Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Reflexões

Jornal do Brasil Raquel Stivelman*

É triste admitir, mas a vida não é justa. Quando estamos no auge de nossas forças cometemos muitos erros. A capacidade de fazer concessões, o tempo disponível para o encanto das ditas coisas pequenas da vida, a empatia e muitos outros atributos positivos são mais escassos. São os ditos problemas maiores que contam, em uma escala quase absoluta. Vale reconhecer que há justificativas plausíveis para esse estado de coisas.

Quando, aos poucos, o arrefecer de quase tudo se acentua e as forças lentamente começam a faltar – e faltam mesmo. De uma forma completamente oposta, surgem sinais de enternecimento, de compreensão das falhas cometidas, as suas e as dos outros, e o dar-se conta de que os lindos espetáculos de um pôr do sol ou da luz de um novo amanhecer estarão normalmente escasseando, tem-se um insight  mais nítido desse descompasso. O que fazer?

Muito a propósito do tema que está agora sendo discutido, creio que um texto lindo, que uma querida amiga me enviou, seja muito ilustrativo: “Maria Jiló é uma senhora de 92 anos, miúda e tão elegante que todo dia, às 8h, já está vestida, bem penteada e discretamente maquiada, apesar de sua pouca visão. Hoje ela se mudou para uma casa de repouso: o marido, com quem viveu 70 anos, morreu recentemente e não havia outra solução. Depois de esperar pacientemente por duas horas na sala de visitas, ela ainda deu um lindo sorriso quando a atendente veio dizer que seu quarto estava pronto. Enquanto ela manobrava o andador, a atendente deu uma descrição do seu minúsculo quartinho, inclusive das cortinas floridas que enfeitavam a janela.

A senhora a interrompeu com o entusiasmo de uma garotinha: ‘Ah, eu amo essas cortinas!’. A felicidade é algo que você decide por princípio. Se eu vou gostar ou não do meu quarto não depende de como a mobília vai estar arrumada. Vai depender de como eu preparo minha expectativa. E eu já decidi que vou amar! É uma decisão que tomo todo dia quando acordo.

Sabe, eu posso passar o dia inteiro na cama, contando as dificuldades que tenho em certas partes de meu corpo que não funcionam bem... Ou posso levantar da cama agradecendo pelos outras partes que ainda me obedecem. – Simples assim? Pergunta a atendente. – Nem tanto; isto é para quem tem autocontrole e todos podem aprender. Exigiu de mim um certo treino, mas é bom saber que ainda posso dirigir meus pensamentos e escolher em consequência, os sentimentos”. Calmamente, a senhora continuou: “... A velhice é como uma conta bancária: você só retira aquilo o que guardou. Então, meu conselho para você é depositar um monte de alegria e felicidade na sua Conta de Lembranças”. Depois ela pediu para anotar: “Como manter-se jovem”:

1- deixe fora os números que não são essenciais. Isso inclui a idade, o peso e a altura;

2- mantenha os amigos divertidos. Os depressivos, procure ajudar, se puder;

3- aprenda sempre. Não deixe que o cérebro se torne preguiçoso. Uma mente preguiçosa é a oficina do alemão. E o nome do alemão é Alzheimer!;

4- aprecie mais as pequenas coisas. Aprecie mais!;

5- ria muitas vezes, até lhe faltar o ar. E se tiver um amigo que o faça rir, passe muito e muito tempo com ele/ela!;

6- quando as lágrimas aparecerem, aguente, sofra e ultrapasse. A única pessoa que fica conosco toda a vida somos nós próprios;

7- rodeie-se das coisas que ama: a família, animais, plantas, hobbies, o que quer que seja;

8- tome cuidado com a sua saúde. Se é boa, mantenha-a. Se é instável, melhore-a. Se não conseguir melhorá-la, procure ajuda;

9- não faça viagens de culpa. Faça uma viagem ao centro comercial, até um país diferente, mas não para onde haja culpa;

10- diga às pessoas que as ama e que ama cada oportunidade de estar com elas!

E, se não mandar isso a pelo menos quatro pessoas, quem é que se importa? Serão apenas quatro pessoas que deixarão de sorrir ao ver uma mensagem sua. Mas se puder, partilhe com alguém! Um dia você aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer com alguém,  continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida”. Lindo, lindo, lindo!

* Mestre em Educação pela UFRJ



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