Jornal do Brasil

Sábado, 18 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Que tipo de pai somos e que tipo de pais queremos ser?

Jornal do Brasil Gilberto Scofield Jr.

É Dia dos Pais e, lendo na “Revista da Folha” um artigo do Mário Prata sobre paternidade, me chamou a atenção o trecho em que o escritor define que ser pai “são essas duas coisas sempre em briga: os ideais da paternidade e as urgências momentâneas”. É a tal coisa: chega o fim de semana, você tem um trabalho extra para entregar, está sozinho, mas seu filho quer brincar ou ir à praia, como conciliar? Bota na mão do moleque um videogame e volta ao computador? Isso é terceirizar a criação? Porque outra coisa que Prata fala e que é fato é o seguinte: depois que o filho entra na sua vida, o seu tempo não é mais seu. E se você decide que seja, é um pai muito safado, porque ou está sobrecarregando seu cônjuge ou não entende a temporalidade infantil ou adolescente. Eu já me ressinto de morar numa cidade do interior e trabalhar na capital perdendo um tempo enorme no deslocamento. 

Não estou aqui falando de criar príncipes ou princesas. O fato é que entender/atender o tempo da criança/jovem é tentar criar gente com conceitos e princípios. Criança precisa de atenção, orientação, amor e limite para amadurecer sem estresses. Adolescentes são mais complicados, porque na equação entram coisas como amigos, celulares e exigências de privacidade que nem sempre se pode respeitar por questões de segurança. Ou pelo menos a gente que é pai acha. 

Ninguém admite, mas eu repito aqui: paternidade dá um trabalho danado se você quer criar pessoas que, quando crescerem, não joguem suas mulheres do quarto andar do edifício depois de espancá-las pelo prédio, como vimos recentemente no caso da advogada Tatiane Spitzner e do marido, o biólogo Luis Felipe Manvalier. O casal parecia bem, o cara bacana, bonitão, malhado e tal, os dois rindo em fotos impecáveis no Instagram. Daí vem a masculinidade tóxica a que me referi no artigo passado e faz o sujeito estrangular, espancar e jogar a mulher de uma sacada do quarto andar de um prédio no Paraná.

E o que o caso tem a ver com paternidade? Eu diria que um bocado. Porque como foi a criação desse cara? A que valores e noções de respeito ao feminino (à sua mulher? À qualquer mulher?) ele foi apresentado durante sua vida? Ou o pai espancava a mãe e ele via tudo calado? Ou a mãe achava que mulher que sai de minissaia e decote “tem que aguentar as consequências”? Em que momento esse sujeito - que até ontem era um gostosão do Instagram, com um grupo de amigos ok, emprego ok, morando bem - achou que matar a mulher era normal se ela “pisou na bola”, em sua opinião? E os vizinhos? Por que se omitiram? Em que momento da criação dessas pessoas interferir numa situação de injustiça é considerada uma boa decisão? Isso vem de casa, não se iludam.

A quantidade de lares brasileiros chefiados por mulheres saltou de 23% para 40% entre 1995 e 2015, segundo informações do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Destes 40%, muito mais da metade, 66% para ser mais exato, são famílias chefi adas apenas por mulheres. Os pais se foram. Muitos para sempre. Que país é esse? Lembro-me que, na Copa do Mundo, li uma matéria que dizia que sete dos jogadores da seleção foram criados sem os pais. O pai do goleiro reserva Cássio abandonou a família antes de o garoto nascer. Infelizmente, isso é mais comum do que se imagina e, não se enganem, tem reflexos gigantesco na sociedade em que vivemos. Não me espanta ver pais de quinta categoria levantarem o dedo para o alto para dizer que o aborto é um assassinato de uma vida. Ora, assassinar uma vida é abdicar de ser pai de uma criança. Casamentos acabam, é óbvio, mas você é pai – e mãe - para sempre. Melhor não ter filhos que tê-los abandonados, desamados, desprotegidos, desorientados, quando não maltratados, espancados, manipulados, postos para fora de casa, trabalhando para o sustento da família, rejeitados. Há em tudo uma hipocrisia que não se discute em lugar algum. 

É certo que não há fórmula pronta para a paternidade, mas há certos consensos que soam sensatos. Demonstrações de afeto, valorização da educação e da ciência, da ética e da solidariedade, da empatia e do amor, da amizade e do trabalho honesto. Tudo isso é bom para passar de geração em geração. 

Ainda assim, há o imponderável. As influências externas, a soberba irresponsável da adolescência, a lama por trás de gente doente na internet, a violência pura e simples, há um monte de desafios à espreita, mas é preciso ser otimista e estar atento a tudo. Eu sempre me pergunto se sou um bom pai. Sempre. E sei que estou longe da perfeição. Algumas coisas me preocupam. Às vezes me pego escolhendo para eles coisas que, no fundo, eu desejo para mim. Até que ponto os nossos desejos para nossos fi lhos são bom para eles ou para nós? Em que momento se percebe que é hora de deixá-los voar? 

No artigo de Prata, ele conta que sua avó dizia que, no tempo dela, o homem não tinha qualquer obrigação de cuidar dos filhos ou da casa. “O pai presente era um elogio, hoje é uma obrigação”, diz ele. Não quero posar de pessimista, mas não vejo isso como uma coisa de geração. Há pais ausentes ainda hoje, dependendo de para onde se olhe. É mais cultural que qualquer outra coisa. Isso quando não é a religião a empurrar os rituais para a Idade Média usando de uma interpretação de escrituras bastante seletiva. Ou a pobreza pura e simples. 

A paternidade passa por transformações, fruto de cobranças diversas. Há também uma enorme reação conservadora. Feliz Dia dos Pais para quem abraçou a paternidade de fato. 



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