Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

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Dicas do Aquiles: O prazer de ser e tocar

Jornal do Brasil Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

O pianista e compositor Diogo Monzo acaba de lançar “Filhos do Brasil” (Biscoito Fino). Eu o conheci pelo CD no qual gravou apenas músicas do lendário pianista Luiz Eça. Para homenagear o mestre, Monzo se valeu de sua pesquisa de mestrado, que tinha Eça como tema, e para a qual canalizou suas forças pianística, erudita e popular.

Hoje, ele traz um projeto de piano solo, em que a liberdade de criar arranjos para clássicos da música popular e de improvisar sobre eles é formidável.

Além dos que citarei mais à frente, no álbum estão composições de João de Barro (Braguinha) e Antonio Almeida; Pixinguinha, Benedito Lacerda e Nelson Angelo; Noel Rosa; João Gilberto, mescladas com músicas de Tom Jobim e Chico Buarque; Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli; Francis Hime e Ruy Guerra, além de duas parcerias de Luiz Eça com Fernanda Quinderé (ela que também é produtora artística do CD), e duas composições de Monzo.

Suas interpretações ao piano, de fato, renovam as músicas. Embora sendo um erudito, a veia popular de Monzo faz com que os improvisos não caiam na esparrela de sobrepujar as linhas melódicas e harmônicas de canções já devidamente preservadas no imaginário popular. Em todas, ele demonstra sincero prazer de tocar, o que faz dele um virtuoso com extensa sensibilidade musical.

Abrindo o CD, “Luar do sertão” (Catulo da Paixão Cearense). O início é tenso, mas logo atenua a pegada. Sob a melodia, uma levada nas notas graves expõe um improviso que desagua em notas dedilhadas da harmonia.

Em “Choro bandido” (Edu Lobo e Chico Buarque), Monzo tem a sensibilidade na ponta dos dedos (não há coisa feita que faça seu piano soar apático, vixe!). Desde a intro, sente-se nos dedos a fissura pela excelência harmônica. Um improviso revê a graça da obra.

“Segredos” (Diogo Manzo), um belo tema que soa numa levada contínua e forte. Em “Cor do sol – Loro” (Egberto Gismonti e Eugenio Dale), a pujança de Egberto encontra provimento no piano de Monzo. Uma levada repetida, sob um improviso, antecede a volta da melodia.

Já “Olhar de princesa” (Luiz Eça e Fernanda Quinderé) vem suave, sem pressa de se revelar linda. Meu Deus!

Por fim, “Bim bom” (João Gilberto), quando Monzo comprova sua excelência em gêneros díspares e, ao mesmo tempo, joga cordialidade sobre a crise pela qual João está passando.

Mudando o rumo da prosa: do encarte extraí trechos de um manifesto no qual Monzo demonstra não viver apenas para seu piano. No texto, ele descreve sua inquietude com relação ao papel libertador da música e da arte: “Eu acredito em uma música livre (...) Acredito na arte como fonte para mudanças, como fonte para novas reflexões, modeladora de uma nova consciência (...)”.

Aderindo a Diogo Monzo, digo: sinônimo de música, a vida nasce após um brado, o canto primal do recém-nascido. E é no som instrumental, por conta de suas nuances, que a vida assume de forma decisiva o poder libertador da música.

Música que clama em Sol maior: meu nome é liberdade!



Tags: aquiles, caderno b, diogo monzo, música, piano

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