Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Moradores de rua

Jornal do Brasil Adir Ben Kauss*

Há uma mistura de desprezo e temor em relação àqueles que perambulam pelas ruas. Esses sentimentos podem ser explicados de muitas maneiras, e também por uma leitura subjetiva de que a miséria e a loucura dos outros podem espelhar simbolicamente as nossas. Melhor então que fiquem invisíveis, inexistentes, fora e dentro de nós.

Para quem se coloca como inquieto observador dos movimentos sociais, a vida ensina que política sem compaixão não constrói uma sociedade melhor, e a verdadeira consciência social não é somente uma tomada de posição intelectual, mas a compreensão do humano que existe em cada um de nós e no outro.

Felizmente vão caindo por terra paradigmas e certezas absolutas no fazer político. Hoje, vários grupos, independentemente dos governos, se aproximam solidariamente dos desamparados, dos indivíduos com conflitos mentais e familiares, dos dependentes químicos e de cidadãos que simplesmente desistiram de viver uma vida que não lhes faz mais sentido.

Essa militância social se dá pela compreensão de que é fundamental construir incansavelmente a inclusão solidária, na vida cidadã, de uma legião de pessoas apartadas social e moralmente, e que a democracia plena só se dará com a organização sólida e generosa de uma ampla base da sociedade. 

Quinze mil pessoas na cidade do Rio de Janeiro, sendo cinco mil apenas no Centro, é o número aproximado da população em situação de rua, como hoje se denomina. Ela é composta essencialmente pelos grupos acima descritos. A atual crise econômica, sem horizonte de arrefecimento, aumentará em muito esse contingente, não só no Rio como em todas grandes cidades brasileiras.

São os desempregados que progressivamente foram perdendo tudo, inclusive suas moradias, os desalentados que desistiram de procurar emprego, aqueles que vivem de biscates e catadores que, por morarem longe e sem dinheiro para condução, preferem dormir sob as marquises, só retornando às suas casas no fim de semana.

Para cada um desses grupos é necessária uma solução particular. Para os dependentes químicos e portadores de transtornos mentais, o apoiamento clínico e psiquiátrico. Para os desempregados e sem teto, os centros de acolhimento, abrigos temporários e programas sociais voltados para a inclusão de famílias em habitações permanentes. Para os trabalhadores informais, os albergues noturnos. 

Grupos de pessoas em situação de rua apropriam-se do espaço público. Por falta de opção, ali passa a ser a sua casa. Há uma certa organização e hierarquização do espaço com seus usos – o lugar de dormir, de cozinhar, de lavar e quarar as roupas.

As pessoas se aproximam e se aglutinam por similaridade de suas histórias ou afinidades de temperamento, tal como se dá na estruturação das famílias e de grupos sociais convencionais.  Instala-se, assim, uma vida comunitária informal, que garantirá autoproteção frente ao agressor intruso, muitas vezes o poder público.

A reinserção dos excluídos e dos desenraizados, que perderam pelo caminho sua história e identidade, requer uma cuidadosa e delicada ação do poder público. O primeiro passo é entender que se trata de um problema social e não policial. O segundo é o aparelhamento do Estado para abrigar com humanidade essas pessoas, dando-lhes não somente um teto, mas apoio efetivo para uma readequação profissional, visando promover o reingresso numa vida minimamente produtiva.

O objetivo não deve ser simplesmente retirar as pessoas do espaço público como uma medida higienizadora, mas acreditar que pela integração ao trabalho as pessoas podem recuperar sua autoestima e encontrar um novo sentido para a vida. Tarefa difícil e espinhosa, mas imprescindível se pretendemos viver numa cidade solidária. Solidariedade – sentimento e palavra-chave para que nos reconheçamos companheiros da urgente construção de uma sociedade mais justa e humana para todos.

* Arquiteto e urbanista



Tags: artigo, espaço público, governo, jb, militância

Compartilhe: