Jornal do Brasil

Domingo, 24 de Junho de 2018 Fundado em 1891
Hildegard Angel

Colunistas - Hildegard Angel

Ronaldo Fraga emociona com coleção de povoado atingido na tragédia da Samarco

Jornal do Brasil HILDEGARD ANGEL

São três anos da tragédia de Mariana e a mineradora Samarco só pagou 1% da multa imposta pelos órgãos ambientais. O tema caía no esquecimento até que veio Ronaldo Fraga com seu desfile na São Paulo Fashion Week – o mais aplaudido, disparado, com direito a gente saindo com água nos olhos. Pudera: o estilista mineiro foi até Barra Longa, cidade também atingida pelo mar de lama, e trabalhou com as bordadeiras locais numa coleção que mostrou a força feminina de trabalho, talento e poesia, e como isso ajuda a reerguer o povoado. Ronaldo só fez um pedido: que elas bordassem os jardins que ali existiram. Mexeu com a memória afetiva delas para tocar a todos nós. 

Ronaldo Fraga com seu desfile na São Paulo Fashion Week – o mais aplaudido

Daí veio uma coleção com tons terrosos, com pontuais verdes e laranjas, bordados de estampas com folhas secas – caídas do chão que um dia esteve submerso por rejeitos de minério. Marília Gabriela abriu e fechou o desfile, numa atuação que remeteu àquele povo de luta que renasceu, literalmente, das cinzas. No final, as modelos, que caminhavam sem a tradicional pressa caíram na passarela – forrada de marrom e retorcida – em alusão ao lamaçal. 

Antes de ser ovacionado, Ronaldo Fraga recebeu a coluna

Antes de ser ovacionado, Ronaldo Fraga recebeu a coluna: “Passarela, para mim, é palco, é a exposição de um tempo. Passada a tragédia ambiental, a gente corre o risco de cair numa tragédia cultural, que é o desaparecimento de fazeres e saberes importantíssimos para aquele povo. Esse bordado usado nas roupas chegou lá para as meninas de Barra Grande desde o século 18, com os portugueses. Faz parte da vida e da história do lugar”. Do terreno árido, de onde não se imaginava que pudesse nascer mais nada, Fraga encontrou moda, chance e poesia. Fez do palco, história. Como queria.

BORBULHANTES

LINO VILLAVENTURA trouxe mulheres pespontadas na pele e nos vestidos (fotos acima), em que usou listras, o que não é seu habitual, e vidrilhos... SÃO 40 ANOS de moda, e moda com forte identidade. Um Lino a gente conhece de longe... O ESTILISTA é um resistente, num cenário que nem sempre o satisfaz. Reage contra a banalização na moda. A moda padronizada, em que todos repetem todo mundo... DISSE MAIS: “precisamos fazer com que as marcas sejam mais identificáveis. Os detalhes fazem a diferença. Mas vejo que pessoas vêm ao desfile para ver quem veio e não o que está acontecendo na passarela. Se é para isso, melhor ir a um bar descolado”... O DESFILE DE MODA é como uma galeria de arte onde os artistas exibem suas obras primas. E o SPFW é o evento para os profissionais e jornalistas de moda. Que amam a moda e querem estar atualizados... CERTO, O pessoal quer dar pinta, mas não vamos exagerar. Quem não se liga nessa, melhor não ir... 

Essas fotos são na Índia, onde as mulheres se mobilizaram numa manifestação, com bandeiras do PT

ENCERRO AQUI a cobertura da SPFW, que teve como colaborador da coluna o ágil repórter capixaba Lucas Rezende... A GENTE não faz ideia do impacto da prisão de Lula no exterior. Essas fotos ao lado são na Índia, onde as mulheres se mobilizaram numa manifestação, com bandeiras do PT, e saíram às ruas com faixas, pedindo “a liberdade incondicional do ex-presidente e líder dos trabalhadores - Lula De Silva”...   VESTIDAS  COM sari, cabeças cobertas, elas fizeram o seu protesto... O IMPEDIMENTO DE  uma personalidade como o Prêmio Nobel da Paz de visitar Lula na prisão ultrapassou todos os limites de irracionalidade. E só fez crescer a indignação internacional... AGORA, também o Prêmio Nobel egípcio apoia esta causa... O AUTORITARISMO jamais angaria simpatias... A CAATINGA TEM um bioma somente brasileiro. Atualmente possui apenas metade de sua cobertura vegetal original... O RESTO o homem destruiu, fazendo lenha e carvão para os polos gesseiro e cerâmico do Nordeste, para o setor siderúrgico de Minas e Espírito Santo, para biocombustível e pecuária bovina, para indústrias de médio e pequeno porte e residências... ANO APÓS ANO, a mata nativa é explorada de forma vil, e ninguém dá bola, ninguém se toca... MAS AÍ CHEGA HOJE, o 28 de abril, Dia Nacional da Caatinga, e os deputados correm para apresentar projetos de lei e preparar discursos de proteção da infeliz Caatinga, que, já em 2008, tinha sua área de vegetação reduzida em 53,62% da original... VEJAMOS SE tais projetos desta vez saem do papel ou se ficam apenas nas entrevistas, discursos e enganação dos parlamentares, como é de costume... AFINAL, A data é o 28, não é o 1° de abril...

Com João Francisco Werneck



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