Jornal do Brasil

Sábado, 23 de Junho de 2018 Fundado em 1891
Hildegard Angel

Colunistas - Hildegard Angel

Justiça destitui viúva de Chico Anysio da função de inventariante do espólio

Jornal do Brasil

A 2ª Vara de Família do Fórum da Barra da Tijuca destituiu Malgarete de Paula (a Malga) do encargo de inventariante do espólio de seu falecido marido Chico Anysio e nomeou, em substituição, o filho do artista, Bruno Mazzeo. 

Razões para tal não faltaram. Passados mais de três anos da abertura do inventário, Malga, que recebia as rendas do espólio, os direitos autorais, os aluguéis, não pagava o Imposto de Renda, não pagava o IPTU, não prestava contas aos filhos de Chico, não repassava os valores devidos aos demais herdeiros - sequer para pagar as custas processuais. Enfim, a inventariante destituída deixava todos os filhos de Chico de mãos abanando e ainda com a pecha de lesarem o fisco. 

O espólio de Chico Anysio une os filhos contra a viúva Malga de Paula 

Diz o Juiz em sua decisão: “O que se verifica pelos autos do inventário é um comportamento  desidioso da Inventariante na condução do Encargo, sequer negando tal alegação, limitando-se a tentar transferir para terceiros a responsabilidade a ela confiada (...)”. 

Os oito filhos de Chico Anysio estão todos unidos em oposição à condução de Malba (oito porque o advogado contratado na ocasião esqueceu de incluir o nono filho na elaboração do testamento, acreditam?!). Representados pelo advogado Roberto Halbouti, participaram desta ação os filhos Bruno Mazzeo (filho de Alcione Mazzeo), Francisco Anysio Neto, Luís Guilherme e Ricardo Rondelli Paula (filhos de Rose Rondelli), Rodrigo e Victoria Cardoso de Mello Paula (filhos da ex-ministra Zelia Cardoso de Mello).

A dama das Letras deixa o Brasil 

Na pujança de seus 84 anos, vigorosa, plena e buscando novas experiências, Nélida Piñon, nossa Imortal de todas as letras, embalou pacotes e bagagem para um ano inteiro, fez a mochilinha de sua pet Suzy Piñon, tomou todas as providências para manter fechado ao longo desse tempo o apartamento da Lagoa, e amanhã embarca em voo internacional, levando também sua secretária, Carla Vasconcellos, para viver experiência única, que toda a vida planejou um dia encarar: morar num país estrangeiro. 

Luiz Carlos Ritter com a Homenageada Nélida Piñon e Fernanda Montenegro, Portinari ao fundo

Alugou por um ano um apartamento em Lisboa, em rua com nome de escritor que inspira o Brasil. Hospeda-se inicialmente em hotel. Foi uma decisão pensada e amadurecida, que lhe exigiu grandes renúncias. Inclusive à presidência da Academia Brasileira de Letras, que era o seu turno de ser. Ficará afastada do convívio dos amigos próximos, e eles dela. 

O motivo da viagem tão longa de Nélida Piñon é escrever, na calma e emuladora Lisboa, seu próximo romance. A espinha dorsal já está traçada. Há várias páginas já escritas. Agora vai dar o grande mergulho profundo, transportar-se para o outro mundo, aquele a que nem os mais íntimos jamais terão acesso, o mundo de Apolo, o deus das artes, e suas musas.

Jantar da despedida 

Para não fazer essa ausência tão penosa, um dos eleitos de Nélida, Luiz Carlos Ritter, fez jantar em casa na quinta-feira com os queridos da Piñon. Éramos dez à mesa de lugares marcados, só requinte. 

Antes da mesa, façamos uma panorâmica na casa. Única no Rio de Janeiro. Única no Brasil. Um grande apartamento à beira mar, que não vou localizar, cuja pinacoteca justifica a criação de um museu nacional de arte moderna apenas para guardá-la. 

Panorama das artes nacionais 

Na primeira parte do salão de estar, apenas Portinari. Todos aqueles portinaris que nossa memória afetiva guarda, dos livros e ilustrações, lá, ao vivo, nos observando. Os meninos, os carneiros, o brasileiro sofredor nos olhando com olhos de Portinari. 

Na outra parte do salão, só Di Cavalcanti, desde seus tempos de buquês floridos. Fileiras sobre fileiras de quadros, belamente emoldurados, em notáveis dimensões. Na sala de jantar, Guignard. E Guignard e Guignard e Guignard. 

Logo no pequeno hall de entrada, um espantalho de Portinari nos saúda. E há alguns Cícero Dias. Um longo corredor de Pancetti(s). E muitos Cícero Dias. Tem Franz Post? Tem. Paredes cobertas e recobertas. Um quarto com Iberê Camargo (Ritter é gaúcho como ele), uma porção. Volpi, Scliar, Maria Leontina, Franz Weissman, várias pequenas esculturas. Ah, Bandeira! Tem Bandeira de desde o tempo em que ele não se parecia com Bandeira, e os outros todos também.

Ismael Nery há, capotantes. Dois deles estão na cabeceira do anfitrião, e se preparam para partir para exposição em São Paulo.

Ah, escondidinho vi um Castagneto. Barco ao mar, sob céu claro, cintilando intenso com suas luzes, em seu isolamento na biblioteca. 

Calder complexado 

Voltando ao grande salão, vejo um isolado mobile do americano Calder em pé sobre o tapete, parecendo assim meio intimidado diante do brilho desafiador da tropa de choque das artes brasileiras, no enfrentamento a ele. 

Nélida Piñon e a jornalista Ana Cristina Reis; O Calder, Hilde e Nélida

Quixote solitário no centro da sala, Calder parecia trocar olhares súplices por apoio com a floreira art nouveau de prata alemã, mais de um metro de extensão, recheada com rosas vermelhas, na mesa de centro, e com o par de tartarugas gigantes de prata, do italiano Buccellati, rastejando no piso. Só mesmo arregimentando exército aliado estrangeiro, para fazer frente a tanta arte e beleza das paredes de Ritter, e conseguir chamar alguma atenção...    

À mesa com Nélida 

Anfitrião numa cabeceira, ela na outra. Ali realmente se pratica a arte da gastronomia. O bacalhau seguindo à risca receita de Claude Troisgros acompanhado de robuchon (purê de batata dos franceses, muito mais saboroso e engordativo, com manteiga e creme de leite) e o creme de tapioca brûlée estavam qualquer coisa. 

Aparelho único 

Tudo servido num aparelho de jantar pintado à mão, cada prato com uma representação diferente de frutos por um pintor moderno francês consagrado. Sofisticação. O champagne era Dom Pérignon. O vinho branco era Mouton-Rothschild. O tinto, Barca Velha lusitano, em homenagem à barca em que Nélida está prestes a embarcar amanhã.

Fernanda escovada 

Os comensais: Fernanda Montenegro, ótima, memória extraordinária, fez um retrospecto da carreira, tinha os cabelos escovados e brilhando, a postura ereta, aparentando 20 anos menos do que a Mercedes da novela, o que é uma atriz! A jornalista Ana Cristina Reis, elaborando a hipótese de reunir suas crônicas num livro em breve tempo. Bebel e Paulinho Niemeyer, que visitaram a pinacoteca de Ritter com curiosidade e grande interesse. Os habituais da casa, Paulo Arguelles e o advogado de todos, Roberto Halbouti.

Roberto Halbouti e Bebel Niemeyer; Paulo Arguelles e Paulo Niemeyer ao fundo



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