Jornal do Brasil

Domingo, 24 de Junho de 2018 Fundado em 1891
Hildegard Angel

Colunistas - Hildegard Angel

Visita à ilustre senhora Tônia Carrero

Jornal do Brasil

De madrugada, recebo a notícia: aos 95 anos, Tônia Carrero desprendeu-se de nós e seguiu etérea rumo ao abraço de Adolfo Celi, Paulo Autran, Rosita Tomáz Lopes, Napoleão Moniz Freire, Celia Biar, Ítalo Rossi, Fauzi Arap, Renault, Glauco Rodrigues, Millôr Fernandes, Verinha e Anacir de Abreu, René Haguenauer, seu elenco de amigos que a esperava impaciente para dar prosseguimento, em suprema dimensão, à grande peça de sua história, pois o espetáculo não pode parar. Tônia eterna. Minha visita foi em setembro do ano 2013, tempo em que Tônia Carrero já se mantinha inacessível, refugiada nos braços de seu recolhimento. Assim como com alguns poucos amigos, minha visita foi autorizada, com dia e hora marcados. Isso se deu antes de Tônia se mudar de seu amplo apartamento do Leblon para o de Ipanema, do filho, Cecil. Pretendia guardar para mim aquele encontro de fragilidades, minha e dela. Tônia, apenas silêncio e aflição. Eu, devoção e angústia, tentando compensar a ausência de palavras dela com um jorrar de relatos meus, vivências nossas, como a vez em que ela sugeriu que eu fosse sua filha no teatro.  Os ensaios na cobertura da Fonte da Saudade. E a mudança para o Jardim Botânico, casa de atriz, banheiro de estrela. O desprendimento para se desfazer de tudo que era passado e excesso, as roupas de cena, a casa inclusive, e se mudar para o Leblon. Preparando-se para uma etapa de calma, um novo tempo. 

No dia seguinte, deixei lá com seu sobrinho e guardião, Leonardo, um buquê de flores e uma carta de agradecimento pela hospitalidade, que aqui transcrevo.

A VISITA

"Tônia, escrevo para agradecer e me penitenciar. Os americanos dizem “never explain, never complain”. Há tempos me afligia por ainda não lhe ter feito uma visita.  A você, que sempre me cobriu de carinhos e atenções.

A maior e mais tocante delas: o Retrato. Que me chegou em casa, assim da mesma forma que ontem me senti chegar na sua: inesperada, surpreendente e merecendo cálida recepção.

O Retrato, embrulhado em plástico bolha, foi deixado em minha porta como um presente seu. Ao abri-lo, encontrei Stuart, meu irmão, encenando sua Paixão, personificando o Padroeiro da Cidade, São Sebastião do Rio de Janeiro, com uma flecha no peito e o Pão de Açúcar como cenário, num ambiente todo roxo, essa eterna quaresma que corre dentro e paralela à minha vida, a todas as nossas vidas, desde o acontecido. Um quadro de Glauco Rodrigues, amigo seu e por diversas vezes ouvinte solidário do sofrimento de minha mãe. Fiquei tão tocada!

Você, elegante, não fez desse gesto alarde. Por um mensageiro, depositou o presente com delicadeza. Eu, por meu lado, mal educada por tantas décadas de agrados ocos à colunista social, demorei a agradecê-lo. O que deveria ter feito no entusiasmo do primeiro momento. Restando dentro de mim a culpa daquela demora.

Tudo isso para dizer, Tônia, que a encontrei camafeu. Tônia perfil de moeda, mãos adolescentes, pés de gueixa. Tônia perfeitinha e delicada como um Chiparus, na sua poltrona da sala, pêndulo do mais perfeito equilíbrio, no apartamento síntese do que de melhor reuniu no tempo de sua vida.

Nas paredes, os mais belos quadros de Scliar, Carybé, Glauco, o objeto do Farnese, todos seus amigos. No centro da sala, a mulher escultura de Ceschiatti, que certamente é você. E no lugar mais nobre da biblioteca, no suporte onde os religiosos colocam a Bíblia, lá está a revista Manchete, tendo, na capa, o famoso perfil de Tônia, junto ao de seu filho e sucessor nos palcos, o jovenzinho Cecil Th iré. A estrela germinava.

Presa imperceptível no ar, por fios de bicho de seda, a delicada harmonia regida por essa mulher, com sua incrível capacidade de gerar beleza de sua própria beleza. De repercuti-la, faze-la vibrar à sua volta, como se saída de uma caixinha de música, enchendo seu apartamento amplo com o som da vida perfeita, plena, vivida intensa e inteiramente em tudo que foi pretendido e feito, bem feito. 

Dama da comédia de costumes, do Vaudeville, do drama. A tragédia, a devassidão, a sofisticação — de tudo soube ser e fazer num palco. Desfilou em cena apoteóticas frivolidades. Mergulhou densa no âmago de ritos esfacelados. Não precisa provar mais nada. Apesar de, em certo momento de sua carreira, alguns céticos lhe terem pretendido negar o mérito do grande talento, o que seria demais, somado à beleza desmedida. Mas Tônia era. Tônia é.

Por fim, a síntese do seu completo êxito depositada no beijo do filho à despedida, ontem — testemunhei. Filho bom, amoroso, presente. Sem plástico bolha. Ali, palpitando todos os dias, cuidando de você, falando com voz de ternura. Também este sucesso!

Bravo, Tônia, você conseguiu em sua vida tudo e mais um pouco!

E muito obrigada ao Cecil e ao Leonardo por me permitirem ver Tônia.

Muito obrigada a você, Tônia, por escutar paciente, ou talvez impaciente, minha tagarelice de amiga cheia de culpas pelas atenções ralas, jamais correspondentes às tantas recebidas de você.

Beijo, Hilde"

As muitas faces de Tônia Carrero no teatro, na TV e na militância cidadã

   

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