nunca tive medo. Talvez algum receio. Mas eu sabia onde ela havia entrado. Quando ela fez 23 anos, começou a trabalhar com o Marcelo (Freixo). E ele era um alvo, né, um parlamentar respeitado pelos colegas, com um trabalho digno à frente da luta contra às milícias. Mas esse não é o tipo de coisa que uma mãe pensa, quer dizer, se vai dar errado, o que pode acontecer... E o Marcelo é um amigo nosso, temos muita confiança nele, ele foi professor da Anielle, e Marielle fazia um trabalho muito sério na assessoria dele, sobre Direitos Humanos. Ela estava realizada ali, e eu estava feliz com isso. Então, depois desse tempo dela ao lado do Marcelo, foi tudo muito natural para ela, a eleição, a quantidade expressiva de votos, a vida como parlamentar, e a sequência da luta que ela já vinha desenvolvendo como militante.

Como foi “aquele” dia? O do assassinato. 

Estávamos todos, e bem, aqui em casa. Era uma noite tranquila, passava jogo do Flamengo na televisão. Umas dez horas, um padre amigo nosso me ligou. Ele perguntou se estava tudo bem. E eu disse, sim, sim, tudo ótimo. E ele não teve coragem de falar algo. Perguntou, antes de desligar, como estava a Marielle. E eu não sabia de nada. Depois disso é que começaram as ligações. Todo mundo ligava, perguntava da minha filha, mas ninguém teve coragem para dizer algo. Aí a Luyara Santos, minha neta, filha da Marielle, recebeu uma ligação, e a amiga dela pediu para ela colocar na Globo News. E ali nós vimos. Foi horrível. Muito doloroso. Concretamente, foi tudo pela televisão. Vimos o carro do Anderson, reconhecemos na hora. Era real.

Alguns dias depois, o Papa te ligou. Como foi isso? 

A minha neta, a Luyara, mandou uma carta para o Papa, e colocou o nosso contato. Então ele ligou no dia da missa de sétimo dia, que é muito importante para o católico. Foi muito lindo, aquele portunhol confuso dele né, mas foi incrível, a dor era muito grande naquele momento, e uma ligação do Papa, de condolência, para dizer que estava em oração por nós, que rezaria pela alma da minha filha, enfim, foi maravilhoso da parte dele. A religião, a fé, isso ajuda muito a lidar com a dor. A vida dela não acaba aqui.

O que dizer para tantas mães que perderam filhos nesta urbana no Rio de Janeiro? 

A gente tem que acreditar que isso vai acabar, porque tem que acabar. E hoje eu sei o que é a dor de uma mãe, a perda de um filho. E nós temos que continuar. Temos que manter viva as boas lembranças, os feitos, os bons momentos. E a minha dor não é maior do que nenhuma outra dor, de qualquer outra mãe. Nós, mães, estamos juntas nessa dor. Então amanhã será um dia marcante, o dia das mães, né. Será o dia de suportar uma dor que parece insuportável, mas que precisa ser vencida. Todo filho, pequeno ou adulto, tem sonhos, tem expectativas. E quando isso se perde, cabe a mãe manter vivos esses momentos, esses sonhos, essa memória, é disso que se trata a perda de um filho. Então eu peço para elas, essas mães, misericórdia e sabedoria.

Recentemente, saiu no noticiário o suposto envolvimento de um parlamentar e de polícias militares na morte da Marielle. Como é receber esta notícia? 

A gente não sabe nada além do que foi dito naquela reportagem. Então não sabemos de nada. Não queremos pensar que possa ter sido um colega da minha filha, que frequentava o parlamento com ela, convivia, mesmo, e possa ter feito isso. É um absurdo pensar nessa hipótese, a dor seria muito maior do que já é.  Foi como fizeram algumas pessoas, que quiserem matar minha filha depois de morta, e afirmaram absurdos sobre a vida e o caráter dela quando ela já não estava mais entre nós. Eu confio nas investigações, o pessoal é amigo nosso, tivemos reuniões, são pessoas que estão empenhadas na investigação. Então eu confio muito nessas pessoas, no Rivaldo Barbosa, que me chama de mãe, por exemplo. E aí eu penso, Meu Deus do céu, minha filha fez tudo tão certo. Negra, de periferia, eleita com aquela votação que foi, o que pode ter dado errado? Eu não sei. Não sei como alguém pode ter planejado um assassinato desse.

Primeiro Dia das Mães sem ela. O que falar? 

Que Estado é esse, que democracia é essa? Uma parlamentar executada, e não há resposta. Marielle, se estivesse viva estaria aqui conosco, nesse domingo, certamente estaria aqui com a família dela, no nosso almoço, na nossa Igreja, ela que adorava acompanhar as procissões. Marielle é presente, hoje e sempre, e principalmente amanhã.

Com João Francisco Werneck



Tags: angel, borbulhantes, coluna, hildegard, jb

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