Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Artigo

Colaborações supranacionais

Jornal do Brasil Ignacio Bediaga*

A década em que vivemos será lembrada por duas descobertas experimentais de vital importância para a compreensão da física fundamental: a observação do bóson de Higgs (2012), por colaborações da experiência com o LHC no Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern); e a detecção das ondas gravitacionais (2016), pela colaboração Ligo nos EUA. Ambas descobertas envolveram aparatos experimentais de grandes proporções, construídos por centenas de cientistas e engenheiros, provenientes de várias partes do mundo. Cada vez mais soluções como essas, para grandes desafios científicos, se dão através de organizações supranacionais, com centenas ou milhares de atores, organizados de forma colaborativa, com tarefas e responsabilidades previamente acordadas entre os diferentes grupos. 

É crescente o número de áreas do conhecimento que seguem por esse caminho: a astronomia, com seus telescópios cada vez mais potentes; a biologia, com o genoma; a física de raios cósmicos, com seus detectores espalhados em centenas de quilômetros quadrados; a física da fusão nuclear, com o grande desafio científico tecnológico de produzir energia do abundante hidrogênio; a biomedicina, na busca de fármacos mais potentes e eficientes. Todas são exemplos de atividade científica que não pertence a iniciativas de um único país. 

São várias as etapas de projetos dessa magnitude: proposta inicial incluindo estudos de viabilidade técnica e científica; organização da colaboração supranacional, definindo tarefas, responsabilidade e divisão da contribuição de cada grupo na empreitada.  

Embora sejam colaborações supranacionais, os grupos participantes das várias universidades e centros de pesquisas são baseados em diversos países, que, além de assumirem os salários de suas equipes, têm seus órgãos de fomento financiando a construção desses empreendimentos. Por isso, a política de apoio a essas atividade deve ser pensada sob um ponto de vista dos interesses nacionais. Podemos elencar quatro aspectos que envolvem esses interesses: conhecimento adquirido e seus efeitos culturais, desenvolvimento do capital humano, desenvolvimento tecnológico e o envolvimento das empresas nacionais na aquisição e produção dessas novas tecnologias. 

No sentido de tornar mais efetiva a participação de um país nessas grandes colaborações e maximizar o retorno dos seus investimentos, as várias nações envolvidas criaram instituições dedicadas a coordenar os grupos nacionais. Nesse sentido, o Brasil criou há dez anos uma organização, a Rede Nacional de Física de Altas Energias (Renafae), ligada ao então Ministério de Ciência e Tecnologia.

Podemos comemorar os bons resultados que obtivemos tanto no crescimento de nossa comunidade científica, nossa maior inserção em diversas colaborações experimentais, bem como na expansão do número de institutos participantes. Hoje, o Brasil conta com mais de 120 pesquisadores doutores provenientes de 20 instituições nacionais, envolvidos diretamente em grandes colaborações internacionais.

Na semana passada foi realizado o workshop pelos dez anos da Rede, com 160 participantes e trabalhos sobre instrumentação científica, análise de dados, computação de alto desempenho e divulgação científica. 

Além dos aspectos científicos, tivemos análises referentes às dificuldades da área, desde problemas de financiamento até dificuldade da legislação brasileira em assinar protocolos de cooperação internacional de longa duração. O ponto mais relevante dessas discussões foi a visível necessidade de reorganização da Rede. O status atual se torna um obstáculo a avanços que se farão necessários daqui para frente: planejamento de longo prazo, autonomia financeira, independência administrativa, estabilidade orçamentária, ampliação das fontes de captação de recursos. Essas e outras medidas, certamente, trarão mais eficiência e responsabilidade às ações da Rede, capacitando-a para atuar de forma mais eficiente na coordenação dos grupos nacionais, como no sentido de maximizar os investimentos nacionais nessa área.

* Pesquisador Titular do CBPF



Tags: artigo, ciência, física, higgs, jb

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