Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

A ética no cotidiano do brasileiro

Em sua vã filosofia, o brasileiro crê que pode passar a perna na realidade

Jornal do Brasil Marcio Salgado*, marcio.salgado@jb.com.br

Viver em sociedade é conviver, relacionar-se com outras pessoas, e, para tanto, é necessário observar certos princípios que consideramos éticos. Não fomos nós que criamos esses princípios, pois eles preexistem à nossa existência. Também não foram os nossos pais, mas certamente eles não caíram dos céus: foram criados em determinado momento.

O vocábulo Ética vem do grego Ethos e significa modo de ser, caráter. Por aí dá para perceber que ele é bem antigo, mas não velho, pois jamais sai de moda. E não sai porque a ética é imprescindível ao bom andamento das relações sociais. 

Vamos imaginar que de um momento para outro todo mundo resolvesse contar mentiras. Em princípio, isso não é crime. Mas, como ficaria na prática a vida da gente se resolvêssemos mentir para os nossos irmãos, para os nossos colegas de profissão, para os nossos amigos? Se todos resolvessem mentir para todos, a vida certamente viraria um inferno. Em pouco tempo as relações sociais chegariam a um estado de total confusão, ninguém mais se entenderia.

Ser ético exige seguir certos princípios. Como o ser humano é naturalmente imperfeito, ele deve estar atento para não violar o direito dos outros, para não infringir as leis, para não destruir aquilo que norteia a nossa convivência. 

Obedecer às leis do Estado, seguir certos ensinamentos religiosos, diz respeito à moral, que tem um sentido prático. Já a ética pode ser definida como a ciência do comportamento humano. 

Atualmente no país observamos uma total ausência de ética por parte dos governantes. Não são todos, mas é um número assustador de políticos que são flagrados em atos ilícitos. Eles precisam de lições de ética, e, muito mais que isso, jamais deveriam ser contemplados com a impunidade, pois esta é a mãe de todos os vícios.

Não é demais lembrar que o poder tem as suas circunstâncias. Lamenta-se que estas não sejam as mesmas dos cidadãos, e, por conta disso, as que nos cercam não são lá muito otimistas. É preciso vontade e persistência para mudá-las. É lugar-comun dizer que o brasileiro tem astúcia, embora, no mais das vezes, ele entre na história se sentindo a raposa e termine devorado como um cordeiro. 

A sua filosofia é se dar bem na vida, mas os que têm poder se dão melhor. Não raro ele se encontra na condição de enganado e maldiz da própria sorte; em compensação, o seu destino virou uma festa.

No seu caráter manifesta-se o predomínio dos sentimentos sobre a razão. As contradições são inevitáveis: em um cotidiano marcado pelas leis vorazes do capitalismo periférico, os excluídos são milhões e as demandas sociais se multiplicam. O estado sinaliza com promessas que não se cumprem. Por aí é possível entender como um país onde predomina o sentido lúdico da vida pode se tornar tão violento.

Cito uma historieta de Voltaire (1694-1778), que está no romance “Cândido, ou o otimismo”. Após longa e penosa viagem, Cândido chega ao país de Eldorado e fica abismado com tanta riqueza. Aquele era um lugar abençoado, onde havia, em quantidade, ouro e alimentos. Após saciar a fome e a sede, o viajante, que tinha gosto pela metafísica, perguntou se não havia no país uma religião. O velho sábio da aldeia ficou espantado com a pergunta; observou que eles não eram um povo ingrato e adoravam a Deus. Não satisfeito, Cândido quis então saber de que modo, em Eldorado, se implorava ao demiurgo. O seu interlocutor respondeu tranquilo: “De maneira nenhuma, nada temos a pedir-lhe; agradecemos sem cessar.”

A lenda nos faz lembrar o lado místico da nossa identidade, que se manifesta através das mais diversas formas de religiosidade. Mas, ao contrário da história citada, por aqui se pede muito a Deus. É que nós temos “eldorados” onde crianças brincam entre balas rasantes. E neste cotidiano de urgências, o brasileiro negocia a sua realidade, cujos dados traem as melhores esperanças. Isso faz com que olhemos para o lado transcendente da vida como o lugar de salvação. 

Entre nós, as coisas têm o seu jeito de andar e desandar. Sem alimentar preconceitos que maltratam a nossa autoestima, a verdade é que vivemos num país onde a realidade costuma apresentar-se com uma contraface mágica. Observamos este aspecto, admirados da nossa própria capacidade inventiva. Em sua vã filosofia, o brasileiro crê que pode passar a perna na realidade, mas se engana. 

Os dias atuais são propícios para refletir sobre essas questões éticas, bem como sobre as novas formas de relacionar-se com os seres que compõem o nosso habitat natural. Sim, as formas de lidar com a natureza também fazem parte de um aprendizado.

As dificuldades que o brasileiro enfrenta no cotidiano tornam a vida vacilante em vários sentidos. E a vida é o que nos interessa: o encontro do eu com a realidade. Por isso mesmo, viver não é algo que se faça sem riscos ou mesmo sem dramas. 

A vida é feita de múltiplas faces, temos que fazer escolhas. Não buscamos a felicidade no paraíso, mas neste mundo real, cheio de conflitos. Foi neste mundo que Cândido se debateu, após ser expulso do paraíso terrestre, onde antes vivia. Ele acreditava no “melhor dos mundos possíveis”, que seu mentor, o filósofo Pangloss, ensinava; até que a vida lhe apresentou as mais cruéis adversidades. 

Ao final, Cândido encontrou nas palavras de um aldeão que cuidava do seu pomar uma antítese da filosofia que aprendera. Para combater os vícios, o velho turco valorizava a beleza do seu trabalho simples. E disse uma bela frase ao final do romance: “Tudo isso está bem dito, mas devemos cultivar nosso jardim.” 

*Jornalista e escritor



Tags: caderno b, cultura, filosofia, literatura, ética

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